'Já perdemos tempo demais', desabafa filha de mulher que teve tratamento interrompido durante pandemia da Covid-19

Rodrigo de Souza*
Edvânia Barbosa, 46 anos, em foto de arquivo

Edvânia Barbosa, de 46 anos, teve dois acidentes vasculares cerebrais isquêmicos (AVCI) desde dezembro de 2019. Quem conta é sua filha, Wiviany Barbosa, de 22 anos. Elas moram juntas na cidade interiorana de João Alfredo, de pouco mais de 30 mil habitantes, que fica no agreste setentrional de Pernambuco. Agora, a pandemia da Covid-19 representa mais um desafio na sua recuperação.

Quando surgiram os sintomas do primeiro AVC, Edvânia correu para um hospital municipal, onde ouviu que tivera apenas paralisia facial. Os sintomas foram brandos, e a paciente voltou para casa. Na semana seguinte, porém, a professora da rede pública continuou a relatar fortes dores de cabeça, o que a levou a procurar uma consulta particular.

No meio da sessão com o neurologista, Edvânia apresentou os sintomas de um novo AVC. O médico, segundo Wiviany, também não foi capaz de identificar o verdadeiro problema. Liberou Edvânia com diagnóstico de crise de ansiedade. A paciente voltou para casa com “a boca torta e o braço paralisado”, relata ainda a filha.

Dias depois, Edvânia perdeu totalmente as forças do lado esquerdo do corpo. Wiviany conta que a mãe teve de ser carregada para a consulta de retorno com o neurologista, pois não conseguia andar. O médico reiterou seu diagnóstico e prescreveu ansiolíticos, que não funcionaram. Sem resposta, Edivânia decidiu ir para o Hospital da Restauração Governador Paulo Guerra, em Recife, a 106 quilômetros de sua cidade. Lá recebeu seu verdadeiro diagnóstico.

– O neurologista analisou a ressonância e disse que não compreendia como minha mãe pôde ficar tanto tempo em casa perdendo tempo – conta Wiviany.

Edvânia acabou sendo transferida para outro hospital público, o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), onde fez exames e cirurgia. A paciente ficou internada por 23 dias. Ao ter alta, recebeu a prescrição para acompanhamento clínico, para investigar as causas do problema e evitar uma recidiva. E foi receitada a fazer tratamento com fisioterapia, para aliviar as sequelas – paralisia total e dores constantes no lado esquerdo do corpo.

Com a pandemia de Covid-19, a história de Edvânia ganhou um novo capítulo. No fim de fevereiro, Wiviany percorreu mais de 100 quilômetros até o Hospital das Clínicas, em Pernambuco, para agendar para sua mãe a primeira consulta neurológica após o segundo AVC.

A sessão ficou marcada para o dia 30 de março. Duas semanas depois, conforme a incidência de Covid-19 no país aumentava, Wiviany resolveu ligar para o hospital para confirmar o agendamento. Descobriu que a consulta havia sido remarcada para o dia 6 de julho.

– Fiquei em choque, porque a situação da minha mãe é delicada – diz Wiviany. – Acredito que essa consulta na verdade nem vai ser feita no dia 6 de julho, com a quantidade de casos aumentando. Sinceramente, acho que não há previsão.

Por causa do novo coronavírus, o centro de reabilitação municipal no qual Edivânia fazia fisioterapia fechou as portas no dia 24 de março. Na última quinta-feira, dia 16 de abril, a unidade retomou as atividades para os casos mais graves, como o de Edvânia. Para Wiviany, os dias sem tratamento comprometeram as chances da mãe de atenuar as sequelas.

– Já perdemos tempo demais, e tempo no caso dela é precioso – diz a jovem.

*Estagiário sob supervisão de Marco Aurélio Canônico