Jabutis extintos voltam ao Parque Nacional da Tijuca após 200 anos

RIO - O Parque Nacional da Tijuca voltou a ser habitado, nesta quinta-feira, por moradores que deixaram de existir em sua área há mais de 200 anos: os jabutis-tinga. A espécie estava extinta do Parque por todo esse tempo até o projeto Refauna trabalhar na reintrodução desses animais – uma prática inédita no país com esta espécie.

Durante a manhã foram reintroduzidos 28 jabutis-tinga na floresta com chips e radiotransmissores para monitoramento. Desse total, 14 passaram por um processo de aclimatação em um cercado dentro do Parque nos últimos seis meses. Nesse período, os pesquisadores acompanharam dados como padrões e hábitos de alimentação, comportamento e deslocamento. Hoje, no dia da liberação na natureza, outros 14 animais da mesma espécie foram soltos, mas sem passar pelo período de aclimatação. Neste caso, eles foram direto do Centro de Triagem de Animais Silvestres do IBAMA-RJ para a liberdade na floresta.

O projeto é uma iniciativa da UFRJ, UFRRJ e IFRJ, em conjunto com outras instituições de ensino. De acordo com Marcelo Rheingantz, biólogo da UFRJ, os dois métodos de soltura aconteceram ao mesmo tempo para serem comparados e subsidiarem melhores práticas de reintrodução.

— É a primeira vez que estamos reintroduzindo o jabuti-tinga no Parque Nacional da Tijuca e não há registros de reintrodução dessa espécie aqui no Brasil em locais onde deixaram de existir. Por isso, estamos avaliando se a aclimatação influencia a sobrevivência para subsidiar futuras reintroduções de populações desses animais, já que, no total, pretendemos devolver para a natureza cerca de 60 jabutis — explicou, ressaltando que a pesquisa não terminou:

— Vamos liberar mais um grupo, no período seco, e comparar com a sobrevivência deste. Nosso objetivo é avaliar se a estação do ano também influencia na sua sobrevivência. Isso vai subsidiar a construção de um guia para translocações de jabutis em ambientes florestais.

O papel dos jabutis

Os jabutis-tinga são importantes para o Parque por serem bons dispersores de sementes, especialmente grandes. Esse trabalho de jardinagem, de distribuir sementes, é muito importante na persistência de espécies de plantas nativas que compõem a flora do Parque. Além de dispersarem sementes, os jabutis também comem e pisoteiam plantas que poderiam se tornar pragas, auxiliando no controle de suas populações e no favorecimento da diversidade vegetal.

Esses animais, que já foram abundantes na Mata Atlântica no passado, tiveram suas populações dizimadas por diversos fatores como a caça e o desmatamento. Por isso, as equipes do Parque Nacional da Tijuca e do Refauna pedem que os visitantes não mexam e nem retirem os jabutis, caso encontre com algum deles no Parque. Eles também pedem para não levar outros jabutis da mesma espécie ou de espécies diferentes para interagir com eles; trafegar dentro da velocidade permitida nas vias internas ou que circundam o Parque, permitindo que esses bichos atravessem tranquilamente as vias; e também nunca alimentar animais silvestres.

Outros extintos habitam o Parque desde 2010

Não é a primeira vez que acontece a reintrodução de animais extintos na Floresta da Tijuca. Cutias e bugios foram reintroduzidos em 2010 e 2015, respectivamente. O trabalho ajuda no retorno de espécies extintas ao Parque, mas também restaura interações e processos ecológicos.

As cutias, excelentes dispersoras de sementes, são os únicos animais capazes de enterrar sementes da espécie de árvore conhecida como cutieira, exatamente pela associação com esses animais. Em áreas sem cutias as sementes ficam no chão intocadas até apodrecerem.

Já os bugios, que também são herbívoros, e dispersam sementes, são capazes de levá-las a longas distâncias. Além disso, esses primatas possuem uma relação bastante curiosa com besouros rola-bosta. Esses besouros fazem pequenas bolas com as fezes dos bugios e, ao fazerem isso, levam e enterram as sementes, favorecendo sua germinação.