Explicação de Bolsonaro em live semanal é uma conversa que não para em pé

Matheus Pichonelli
·3 minuto de leitura
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Adriano Machado/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Adriano Machado/Reuters

Ao fim de uma das semanas mais tensas desde que tomou posse, o presidente Jair Bolsonaro tentou emplacar uma narrativa própria durante a transmissão de sua live semanal.

Por esta versão, ele não jogou gasolina na fogueira armada por seus apoiadores mais radicais ao compartilhar no WhatsApp um vídeo chamando para o protesto do dia 15 contra o Congresso. “Não existe qualquer crítica a eles. Agora, eu tenho que dar uma satisfação porque, na ponta da linha, o povo cobra muito mais de mim do que do Legislativo e do Judiciário.”

Ainda assim, deixou nas entrelinhas a bronca. Bolsonaro disse que gostaria de fazer muita coisa pelo Brasil, mas que está há seis meses com um projeto de lei parado na Câmara para que a validade da carteira de motorista passe de cinco para dez anos. “Mas não vai pra frente”, lamentou, como se a queda vigorosa do índice de desemprego, o crescimento da economia, a queda do dólar, do desmatamento e do déficit de saneamento e moradia dependessem da aprovação daquele projeto.

Bolsonaro se queixa da agenda própria de um Congresso onde jamais se esforçou para ter maioria. Pelo contrário: ao tomar partido dos filhos, foi ele mesmo quem implodiu as bases de apoio da legenda pela qual se elegeu, o PSL.

Essas bases mal haviam sido alicerçadas quando o capitão rifou, em outubro, a sua líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP), após a deputada assinar uma lista em apoio à manutenção do Delegado Waldir (PSL-GO) na liderança da legenda na Câmara.

O próprio presidente entrou em campo para articular a destituição do ex-aliado, provocando um racha que jamais foi desfeito. Desde então, Bolsonaro assumiu como prioridade a criação de um partido próprio, que tem no culto à sua personalidade a única senha de entrada.

Em sua live, o presidente não citou nenhum projeto da agenda econômica encabeçada por Paulo Guedes como prioridade a ser votada no Congresso. Sabe que, em ano eleitoral, há pontos ali que podem avariar sua imagem junto ao eleitorado.

De bobo, não tem nada, mas é assim que quer se passar dizendo que costuma enviar “sem filtro” mensagens particulares em um grupo restrito e que se houve tensão entre os Poderes a culpa, claro, é da “imprensa podre que nós temos aí”.

O presidente voltou a usar o cargo para pressionar empresários que ainda anunciam nos veículos não-alinhados ao bolsonarismo. “Vou ter uma reunião na Fiesp em São Paulo, agora no comecinho do mês. Vou falar com o empresariado lá, esse assunto vai voltar à tona. E o que eu vou falar para o empresariado lá? Que esses jornais, essas revistas, revista ‘Época’, jornal ‘Folha de S.Paulo’, não anunciem lá, um jornal que só mente o tempo todo, trabalha contra o governo. E se o governo der errado, toda a economia do Brasil vai sofrer. Você não pode dar dinheiro para uma mídia que mente o tempo todo. Quando você anuncia numa ‘Folha de S.Paulo’ você está ajudando o Brasil a afundar”, disse o presidente, atrelando seu sucesso ao sucesso do Brasil -- uma versão particular de Luís 15, rei da França e símbolo do poder absoluto: “Depois de mim, o dilúvio”.

Detalhe é que Bolsonaro tentou desmentir o apoio à manifestação contra o Congresso dizendo que o vídeo repassado se referia, na verdade, a uma mobilização de 2015, antes do impeachment de Dilma Rousseff. Faltou explicar como o vídeo de 2015 já trazia a imagem da facada que sofreria em campanha para presidente em 2018.