Jô Soares foi processado durante o regime militar em 1969

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O apresentador e humorista Jô Soares, morto nesta sexta-feira, aos 84 anos, deixou claro em diversas ocasiões seu posicionamento contra a ditadura militar e a censura imposta pelo regime no Brasil. O artista chegou a ser processado em 1969 pelo então ministro da Justiça Alfredo Buzaid por conta do texto "A Cama", publicado no jornal satírico O Pasquim. Ele foi acusado de obscenidade, mas acabou absolvido.

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Jô relata o episódio em sua autobiografia "O livro de Jô: Uma autobiografia desautorizada: Volume 2", lançada em 2018. O volume cobre a vida dele a partir de 1969, pouco antes de estrear na TV Globo com o programa “Faça humor não faça guerra”. Uma época imediatamente após a decretação do AI-5, considerado o período mais sombrio da Ditadura no Brasil, com muitas dificuldades para os artistas.

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Em entrevista sobre a obra concedida ao GLOBO, o artista foi questionado se via algum paralelo entre a situação do Brasil sob o governo dos militares e o contexto político do país naquele ano. Na época, fez um alerta para a necessidade de mais investimento na Cultura.

— A única coisa que me preocupa em tudo isso hoje, e não por mim, mas pelo país, é o descaso com a cultura. Já citando meu amigo e ex-parceiro Millôr Fernandes, um país só se desenvolve dando atenção a duas coisas: tecnologia de ponta e cultura. Claro que não quero pré-julgar, mas acho que o novo presidente deveria dar uma atenção muito especial, para que a única cultura que se desenvolva não seja a de vírus. A cultura transcende a uma lei, seja a Rouanet ou qualquer outra, num país em que não se dá muita atenção quando os teatros pegam fogo, ou os museus são destruídos.

Jô também cita no livro que a proximidade com o arcebispo Dom Hélder Câmara, grande defensor dos direitos humanos durante a ditadura, fez com que ele ganhasse uma segunda ficha nos prontuários da repressão militar. Leia o trecho:

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“Como era ministro da Eucaristia, pedi a d. Hélder (Câmara) que me permitisse ajudá-lo a distribuir a hóstia sagrada. Na hora da comunhão, a fila dos fiéis que vinham comungar com o arcebispo era sempre imensa, chegavam de todo o país e até do exterior. Mas, naquela ocasião, muita gente veio receber a hóstia das minhas mãos. Ele olhava para a minha fila, dava uma risadinha e dizia baixinho:

— Você está fazendo uma concorrência muito grande, desviando o meus fiéis...

Por causa dessa ligação com d. Hélder, ganhei uma segunda ficha nos prontuários da repressão do governo militar:

’Soares, Jô. Qualificação no DOPS, inderex: Elemento de TV, possui diploma de ministro extraordinário da Eucaristia, fornecido por d. Hélder Câmara'".

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O apresentador estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, desde o dia 28 de julho. O anúncio do óbito foi feito por Flávia Pedra, ex-mulher dele, e confirmada em nota pela assessoria de imprensa da unidade de saúde. A causa da morte não foi divulgada. O velório e o enterro serão restritos a amigos e familiares.

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