Suposto parceiro do presidente de Honduras é condenado por narcotráfico nos EUA

Laura BONILLA CAL
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Um júri de Nova York declarou culpado por tráfico de drogas o hondurenho Geovanny Fuentes Ramírez, que, segundo promotores americanos, era parceiro do presidente de Honduras no tráfico de toneladas de cocaína para os Estados Unidos.

Após um julgamento de duas semanas e deliberações que duraram um dia e meio, o júri decidiu por unanimidade que Fuentes é culpado dos três crimes de narcotráfico e porte de armas pelos quais foi acusado.

O julgamento de Fuentes no tribunal federal de Manhattan abordou a corrupção arraigada no mais alto escalão político do país centro-americano, assim como na polícia, nas forças armadas e no sistema judiciário.

Promotores do distrito sul de Nova York disseram no processo que todos os presidentes hondurenhos desde 2006 receberam propina de traficantes em troca de proteção e da promessa de não serem extraditados.

“Acho que Fuentes foi uma vítima colateral do desejo do governo (americano) de processar o presidente Hernández. Suponho que em algum momento haverá uma acusação (contra o presidente), se já não houver, e o presidente terá que lidar com isso", disse seu advogado, Avi Moskowitz, à Inner City Press após o veredicto.

Preso há um ano pela DEA, a agência de combate ao tráfico de drogas dos Estados Unidos, Fuentes era "um traficante de cocaína implacável, poderoso e assassino em Honduras. Ele facilitou o embarque de grandes carregamentos de cocaína subornando Juan Orlando Hernández Alvarado, então presidente do Congresso Nacional de Honduras e atualmente o presidente de Honduras", afirmou a promotora do distrito ao sul de Manhattan, Audrey Strauss, em um comunicado.

"Hernández Alvarado instruiu Fuentes Ramírez a se reportar diretamente ao co-conspirador e ex-congressista hondurenho Tony Hernández, irmão do presidente" e considerado culpado em 2019 de tráfico de 185 toneladas de cocaína para os Estados Unidos. Agora, Fuentes "enfrenta a possibilidade de passar o resto de sua vida atrás das grades", alertou a promotora.

- "Entupir os narizes dos gringos" -

Uma testemunha que colaborou com a justiça relatou ao júri que em 2013 viu Fuentes entregar a Juan Orlando Hernández, então chefe do Congresso Nacional e candidato à presidência de Honduras, 25 mil dólares em propina em troca de proteção.

Os promotores afirmaram no julgamento que Hernández foi ainda mais longe e se associou a Fuentes para produzir cocaína em um laboratório instalado em Cerro Negro, em Honduras, e traficar drogas para os EUA, ainda que não tenham o acusado formalmente.

A testemunha, um contador que lavava dinheiro da droga e que foi apresentado com um nome falso por motivos de segurança, afirmou ao júri que nesse encontro com Fuentes o presidente disse: "Seremos intocáveis (...) Vamos entupir os narizes dos gringos de drogas e eles não vão nem notar".

O ex-líder do cartel hondurenho Los Cachiros, Leonel Rivera, que confessa ter matado ou ordenado a morte de 78 pessoas e que colaborou com a promotoria, disse em depoimento, por sua vez, que pagou a Juan Orlando Hernández 250 mil dólares em troca de proteção.

- "Corrupção sistemática" -

Adriana Beltrán, diretora de segurança cidadã do centro de análise Washington Office on Latin America (WOLA), afirmou à AFP que há "corrupção sistemática" em Honduras e que o veredicto de Fuentes é "um golpe" para Juan Orlando Hernández.

Depois desse processo e do ocorrido em Nova York em outubro de 2019 contra Tony Hernández, “são crescentes as evidências que apontam para a presumível participação do presidente em atividades do crime organizado no país”, analisou.

O presidente de Honduras nega todas as acusações. Ele alega que Rivera está mentindo para reduzir sua pena de prisão e para se vingar de sua luta contra o tráfico de drogas.

“Qualquer narrativa sobre a batalha contra o narcotráfico em Honduras que omita a redução sem precedentes de 95% (dados oficiais dos EUA) que alcançamos é geralmente apenas um veículo para manchetes dramáticas para promover o falso depoimento dos traficantes que derrotamos”, publicou Hernández no Twitter nesta segunda.

A sentença de Geovanny Fuentes foi marcada para 22 de junho. Já a de Juan Antonio "Tony" Hernández, irmão do presidente de Honduras e condenado em 2019 pelo tráfico de 185 toneladas de cocaína para os EUA, será anunciada em 30 de março pelo juiz Kevin Castel, o mesmo que presidiu o processo de Fuentes.

Fabio Lobo, filho do ex-presidente hondurenho Porfirio "Pepe" Lobo (2010-2014), foi condenado em 2017 em Nova York a 24 anos de prisão pelo tráfico de 1,4 tonelada de cocaína.

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