Grande nação? Suspeitas no FNDE jogam areia no comercial de Bolsonaro na TV

Brazil's President Jair Bolsonaro holds a T-shirt during a ceremony to announce new measures for Brasil Empreendedor (Entrepreneurial Brazil) credit program at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil May 25, 2022. REUTERS/Adriano Machado
Foto: Adriano Machado/Reuuters

No mesmo dia em que Jair Bolsonaro protagonizou o primeiro de uma série de comerciais do PL, seu novo partido, na TV, a Comissão de Educação da Câmara entrava com uma representação no Tribunal de Contas da União para investigar a compra de mobiliário escolar feita pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Segundo uma auditoria da Controladoria-Geral da União, há indícios de sobrepreço de R$ 1,59 bilhão na aquisição de itens como carteiras escolares pelo FNDE, hoje um feudo do centrão. Era por lá que dois pastores montaram um balcão de negócios para supostamente barganhar recursos do fundo por agrados, como dinheiro vivo, Bíblias e barras de ouro.

A suspeita não ganhou mais do que um pé de página nos jornais que acompanham o caso com alguma atenção.

Ela é levantada no momento em que Bolsonaro dá a largada a seu plano de reeleição em rede nacional.

A peça publicitária tem o presidente rodeado por jovens dispostos a ouvi-lo falar algumas platitudes a respeito da importância de se obedecer aos pais. Lá na frente, disse o ex-capitão que deixou o Exército para não ser expulso por indisciplina, aqueles meninos e meninas quietos e risonhos ao seu redor teriam orgulho das pessoas que o colocaram na linha.

Bolsonaro sabe do que fala.

Seus filhos, por exemplo, aprenderam desde cedo a observar o modelo paterno. Além de fãs de torturador, pai e filhos são suspeitos de, durante anos, embolsar salário de funcionários fantasmas num suposto esquema de corrupção conhecido como “rachadinha” em seus gabinetes parlamentares. Uma dessas funcionárias batia ponto em Brasília enquanto morava no Rio. Um feito de disciplina e força de vontade.

Em seus tempos de deputado, o hoje presidente se gabava de, mesmo tendo residência na capital, pegar dinheiro do auxílio-moradia concedido pela Câmara para “comer gente”.

Alvo de investigação, seu primogênito ostenta hoje uma casa avaliada em R$ 6 milhões. Jura ter adquirido a mansão com o suor de seu trabalho como advogado, mesmo atuando como político, e recebendo salário de político, há anos.

A peça do PL levada ao ar é tão genuína quanto uma nota de R$ 3. A começar pelo apreço do presidente com os valores familiares. Justo ele, que se comportava como criança mal educada diante das orientações de médicos epidemiologistas e mandava o eleitor comprar vacina na casa da sua mãe quando era cobrado para fazer alguma coisa na pandemia além de passear de cavalo, jet ski e moto com dinheiro público.

Um amigo, ao ver a cena na TV, não teve como não se lembrar de um amigo de 29 anos que perdeu o pai, de 58, à espera da vacina, enquanto o presidente fazia chacota, como um mau aluno de quinta série, e imitava um paciente intubado com falta de ar.

Nas redes, um bom editor de vídeo poderá ilustrar a fala do presidente bonachão e bem humorado com inúmeras cenas da vida real que o desmentem de cabo a rabo. Vai viralizar em segundos.

Durante a inserção, Bolsonaro entregou as tags do slogan que pretende usar em campanha –para ciúme e desespero do filho 02, a quem deixou incumbido dos brinquedos da comunicação digital.

Carlos Bolsonaro, o vereador do Rio que não sai do lado do pai em Brasília e nas viagens oficiais, já tripudiou a concorrência em suas redes.

“Sem pandemia, sem corrupção e com Deus no coração, seremos uma grande nação”, afirmou o presidente na TV.

Em 2019 não havia pandemia e os números do desempenho econômico não foram exatamente compatíveis ao que se espera de uma grande nação. O crescimento registrado no primeiro trimestre, quando a crise sanitária arrefeceu, também não.

Ao falar sobre um mundo sem pandemia, Bolsonaro em seu slogan mostrou que conta com o imponderável para conseguir a simpatia do eleitor –sobretudo o público jovem que quis apresentar na peça e que tem bandeado para o lado do ex-presidente Lula, hoje favorito na disputa.

A pandemia não acabou. E Bolsonaro não pode dar garantias de que ela não estará no radar em um eventual segundo mandato. O repique dos casos de contaminação registrados na última semana recomendava cautela. Bolsonaro preferiu anunciar seu fim antes do resto do mundo –sua demora em reconhecer o problema é uma das muitas causas do morticínio que ele ajudou a provocar com aglomeração e sabotagem.

A outra perna de seu slogan está avariada com inúmeros casos suspeitos de corrupção desde que ele tomou posse. As estranhas transações envolvendo o FNDE são só um exemplo.

A última perna, a que promete carregar Deus no coração, pode ser respondida com uma declaração recente do pastor Ariovaldo Ramos a respeito da máquina de fake news que o presidente ajudou a construir. Fake News, disse Ramos, “é coisa do diabo, de espírito maligno, igual o nazismo foi na Alemanha, uma possessão coletiva”.

Na quinta-feira (2/5), um ministro terrivelmente alinhado ao presidente responsável por sua indicação ao Supremo Tribunal Federal livrou de punição um deputado terrivelmente bolsonarista que espalhou mentiras sobre as urnas eletrônicas em seus canais, numa afronta direta aos pares e à busca da Justiça em combater a desinformação.

Bolsonaro, já longe do figurino boa gente da propaganda, celebrou a decisão.

Na propaganda real, o que ele está dizendo é que é possível abraçar o pecado e o pecador.

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