Bolsonaro tem razão em cobrar respeito em entrevista à Jovem Pan?

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Brazilian President Jair Bolsonaro gestures during the signing of agreements with his Colombian counterpart Ivan Duque (out of frame) at Planalto Palace in Brasilia, on October 19, 2021. - Duque is on 2-day official visit to Brazil. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

Na estreia de seu canal na TV, a Jovem Pan anunciou com pompa uma entrevista com “o homem mais poderoso da República”.

Foi um fiasco.

A entrevista terminou de forma abrupta após o convidado de honra, Jair Bolsonaro, se irritar com uma pergunta sobre as “rachadinhas”.

Ele se queixou da pegadinha armada por um dos entrevistadores, o comediante André Marinho. Dias atrás, Marinho havia viralizado imitando o presidente e outros personagens da política nacional durante um jantar com...atores da política nacional. Entre eles seu pai, Paulo Marinho, empresário que na campanha de 2018 cedeu sua casa para a campanha do hoje presidente e inimigo.

A pergunta era mesmo uma pegadinha, típica do espírito juvenil dos meninos do “Pânico” —aquele programa criado no rádio e que em sua antiga versão para a TV teve como maior contribuição ao jornalismo a descoberta de que uma modelo e apresentadora tinha seis dedos em um dos pés.

Em sua versão para a TV JP News —alinhada, mais do que simpática, ao atual governo, vale lembrar— o “Pânico” basicamente reciclou o formato “viralizante” do programa de rádio que coloca no mesmo ringue personagens de posições divergentes localizadas entre a direita e a extrema direita. Quanto maior a treta, maior a audiência.

Marinho era da cota “direita anti-Bolsonaro”, mais por conveniência do que convicção. Seu pai —e isso o presidente fez questão de registrar — não é só desafeto do clã. Ele é suplente de Flávio Bolsonaro no Senado. E, segundo Bolsonaro, tem interesse em derrubar o filho 01 para ficar com a cadeira.

Por muito menos qualquer entrevistador ou programa de entrevista sério teria percebido o conflito e escalado outra pessoa em seu lugar. Eis a contradição: como esperar seriedade em um programa que não está nem perto da fronteira que separa jornalismo do entretenimento?

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Marinho quis saber a opinião do presidente sobre uma suposta suspeita de “rachadinha” nos gabinetes de parlamentares de oposição. Era uma forma de levar o entrevistado a falar da mesma acusação que recai sobre seus filhos.

Bolsonaro pai sacou a armadilha e avisou que se André Marinho continuasse na tela encerraria a entrevista. Foi o que fez.

Antes ele evocou um certo respeito pelo cargo para fugir da armadilha do ex-aliado. Dizendo-se desrespeitado, abandonou a entrevista.

Teria sido um sinal de respeito pelo próprio cargo que ocupa se não fosse o presidente convidado a participar de um programa de entretenimento o resultado de anos de exposição e molecagens em programas de...entretenimento.

Durante anos Bolsonaro foi um verdadeiro arroz-de-festa de atrações do tipo. Divertia e se divertia emitindo opiniões absurdas e esdrúxulas sobre qualquer assunto. A simbiose rendia audiência e criava lastros para a construção do próprio “mito” —o sujeito xucro que no meio dos almofadinhas vestidos de terno na Câmara tinha coragem de dizer a “verdade” e replicar de maneira didática o pensamento do brasileiro médio, preconceituoso, obtuso. Nessa embalagem final, como faz agora o jogador de vôlei Maurício Souza, o produto ganhou o nome de “conservador”.

Na ágora do esculacho, Bolsonaro voltou ao ninho. Tantas fez em programas do tipo que já não consegue se livrar do personagem. Soa contraditório que agora use a faixa presidencial para querer conversar como adulto —justo ele, que para fugir das perguntas do desempenho frustrante do PIB em seu primeiro ano de governo, antes mesmo da pandemia, escalou um humorista do velho programa para se vestir de presidente e atender os jornalistas. Ou quando mandou o filho gargalhar ao comentar os crimes imputados a ele durante a gestão da pandemia.

É mesmo esse desenho de estadista que quer ser levado a sério?

No mesmo dia do chilique ao vivo, o ministro da Economia se referiu ao ministro da Tecnologia, um astronauta conhecido por protagonizar propaganda de travesseiro, de “burro”. E confessou em voz alta que às vezes se pergunta o que ainda faz naquele governo.

Pois é. De tanto brigar no ringue dos programas de entretenimento, Bolsonaro transformou o próprio Palácio em uma atração do tipo.

Ainda na mesma entrevista para o humorístico da Jovem Pan, Bolsonaro, sem perceber que estava ao vivo —numa dessas sacadas de gênio paranoide, ele sempre grava e transmite suas entrevistas— perguntou, antes de se interromper, se alguém sabia quanto está custando uma “vaga” para o Supremo Tribunal Federal. Percebendo a falha, se censurou. 

Faltou surgir na cena o Didi Mocó e o Sargento Pincel com um extintor para apagar o incêndio, provocar mais risos na plateia e encerrar a atração.

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