Jackie Silva: "Quando chamam a mulher para trabalhar é sempre figuração, igual cota"

Carol Knoploch e Tatiana Furtado
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Passe o tempo que for, falar de Jackie Silva nunca irá se resumir a um dos maiores feitos da história olímpica brasileira. Em Atlanta-1996, ao lado da Sandra Pires, elas se tornaram as primeiras mulheres do país a conquistar um ouro numa Olimpíada. Bastava qualquer lugar no pódio e a conquista já teria sido a maior do esporte feminino. Mas a carioca quase sessentona marcou seu nome no Brasil não só pelas conquistas no vôlei de quadra e de praia. Jackie representou — e representa — a voz de muitas mulheres que foram caladas no mundo esportivo.

A verdade é que nunca a conseguiram calar. Por tais atitudes, pagou preço caro. Cortes da seleção feminina de vôlei nos anos 80 e até do esporte brasileiro. Porém, seu desejo por igualdade salarial teve resultado e é, até hoje, lembrada por liderar o movimento que conseguiu pagamento de salários e premiações às mulheres.

A primeira vez que as jogadoras do vôlei de quadra ganharam ajuda de custo da CBV foi no Mundial de Praga, em 1986. Jackie, no entanto, não ganhou um centavo porque estava banida da seleção. No ano anterior, o famoso episódio do uniforme vestido pelo avesso, em represália ao fato de que apenas o masculino ganhava salário por exibir a marca do patrocinador, havia encerrado de vez seu ciclo na seleção.

A jogadora teve de se reinventar na praia. Morou nos Estados Unidos e ajudou a fundar a primeira Associação de Vôlei de Praia Feminino no país. Lá foi considerada rainha, muito antes de ter reconhecimento na sua própria pátria.

É por meio desta modalidade que ela busca um futuro melhor para diversas meninas que fazem parte do seu projeto educacional "Atletas Inteligentes", premiado pela Unesco. A organização opera em parceria com autoridades locais e ONGs e conta com 49 centros, espalhados pelo estado do Rio de Janeiro.

Os avanços, ela reconhece, foram muitos nessas últimas décadas. Mas uma declaração resume bem o sentimento da ex-atleta: "Mudou, mas não mudou. Não é a mudança que a gente quer, essa ainda está para vir".

Ao mesmo tempo em que celebra pautas como racismo e homofobia presentes nas discussões atuais em toda a sociedade, Jackie se diz descrente com a possibilidade de um novo movimento ativo surgir no esporte.

Ações como a da Carol Solberg, punida por emitir opinião política, ainda na quadra de jogo, logo após um torneio, são exceções num ambiente que ela considera extremamente conservador.

— Foi uma mulher que se colocou ali, uma pessoa forte, que tem estrutura familiar forte. É bem diferente da maioria dos atletas. Tem todo um respaldo por atrás que a deixa confortável para uma ação daquelas. Não vejo outros se colocado assim. Sem que o atleta se coloque e que exista uma união entre os próprios atletas não haverá mudança — diz Jackie, que também elogia Aline Silva, do wrestling.

Ela lembra que Aline é uma das poucas a alcançar um cargo de importância no alto escalão das confederações nacionais. Foi eleita vice-presidente, com o apoio dos atletas na eleição. Jackie, no entanto, gostaria de ver este tipo de movimentação em outras entidades e também no órgão máximo do esporte no país, o Comitê Olímpico do Brasil. Na última eleição para a presidência do COB, nenhuma chapa teve uma mulher como candidata.

Das 35 confederações olímpicas no país, apenas a da ginástica tem uma presidente mulher, com Luciene Resende. Segundo dados do Comitê Olímpico Internacional (COI), apenas 17 dos 206 comitês olímpicos do mundo são presididos por mulheres.

– Quando chamam a mulher para trabalhar é sempre uma figuração, para dizer que tem. Na maioria das vezes, não é pelo mérito, por um trabalho bacana. É igual cota – critica. – A imagem do Brasil que eu vejo ainda é de um bando de homens mandando em mulheres. Apesar de iniciativas pontuais de ter mulheres em cargos de chefia, esta é uma luta constante. E em todas as áreas. No esporte, não temos treinadoras, diretoras, presidentas. A imagem da mulher precisa ser renovada.

Como exemplo positivo, destaca o futebol feminino dos Estados Unidos, para quem as jogadoras passam "imagem maravilhosa", de união, respaldo mútuo, inclusive com o apoio da treinadora.

Apesar de ser atleta no período final da Ditadura, Jackie considera que havia menos amarras aos esportistas, em geral. Eram poucos patrocínios, bolsas de auxílio ligadas ao governo, que permitiam ao atleta ter uma voz mais ativa sem tanto medo de represálias.

— Cada vez mais, o atleta está dentro de uma caixinha. Muitos se tornam militares e a caixinha vai ficando menor ainda. São atletas bonitinhos, disciplinadinhos, arrumadinhos... Alguns bem articulados, que usam as redes sociais, fazem selfie, mas não tem voz ativa — afirma a campeã olímpica, que só recebeu o reconhecimento do COB, com o Troféu Adhemar Ferreira da Silva, em 2018, após a saída do desafeto Carlos Arthur Nuzman, cartola que comandou o vôlei de 1975 a 1995 e depois, o esporte nacional por mais 22 anos.

Ele acabou preso em decorrência de escândalo de corrupção na Olimpíada do Rio.