Ausências e presenças na convenção de Bolsonaro falam mais do que qualquer discurso

Brazil's President Jair Bolsonaro attends the launching ceremony along with his wife Michelle Bolsonaro to officially become a candidate for the presidential re-election, in Rio de Janeiro, Brazil July 24 2022. REUTERS/Ricardo Moraes
Jair Bolsonaro com a primeira-dama durante evento no Rio de Janeiro. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Quem acompanhou a convenção que oficializou a candidatura de Jair Bolsonaro (PL) à reeleição e se surpreendeu com algum gesto, palavras e ações do presidente e seus apoiadores talvez tenha passado dormindo os últimos três anos e meio.

O evento marcou uma espécie de pout pourri da gestão: ataques pesados a adversários e ministros do Supremo Tribunal Federal (os "surdos de capa preta"), anticomunismo, messianismo e uso recorrente do Santo Nome em vão.

A convenção, realizada no Maracanãzinho, no Rio, confirmou a estratégia ensaiada para antes e depois de outubro. Confirmou também o ajuste de rotas traçado pelo governo em comparação às promessas de quatro anos atrás, quando Bolsonaro ainda era aquele azarão disposto a desconstruir tudo isso que está(va) aí.

Dessa vez não teve general cantando “se gritar pega centrão”. Dessa vez o centrão estava na primeira fileira.

O autor da paródia provavelmente assistiu à transmissão do sofá, assim como o atual vice Hamilton Mourão, o cunhado mandado para casa no meio do mandato e a ex-futura-vice-presidente Janaína Paschoal (PRTB), hoje uma pré-candidata ao Senado emburrada e preterida pelo presidente que apostou o cavalo em um astronauta para o mesmo cargo.

Em contrapartida, estavam lá neoaliados do bolsonarismo, como Arthur Lira, Valdemar Costa Neto, Fernando Collor de Mello e até o baixinho Romário.

O time estava formado com seus reforços.

Bolsonaro usou o momento para atiçar os apoiadores a irem às ruas, mais uma vez, para mostrar em 7 de Setembro o que podem fazer em caso de revés em outubro. Qualquer revés. Inclusive judicial. Tenso, grave, mas nada de novo.

Dúvida, se havia, era se Michelle Bolsonaro iria mesmo assumir as rédeas do trabalho de estender as pontes do marido com o eleitorado feminino. Depois de protagonizar eventos e inserções na TV, ela parecia hesitar em seguir no papel, mas voltou atrás.

No domingo (24/7), ela tomou o microfone para fazer um discurso enxertado de pregação e salvacionismo –a salvação do país, claro, era o marido.

Na última pesquisa Ipespe, Bolsonaro aparecia com apenas 30% das intenções de voto entre as mulheres. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu principal adversário, tem 48%.

A cargo da primeira-dama, a missão de estender as pontes com o eleitorado feminino e mostrar que o capitão late mas não morde é um trabalho pela metade.

Isso porque a convenção serviu para confirmar a presença do general Braga Netto em sua chapa como vice, contrariando aliados que preferiam uma mulher, como a ex-ministra Tereza Cristina (Agricultura), no posto.

Bolsonaro preferiu uma chapa militar puro-sangue.

Com Braga Netto, terá um seguro anti-impeachment em caso de desentendimento com os mesmos neoaliados presentes na primeira fileira da festa –neste caso, ninguém vai querer trocar um capitão extremista por um general da mesma linha.

Netto serve de anteparo também caso o candidato resolva jogar fora das quatro linhas da Constituição, como sempre acusa os adversários de fazer, e receba um mandado judicial ou um processo de cassação de chapa no dia seguinte. Quem assinar o mandado terá declarado guerra contra a caserna.

Não teve lance do primeiro evento oficial de campanha do capitão, aliás, que não soou como declaração de guerra.

O tom e os ânimos exaltados são mais uma razão para os eleitores trincarem os dentes com o que pode acontecer em outubro.

Os atos já convocados para o Sete de Setembro prometem ser um evento-teste da versão brasileira da invasão do Capitólio. Como queria o agora candidato oficial à reeleição já nos atos do ano passado –até ser contido pelo sistema de pesos e contrapesos. Será contido dessa vez?

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