Alguém ainda acredita no papo anti-sistema de Bolsonaro?

Matheus Pichonelli
·5 minuto de leitura
Bandeira em apoio a Bolsonaro durante manifestação em 9 de junho em Brasilia. Foto: Andressa Anholete/Getty Images
Bandeira em apoio a Bolsonaro durante manifestação em 9 de junho em Brasilia. Foto: Andressa Anholete/Getty Images

“O jogo é bruto”, escreveu, em suas redes sociais, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) logo após a prisão do ex-assessor e amigo da família Fabrício Queiroz.

Jogo, sistema, establishment, mecanismo. A nomenclatura se alterna, mas no imaginário bolsonarista-raiz as forças antagônicas estão sempre se aglutinando com um mesmo propósito desde que as primeiras caravelas aportaram por aqui: impedir o sucesso Jair Bolsonaro & Família de vencer na vida.

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Primeiro foi o Exército, que condecorou com uma porta de saída o indisciplinado militar suspeito de querer espalhar bombas em uma unidade até conseguir aumento do soldo.

Depois, nos corredores do baixo clero, espécie de Sibéria parlamentar para quem ousasse desafiar o sistema.

Veio a eleição e, contra tudo e contra todos, o sistema foi derrotado com pouco fundo eleitoral, nenhum debate com adversários e muito disparo de WhatsApp.

E assim o homem, o mito, chegou à Presidência avisando que o Brasil “não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo”. “Nós temos é que desconstruir muita coisa”, disse o presidente num jantar anti-sistema nos EUA, país que desde Adão e Eva vive à margem do tabuleiro político, econômico e militar internacional. Foi na embaixada antissistema americano que Bolsonaro, Ernesto Araújo e grande elenco se reuniram para celebrar o Dia da Independência dos chefes, digo, parceiros, no último 4 de Julho. Sem máscaras, claro, porque usar máscara é se dobrar ao mecanismo.

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Mas o jogo é bruto, percebeu o primeiro-filho.

Ele se reorganizou numa pandemia de consequências desastrosas mundo afora só para desgastar o pai presidente e transformou o país num poço de energia ruim que está fazendo o mito errar. Foi só porque o sistema torceu contra que o Brasil chegou ao quarto mês da pandemia sem ministros titulares da Saúde e da Educação. O sistema amarrou os candidatos e enviou prepostos dispostos a desmoralizar o livre arbítrio presidencial. Carlos Decotelli era um. Renato Feder, também.

Luiz Henrique Mandetta era agente infiltrado da OMS no governo. Nelson Teich foi igualmente cooptado.

E Sergio Moro?

Deixa pra lá.

O sistema, amigo e amiga, é um lobo revestido de cordeiro. Nos últimos 30 anos, ele não só fez das tripas coração para evitar a ascensão de Bolsonaro como amarrou uma caneta em sua mão e o obrigou a assinar inúmeras exonerações e contratações de funcionários nos tempos de deputado federal.

Desde 1991, foram cerca de 350 trocas de cargos, com alteração salarial de assessores; alguns demitidos e recontratados no mesmo dia, porque mesmo o sujeito de moral inflexível no fundo é sentimental e chora enquanto as mãos estão ocupadas em esganar as normas legislativas.

Outros jamais trabalhavam nos cargos para os quais haviam sido escalados, caso de Nathália Queiroz, que batia ponto no gabinete de Bolsonaro pai em Brasília enquanto trabalhava como personal trainer no Rio.

Nathália é filha de Fabrício Queiroz, que passou os últimos anos escondido e vigiado num cafofo do advogado dos Bolsonaro em Atibaia (SP) e de lá mantinha conexão com gente da melhor qualidade, como os familiares do miliciano foragido Adriano da Nóbrega, que levava uma vida nababesca na Bahia até ser encontrado pelo sistema e ser morto numa troca de tiros com a polícia.

Queiroz está preso há quase um mês. O sistema chama de transações suspeitas as movimentações financeiras patrióticas que ele promoveu com dinheiro público entre os funcionários do gabinete. O establishment quer criminalizar a distribuição de renda aos brasileiros de bem e chamar de “rachadinha”. Era assessor do filho, mas, ao que parece, foi o pai quem fez escola, como aponta o vai-e-vem de contratações e exonerações em seu gabinete.

Tem coisa mais anti-sistema do que viver à sombra do erário e dividir os dotes com os herdeiros e filhos de amigos?

Quieto desde a prisão do amigo, Bolsonaro vai tentar responder à altura as críticas do sistema com R$ 325 milhões em publicidade requisitados pela Secom para melhorar a imagem do governo no Brasil e no exterior, que se preocupa sem razão com o trato das questões ambientais onde o ministro da área queria passar a boiada e onde funcionários do Ibama são afastados por impedir o desmatamento patriótico da floresta.

O dinheiro vem em boa hora. Não é fácil, nem barato, combater o sistema. É preciso muita verba oficial, muito youtuber bajulador bem remunerado e muitos cheques em contas estranhas para sobreviver neste país que impede gente patriota de empreender, mudar o “jogo” e acabar com a boquinha.

Passam de 60 mil os mortos oficiais na pandemia. O sistema insiste em dizer que a culpa é da Covid e da incompetência oficial. Pensa que presidente da República é coveiro.