Jacarezinho: 'Chamar isso de operação ofende quem é mãe', diz mãe de vítima um mês após mortes

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Um mês após a operação policial no Jacarezinho, que resultou na morte de 28 pessoas, sendo a mais letal da história do Rio, diversas entidades se reuniram na entrada da comunidade, neste domingo, dia 6, para lançar a pedra fundamental de um monumento em homenagem às vítimas. O evento contou com a presença de familiares das vítimas e líderes comunitários, além de representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Defensoria Pública e da Comissão de Direitos Humanos da Alerj.

O ativista Rumba Gabriel, compositor da Mangueira e fundador do Portal Favelas, espera que o ocorrido seja um mal que veio para o bem, ao lançar luz sobre o que acontece nas comunidades cariocas. Ele denuncia o abandono de diversas instâncias do Estado no Jacarezinho, onde não haveria projetos sociais oficiais.

— Como as favelas recebem essa quantidade de drogas e armas, com todo o aparato policial que temos? A favela não produz droga nem arma. Aqui não tem traficante, tem varejista de droga. Os traficantes estão nas fronteiras, nos bairros chiques. Por que a inteligência da polícia não vai nessa direção? — questiona. — Nós gritamos para não sermos fuzilados, mas nosso grito é criminalizado.

O evento foi aberto pelo ativista, que, depois de discursar, pediu um minuto de silêncio em respeito às vítimas. A homenagem foi direcionada não só aos civis, mas também ao policial morto durante a operação. O memorial ainda não tem data para ser erguido, mas o plano é fazer a instalação na entrada da favela. Os organizadores buscam artistas plásticos para realizar o projeto.

Uma das pessoas mais emocionadas era Adriana Santana de Araújo, mãe de Marlon. Além de perder o filho, ela ainda foi vítima de notícias falsas, acusada de participar de um vídeo em que apareceria com uma arma de air soft (utilizada em esportes como paintball e sem potencial letal), como se fosse um fuzil. A gravação, que viralizou nas redes sociais, na verdade mostrava Rosana Rosa Contas do Carmo, de 49 anos, e a mãe, a costureira Vera Lúcia Coutas, de 69, com o equipamento esportivo.

Com unhas feitas em manicure e sobrancelhas micropigmentadas, a mulher que cuida de sua aparência, conta que ficou oito dias sem conseguir tomar banho após perder o filho. Tomando quatro remédios diferentes por conta do trauma, ela levou um banner cobrando explicações do Estado sobre o ocorrido. Entre as fotos, um retrato do dia das mães de 2020:

— Este ano, no dia das mães, eu estava enterrando o meu filho. Não quero mais comemorar a data. No ano que vem, vou ficar no quarto, com o casaco dele, sentindo o cheiro — diz. — Chamar isso que aconteceu de operação policial ofende quem é mãe.

A autoproclamada "mãe leoa", conta que trocou mensagens com o filho durante o tiroteio. Ela acredita que ele tenha morrido por volta das 9h, quando parou de responder. Além do luto, Adriana diz que ainda tem que lidar com ameaças de morte enviadas por mensagens na internet.

— Ninguém pode imaginar como dói. O Marlon era o dono do meu abraço. Tiraram esse abraço de mim covardemente com um tiro nas costas.

Representando a ouvidoria da Defensoria Pública, Guilherme Pimenta ofereceu apoio e acolhimento às famílias. Em seu discurso, ele classificou o ocorrido como "inaceitável".

— Esse não foi um fato isolado, e sim parte de uma história sendo escrita de forma errada muitos anos — afirmou.