Em guerra com imprensa e governadores, Bolsonaro busca narrativa sobre morte de Adriano

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Adriano Machado/Reuters

As agressões de Jair Bolsonaro contra a jornalista Patrícia Campos Mello são inaceitáveis e merecem repúdio.

A atitude, além de ofensiva, demonstra pouco apreço pela democracia.

Não sou eu (embora poderia) quem diz isso.

Quem diz é o partido político que mais elegeu deputados em 2018, e ele não é esquerdista, comunista nem trabalhado no marxismo cultural -- sim, ele mesmo, o PSL, o 17, que elegeu também o presidente Jair Bolsonaro.

A manifestação mostra que acompanhar diariamente o noticiário político no Brasil equivale a mergulhar num caldeirão e não perceber que a água esquentou para além do razoável -- daí o choque quando alguém, de fora, observa que por aqui o sapo está fervendo e ninguém parece notar.

Vamos repetir: o presidente fez insinuações sexuais contra uma das mais respeitadas jornalistas do país.

Os limites foram ultrapassados há tanto tempo que nem mesmo o partido pelo qual se elegeu, e que deveria ser sua base no Congresso, tem coragem de vir a público e passar pano.

Na véspera, Bolsonaro já havia tomado um pisão de governadores.

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Seus ministros já tiveram a capacidade técnica, digamos assim, contestada pelo presidente da Câmara.

Bolsonaro usando a Presidência como um jogo de Resta 1, como se testasse até o limite a fidelidade de quem está disposto a afundar a própria biografia por ele. O resto é uma fila de enxotados, a começar por Joice Hasselmann e Alexandre Frota.

Haja confiança de que, liberando migalhas para emissoras aliadas, como a possibilidade de retomarem os sorteios ao vivo durante a programação, manterá coeso o grupo de apoiadores que, aconteça o que acontecer, fale o presidente a groselha que for, não perceberam, ou fingem não perceber, que a longo prazo, quando não houver mais terras indígenas, nem índios, nem mata de pé, nem ciclo climático para alimentar o agronegócio, nem imprensa pra assumir o risco e contar história, sobrarão apenas os valentões do fundo da sala tentando irrigar a terra que eles ajudaram a destruir, como um cenário e guerra após um bombardeio.

A artilharia é proporcional à irritação de Bolsonaro, e ultimamente ele não parece bem nem mesmo para os seus padrões de equilíbrio

Em seu Twitter, ele já demonstrou preocupação com os desdobramentos das investigações sobre Adriano da Nóbrega, miliciano morto em uma operação policial na Bahia que empregava a mulher e a mãe no gabinete de seu filho. Colocando em dúvida a apuração policial que resultou no desfecho, Bolsonaro quer saber quem fará a perícia nos telefones do suspeito e demonstrou preocupação com a possibilidade de trocas de mensagens e áudios serem forjados. “Inocentes seriam acusados do crime?”, questionou.

O questionamento acontece no momento mais tenso na relação entre presidente e imprensa profissional (a que bate palma em programa de auditório não conta). Se amanhã alguma mensagem reveladora surgir, será possível questionar a isenção do emissor (a polícia do Rio e da Bahia) e do mensageiro (a imprensa).

Isso talvez explique o trabalho para deslegitimar o trabalho de apuração, aqui num duplo sentido. E a guerra em frentes diversas armada por ele contra governadores, jornalistas e até policiais estaduais. Pode ser um tiro no pé.