Ivo Macuxi: ‘Nossa visão de mundo precisa ser respeitada’, diz advogado indígena

Assessor jurídico do Conselho Indígena de Roraima (CIR), o ativista Ivo Macuxi, de 35 anos, é integrante de uma rede brasileira de advogados indígenas. Integrante de uma nova geração de líderes da floresta, ele conversou com O GLOBO sobre a importância das redes sociais na articulação dos povos originários, que vêm explorando as ferramentas digitais para mobilizar os diversos povos no Brasil ao redor de denúncias e de manifestações presenciais em defesa dos territórios. Na entrevista, ele disse que esse movimento vem obtendo êxito em 'conquistar o coração das pessoas',

O que explica o crescimento da articulação indígena nos mundos físico e virtual?

De 1500 até a Constituição de 1988, nós fomos massacrados. Não tínhamos direitos, não éramos cidadãos, precisávamos de autorização para sair das reservas, éramos tutelados, como crianças. A Constituição reconheceu o direito a nossos territórios, e, nos anos 1990, começamos a nos organizar para lutar pelo que a Carta nos garantiu. A partir do século XXI, veio uma geração que herdou essa sabedoria de luta e resistência e que aprendeu o conhecimento do mundo ocidental, formando-se nas faculdades e dominando as ferramentas de comunicação.

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Sente falta de apoio à causa indígena, já que preservação das florestas é fundamental para a vida no planeta?

Estudos mostram que as reservas indígenas são as áreas mais bem preservadas da Amazônia. É o nosso modo de vida que promove essa proteção e presta um serviço ao mundo todo. A gente vem conseguindo tocar o coração das pessoas, trazendo artistas e influenciadores não indígenas para perto da causa. Queremos mostrar quem somos, nossos costumes. Temos nossa visão do mundo, que precisa ser respeitada. Mas precisamos da participação de toda a sociedade nesse movimento. A preservação da floresta é importante para todos, e não apenas para os indígenas.

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Você vê uma mudança de posição, a favor das reservas indígenas, entre empresários também?

O capitalismo promove uma visão individualista, que preconiza acúmulo de riqueza. Mas, conversando com empresários do agronegócio, percebemos que muitos vêm pensando de forma diferente, demonstrando consciência sobre o papel das reservas na manutenção das chuvas. O desmatamento provoca desequilíbrio no regime de chuvas e prejudica a produção de alimentos. O mundo se vê precisando de sementes transgênicas, aumentando o uso de agrotóxicos. É um ciclo de destruição que só traz danos.

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O STF deve retomar, este ano, o julgamento da tese do marco temporal, segundo a qual um povo indígena só tem direito a um território se o estava ocupando na data da Constituição. Qual a expectativa?

Além de inconstitucional, o marco temporal ignora uma série de questões. Se for mantido, vai reverter demarcações em andamento e impedir outras. Seria uma tragédia ambiental. Esperamos que o STF conclua o julgamento a favor da Constituição, derrubando a tese. Mas há pressões de todos os lados, inclusive do presidente, que é contra as reservas indígenas.

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