O que Bolsonaro ganha por estimular a sua fúria? Muito

Matheus Pichonelli
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Brazilian President Jair Bolsonaro gestures during the Launch of the
O presidente Jair Bolsonaro durante evento em fevereiro. Foto: Evaristo Sá / AFP (via Getty Images)

No filme “Eu me importo”, recém-lançado pela Netflix, Rosamund Pike interpreta uma golpista fria e cínica chamada Marla Grayson. O golpe consiste em fraudar laudos na Justiça para conseguir a guarda de idosos supostamente incapazes de viverem sozinhos. Como a farsa, obtida entre lágrimas de crocodilo e sorrisos contidos, ela os aprisiona em um asilo de sua propriedade, onde os contatos e vínculos com o mundo exterior, para onde poderiam pedir socorro, são imediatamente cortados. Tudo para pilhar as heranças das vítimas com o título de representante legal.

Até que um dia ela mexe com a pessoa errada: a mãe de um homem perigoso capaz de fazer qualquer coisa para corrigir a injustiça.

Marla não demora a descobrir onde está pisando. Mas insiste no erro. Por quê? É louca? Não percebe o que está acontecendo?

As perguntas acompanham as quase duas horas de filme. A certa altura, é o espectador que percebe estar sendo manipulado. Marla sabe bem o que está fazendo. Não só cutuca a onça com vara curta como oferece um sorriso de deboche para a vítima injustiçada e furiosa.

Mas ela insiste em debochar da indignação porque é isso o que a alimenta e fortalece. Quanto mais ela debocha, mais desequilibra. Tudo o que a megera quer é o revide, para poder botar os óculos escuros, correr para o juiz ou a polícia e posar de vítima das reações mais destemperadas praticadas por quem não entende suas boas intenções. Para isso tem o tempo e a raiva a seu favor. Espera apenas o interlocutor perder a razão do modo mais estúpido para trucidá-lo.

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Como a vilã do filme dirigido por J Blakeson, Jair Bolsonaro sabe o barril de ódio e pólvora que alimenta quando fala, no pior momento da pandemia, que é preciso parar de frescura, de mimimi e pergunta até quando vai durar o choro pelas mais de 1.000 mortes registradas no país por 43 dias sucessivos. Ele sabe como uma pessoa que acaba de enterrar, sem luto ou velório, seus familiares, vizinhos e amigos pode receber uma declaração dessas —talvez a ofensa mais revoltante desde que tomou posse. Ainda assim, provoca: não basta boicotar os esforços para evitar o morticínio; tem que constranger o compatriota em seu direito de chorar por seus mortos.

Está louco em dizer uma coisa dessas num momento tão delicado?

Não, não está.

Bolsonaro, que já no primeiro ano de mandato já deu sinais de que seria um político como qualquer outro rejeitado em 2018, só que pior, encontrou na pandemia a oportunidade perfeita para a guerra defendida por ele desde os tempos de deputado, quando falava que só um conflito armado, com no mínimo 30 mil mortes, inclusive de inocentes, ajudaria a limpar o Brasil de suas mazelas. A pandemia deu a ele um morticínio seis vezes maior, mas ele parece querer mais. Quer o quê?

Quer um revide para botar os óculos escuros e correr para a polícia, a Justiça e as Forças Armadas e dizer que está sendo vítima da fúria de parte da população que não entende que ele age com a melhor das intenções. Sim, a mesma estratégia da megera de “Eu me importo”.

Em outubro de 2019, seu filho Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) desenhou a estratégia ao dizer que, se a oposição fosse às ruas contra o governo, a exemplo do que acontecia em países vizinhos, como o Chile, seria necessário botar na praça um “novo AI-5”. Era praticamente um convite à radicalização, a brecha desejada para reagir como sempre quiseram os Bolsonaro e seus cúmplices, desossando o Congresso, a Justiça e os contra-pesos que ainda impedem o Brasil de se transformar em um joguinho GI Joe da família presidencial.

Enquanto espera o revide para poder agir com base na força, Bolsonaro corre para facilitar o acesso e o porte de armas por quem, imagina, serão os primeiros a montar a barricada em sua defesa em caso de revolta. Estimulada, a fúria só se agiganta quando parte da população, abandonada e empobrecida, vê seu filho 01 escapar das investigações sobre rachadinha e adquirir, no capítulo seguinte, uma mansão no Lago Sul de Brasília que jamais conseguiria quitar com seu salário de senador. O que parece deboche não é descuido; é estratégia.

Por isso Bolsonaro segue alimentando seu barril de pólvora e ódio. Espera só a fagulha da raiva diante da injustiça, do descaso e da ofensa para ver o circo pegar fogo e reagir como sempre quis. Em outras palavras, quer um Incêndio do Reichstag para chamar de seu.

A estratégia ficou ainda mais explícita no deboche a todo mundo que uma hora dessas se esmurra de raiva diante da provocação aparentemente gratuita e tresloucada. Marla não faria melhor. A diferença é que no título desse filme real o vilão não faz questão de fingir que se importa.