J.K. Rowling lança ‘Jack e o Porquinho de Natal’, que pode virar um novo Harry Potter

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RIO — Os livros de J. K. Rowling, a mãe do Harry Potter, são sempre aguardados festejados. De fato, a escritora sabe como contar uma boa história e prender seus leitores (de todas as idades) em muitos volumes de uma saga. Em “Jack e o Porquinho de Natal”, que chega mundialmente às livrarias hoje — Dia das Crianças no Brasil —, ela mostra mais uma vez que talento para a escrita não lhe falta, e tudo indica que ela também esteja atenta a um novo tipo de criação artística a qual, com diz a crítica norte-americana Marjorie Perloff, não depende da “originalidade da escrita”, mas de uma nova concepção de criatividade.

Perloff chama de uma nova inventio a obra de um autor que a elabora a partir de apropriações, cópias e reciclagens de produções artísticas já existentes. “Jack e o Porquinho de Natal” parece ter partido justamente desse modelo de criação. O livro de Rowling é, diria, uma mistura dos livros “Alice no País das Maravilhas” e “Alice através do espelho”, de Lewis Carroll (1832-1898), com os filmes “Toy Story” e “Divertida Mente” . Tratando-se de Natal, como não lembrar ainda de “Um conto de Natal”, de Charles Dickens (1812-1870), outro conterrâneo da autora, cuja data é determinante para uma guinada na vida do protagonista, um velho rabugento e avarento? O Natal marca também um novo começo na vida de Jack, o protagonista da aventura de Rowling .

De fato, valendo-se de obras preexistentes, sobretudo de Carroll, a escritora concebe uma história singular, na qual imprime sua própria assinatura. “Jack e o Porquinho de Natal” fala de perdas, que podem ser tanto de objetos como de sentimentos e costumes. A aventura está em reencontrá-los, abandoná-los de vez ou ressignificá-los. A história começa no mundo real, quando um menino, Jack, perde, metaforicamente, o pai — que está se separando da mãe —, os colegas da escola e, por fim, literalmente, seu bichinho de pelúcia de estimação, um porquinho. A partir daí, a história, que é acompanhada por nove ilustrações em preto e branco — convencionais, que não acrescentam muito à obra, apesar de assinadas pelo premiado Jim Field —, transcorre no mundo onírico.

Linguagem indomável

Ah, o que seria de boa parte da literatura infantojuvenil se não fossem os sonhos (ou pesadelos)? Carroll, Dickens, Rowling, entre muitos outros autores, se valeram da noite e dos sonhos para narrar suas histórias, que terminam em revelações, no caso das escritas por Dickens e Rowling, ou em perplexidade, no caso dos livros da Alice criada por Carroll.

Se a menininha Alice corre atrás de um coelho, como todos sabem, Jack corre atrás de um porco. Ambos acabam (ou caem) num mundo completamente diferente do que eles conhecem: “Ao falar ‘perdido’, tudo que estava embaixo dos pés de Jack sumiu. Ele caía, ou melhor, afundava lentamente — descendo pelo lugar onde deveria estar o chão”.

Nos dois livros, entretanto, a busca pelos bichos ocorre por motivos e em circunstâncias completamente diferentes. Ademais, na aventura de Alice a linguagem é a todo momento posta em xeque; já em “Jack e o Porquinho de Natal” a linguagem é bastante clara, com pouquíssimas exceções, pelo menos essa é a impressão ao se ler a tradução de Ryta Vinagre.

Vale lembrar também que no livro de Carroll há uma crítica aos ensinamentos morais pregados dentro e fora da escola. A lição que se tira deles seria, talvez, a de que a linguagem é indomável e está sempre mudando, o que faz com que a nossa percepção de mundo também mude. No livro de Rowling, ao contrário, a todo momento impõe-se, mesmo que indiretamente, uma lição moral. Quando Jack pergunta o que são Princípios, nome de alguns personagens, eles respondem em conjunto: “Somos as Coisas que fazem os humanos se comportarem com honestidade e decência. Ali, nosso dono... um executivo... nos perdeu um por um em busca de riquezas. Agora ele é um vigarista rico. Gosta do dinheiro, entretanto, é infeliz, porque sabe que era mais amado e respeitado quando ainda nos tinha”.

No livro de Rowling, há, contudo, uma personagem muito engraçada, a B ússola, que, tal como a Duquesa de Alice no País das Maravilhas, não consegue passar nenhum ensinamento, pois tudo o que ela fala no seu linguajar próprio também parece não fazer sentido:

“E posso lhes contar uma história com moral, se quifferem.

—Ah, sim, por favor —disse o Porquinho de Natal, sem fôlego.

— Era uma vez três bússolas —disse ela —, uma grande, uma média e uma pequenininha; a grande liderava a subida de uma montanha, a média condufffia um barco pelo mar, mas a pequenininha caiu em uma área com vegetação. E a moral da história é: ‘Nunca faça amifffade com um rabanete”.

Para os fãs de Rowling, a saga de Jack e seu porquinho talvez pudesse suceder a de Harry Potter. Nesse caso, seria uma espécie de Substituto, outro personagem do livro: “Sim. Substitutos às vezes dão certo, às vezes não”, explica um saca-rolha. “Jack e o Porquinho de Natal” tem tudo para dar certo como substituto e parece pronto para uma continuação. Vamos ver.

Autora: J.K.Rowling. Ilustrações: Jim Field. Editora: Rocco. Tradução: Ryta Vinagre. Páginas: 320. Preço: R$ 59,90. Cotação: Ótimo.

* Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de “As antenas do caracol; notas sobre literatura infantojuvenil” e “Pequena Biblioteca para crianças: um guia de leitura para pais e professores”

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