Datafolha: Com 'verborragia negativa', Bolsonaro é seu maior inimigo

Bolsonaro aparece estagnado nas últimas pesquisas de intenção de voto: Foto: Wagner Meier/Getty Images
Bolsonaro aparece estagnado nas últimas pesquisas de intenção de voto: Foto: Wagner Meier/Getty Images

A última pesquisa DataFolha mostra uma estagnação do presidente Jair Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto. Há meses o presidente vinha num crescimento lento e constante, mas nas últimas semanas, estacionou. Mesmo com aumento no Auxílio Brasil, auxílio combustível e economia crescendo, as intenções de voto não aumentaram. Não há estratégia de campanha que consiga zerar os efeitos negativos da verborragia do presidente.

Ele até tenta seguir uma linha programática e estratégica de campanha, mas quando percebe um espaço para ser quem ele é, o resultado é o mesmo de sempre: ataques às minorias. E o efeito rebote logo aparece.

Bolsonaro chegou num limite entre os evangélicos, que demonstraram um pequeno crescimento para o ex-presidente Lula. Possivelmente fruto da adesão de Marina Silva na coligação da esquerda. Bolsonaro mudou o tom, falou em Deus, mas não percebe que sua estratégia tem de se virar para as mulheres, essas que ele tanto deslegitima, e o sudeste. Tanto Michelle Bolsonaro como o presidente constroem uma narrativa religiosa messiânica que entende a presidência, especialmente a partir da facada na campanha de 2018, como uma missão moral redentora e guiada por Deus. Dessa forma vemos o fortalecimento da presença dos evangélicos na cúpula do poder, quando a Frente Parlamentar Evangélica que outrora interagiu com o ex-presidente Lula passa a fazê-lo com Bolsonaro, com vistas a implantar a sua própria agenda conservadora. Bolsonaro, nos seus quatro anos de governo, mostrou sua lealdade à bancada e chega no limite de seu apoio. Falar nesses podcasts como tem feito é falar para convertidos, único cenário em que ele se sente bem.

As mulheres que foram alvo de mais uma institucionalização do machismo tóxico são a grande parcela de eleitores a quem Bolsonaro insiste em dar as costas. Fosse numa campanha com outro adversário, poderia se valer de sua falta de empatia e o jogo estaria garantido, mas quando se vê obrigado a chamar para si essa parte do eleitorado, nunca soa natural.

Não que Lula seja um santo. Já falou absurdos em relação às mulheres que não consigo nem reproduzir aqui, mas como nossa memória é curta, é mais fácil simpatizar com poucas palavras direcionadas ao setor. E, não, dizer que vai criar um ministério para as mulheres não é demonstrar firmeza e comprometimento.

Mas talvez o ponto que mais tenha me chamado a atenção no último DataFolha foi o fato de justamente o ex-presidente Lula ter crescido no centro-oeste, um reduto de sua maioria bolsonarista e de representantes do agronegócio. Esse mesmo setor que Lula chamou de “direitista e fascista” na sabatina do Jornal nacional, parece estar cansado da imprevisibilidade e inconstância do presidente Jair Bolsonaro.

Bolsonaro consegue provocar o chamado “ranço” até em quem historicamente está do seu lado. Não há crescimento na economia que reponha a falta de habilidade de Bolsonaro em lidar com assuntos sensíveis. Faltando 20 dias para o dia das eleições, o presidente e candidato Messias comprova que seu maior inimigo não é o mal imputado a esquerda representada por Lula, mas ele mesmo. Bolsonaro vai ter que correr muito para ficar no mesmo lugar.