Júri quase todo branco julgará assassinato de homem negro nos EUA

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Pessoas protestam contra a morte de Ahmaud Arbery
Ahmaud Arbery corria na rua quando foi morto por dois homens brancos que o confundiram com um suspeito

Um júri formado quase inteiramente por pessoas brancas foi escolhido para o julgamento de três homens brancos acusados de matar um homem negro em 2020 na Geórgia, nos Estados Unidos.

O juiz responsável pelo caso notou que teria ocorrido uma "discriminação deliberada" na escolha do júri, que tem só uma pessoa negra entre seus integrantes, mas disse que o julgamento sobre a morte de Ahmaud Arbery prosseguirá.

Dois dos acusados, Gregory McMichael, de 64 anos, e seu filho Travis, de 34, se declararam inocentes, dizendo que agiram em legítima defesa. Mas os promotores argumentam que houve preconceito racial.

Em maio passado, McMichael, Travis, e seu vizinho William Bryan (que filmou o incidente) foram presos. Os três negaram todas as acusações.

Ahmaud Arbery fazia uma corrida na rua na tarde de 23 de fevereiro quando foi confrontado pelos McMichaels, que estavam armados com uma pistola e uma espingarda.

Os advogados da família de Arbery disseram que ele estava desarmado na ocasião.

Pai e filho mais tarde disseram à polícia que acreditavam que o corredor se parecia com o suspeito de uma série de supostas invasões e acusaram Arbery de atacar Travis enquanto tentavam detê-lo para levá-lo às autoridades.

A seleção do júri durou duas semanas e meia, e o julgamento em si está previsto para começar na sexta-feira (5/11).

Na quarta-feira, a promotoria acusou a defesa de eliminar jurados com base na raça, observando que os advogados de defesa usaram 11 de suas 24 opções de recusa para rejeitar jurados negros.

Os advogados dos McMichaels responderam que eles estavam em um "beco sem saída", porque muitos jurados em potencial já haviam formado opiniões em relação aos seus clientes.

Enquanto isso, a promotoria usou todas as 12 opões de recusa para rejeitar jurados brancos.

'Defesa não terá um caminho fácil pela frente'

Pessoa segura um cartaz que pede justiça por Ahmaud
Júri responsável pelo caso só tem um integrante negro

"Parece haver discriminação deliberada na seleção do júri", disse o juiz Timothy Walmsley, mas ele concluiu que o tribunal não tinha autoridade para refazer o júri, porque havia razões válidas além da raça para rejeitar os candidatos.

O resultado desequilibrado pode ter sido inevitável, disse Page Pate, um advogado de defesa local que não está envolvido no caso.

"Este é um caso que envolverá muitos testemunhos e evidências sobre preconceito racial e sentimentos raciais, especialmente nesta comunidade da Geórgia", disse ele à BBC. "É lugar com fortes divisões raciais."

O julgamento está ocorrendo no condado de Glynn, uma pequena comunidade costeira onde Arbery morava.

Pate disse que, entre os moradores negros de Glynn, "há uma grande probabilidade de você conhecer Ahmaud Arbery ou alguém de sua família, porque é uma comunidade muito unida".

"Como resultado, acho que houve mais escrutínio colocado sobre os potenciais jurados negros apenas pela natureza da comunidade de que eles fazem parte."

Pate acrescentou que os comentários do juiz Walmsley eram esperados, mas deveriam ter sido redigidos de forma diferente para evitar mais polêmica.

Denise De La Rue, uma consultora de julgamentos na Geórgia, apontou que os americanos de minorias étnicas tendem a estar sub-representados na maioria dos júris, mas que ainda assim deveria haver mais negros no júri do caso.

Ela observou que, como a população negra do condado gira em torno de 26%, o número ideal seria três.Mas ela sugeriu que, dada a natureza do caso, "muitos dos jurados brancos ficariam preocupados em dar um veredicto que parecesse ser racista".

"Não acho que [a composição do júri] signifique que a defesa tenha um caminho fácil pela frente."

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