Por que Bolsonaro "demoniza" o lockdown? Especialista vê "batalha do discurso"

Lucas Tomazelli
·7 minuto de leitura
  • Termo 'lockdown' passou a figurar em discussões ríspidas sobre o combate à pandemia no país

  • Especialista vê tentativa de Bolsonaro 'esvaziar' o termo para usá-lo da maneira que o convém

  • Prefeito do interior paulista chegou a ser ameaçado depois de adotar a medida

Máscara, distanciamento social, variantes. Há mais de um ano a pandemia do novo coronavírus vem inserindo itens e conceitos outrora não muito comuns para toda a população mundial. No Brasil, há um termo em especial causador de intensas disputas entre especialistas, políticos, comerciantes, entre outros: "lockdown".

Presença constante nas falas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o "lockdown" significa não restrição de movimento de pessoas ou confinamento social. No contexto da pandemia, trata-se de uma restrição adotada em momentos de emergência, na qual as pessoas não devem sair de casa para preservar sua segurança. Não se equiparando propriamente aos conceitos de toque de recolher, quarentena ou distanciamento social, por exemplo.

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"Existe claramente uma disputa. O governo federal se colocou contrário às medidas de restrição contra a Covid-19, sendo que nem mesmo reconhecia a gravidade da doença há algum tempo. Criou-se um falso dilema entre vida e economia, que é desmentida pela experiência europeia na gestão da crise sanitária. [Lockdown] É um termo que vem sendo utilizado como uma maneira de criar uma narrativa, digamos assim, que tente mostrar às pessoas que a ação de governadores e prefeitos está produzindo a crise ao invés de resolvê-la", opina Edison Ricardo Emiliano Bertoncelo, professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) ao Yahoo! Notícias.

Rita Kramer, professora e analista de discurso, corrobora com essa linha de pensamento. Para ela, os signos de qualquer língua são "equívocos", podendo adotar diferentes significados. No caso do combate à pandemia no Brasil, a expressão "lockdown" estaria no meio de um embate de caráter ideológico.

"O fato de um signo vir de uma outra língua acentua o poder de equivocidade desse termo porque os falantes têm menos familiaridade com ele. Isso ajuda nesse deslocamento de sentido", explica a doutora em linguística pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

Para a professora, Bolsonaro explora bem essa possibilidade de expandir sentido em suas falas relativas à pandemia do novo coronavírus. "Ele é contra o lockdown e percebe que é uma medida mal vista por uma série de pessoas. Então pensa 'ora, vou designar como lockdown qualquer medida de isolamento' para que as pessoas sejam contrárias também".

Além de falar reiteradamente contra as medidas de isolamento, defendidas por especialistas do mundo todo como uma das armas mais eficazes para frear a propagação do coronavírus, o Presidente da República já acionou a Supremo Tribunal Federal (STF) para barrar ações do tipo, mesmo com o número de mortes em franca ascensão no país.

"O presidente não é o único culpado pela crise sanitária, mas é o principal, no meu ponto de vista. Os poderes compartilham responsabilidade, mas é o Executivo que concentra muitas fontes de ação. Ele tem a possibilidade de pedir gastos extraordinários, controlar as Forças Armadas, coordenar ações que poderiam ter tido resultados muito melhores do que feitos apenas por governadores e prefeitos", pontua Bertoncelo.

Para o docente, Bolsonaro tentou boicotar diversas vezes medidas de combate à pandemia, fato que ajudou na escalada da crise sanitária. Hoje, o país sofre com seu pior momento na pandemia, cenário que pode enfraquecer seus reiterados ataques às medidas que ele classifica, genericamente, como "lockdown".

"Ao que parece, pelas pesquisas de opinião, a narrativa do presidente vem perdendo tração na sociedade. Cada vez mais os brasileiros querem a vacina e o fim da crise sanitária. A experiência internacional mostra que sem vacinação rápida, o distanciamento social é a maneira mais eficaz de frear a propagação do vírus. Se houvesse uma coordenação federativa, acredito que estaríamos em uma situação bem melhor", analisa o professor

Todo mundo que é contra lockdown é negacionista?

Criticado mundialmente por ter uma postura negacionista diante da pandemia, Bolsonaro segue na sua cruzada contra as medidas de restrição instaladas no país.

"Não há como evitar isso ["demonização" de termos específicos]. A solução é informar a população, deixar claro qual é o significado científico do conceito. Estamos numa batalha constante de informações, é uma luta no campo do discurso. Bolsonaro esvazia completamente o sentido das coisas para preencher com o sentido que convém, isso desde antes das eleições de 2018", argumenta a professora.

No entanto, Rita pontua que nem mesmo o alto volume de informação pregado por especialistas e difundido por meios jornalísticos pode ser suficiente para vencer a "batalha do discurso". Ela lembra que outros termos como "doutrinação", "fascismo" e, mais recentemente, "genocídio" entraram em disputas acerca de seus respectivos significados.

"As pessoas tendem a acreditar no que é mais confortável para elas, o negacionismo vem disso. Tendemos a favorecer o que se dá em prol do nosso conforto psicológico. Por aqui, isso é agravado por uma autoridade como Bolsonaro, que intensifica esse tipo de discurso", pontua a docente.

Bertoncelo destaca que não é possível equiparar a postura do presidente com a posição de "cidadãos comuns" quando se trata de medidas de enfrentamento da pandemia. Por eventuais omissões de sua gestão na crise sanitária, Bolsonaro pode enfrentar uma CPI no Senado Federal.

"Nem todo mundo que é contrário ao lockdown pode ser taxado de negacionista. Para que você convença as pessoas a ficarem em casa, é preciso dar a elas meios para isso, ainda mais considerando as particularidades da estrutura social brasileira com alto número de informais e autônomos", pontua o professor que critica a interrupção do auxílio emergencial, benefício que foi interrompido em dezembro e só voltou a ser pago em abril pelo governo federal.

"Se o Executivo tivesse interessado em resolver a crise, não ficaríamos tanto tempo sem auxílio emergencial. É só com esse tipo de ação que você cria condições adequadas para que a pessoa possa se isolar e, portanto, se proteger", analisa Bertoncelo, que trabalha com temas como estratificação social e sociologia política.

Os custos do lockdown

Apoiador de Bolsonaro carrega cartaz contra lockdown em protesto realizado em São Paulo - Foto:  Cristina  Szucinski/Anadolu Agency via Getty Images
Apoiador de Bolsonaro carrega cartaz contra lockdown em protesto realizado em São Paulo - Foto: Cristina Szucinski/Anadolu Agency via Getty Images

Bertoncelo pondera também que os efeitos de medidas restritivas contra a propagação da Covid-19 facilitam um discurso crítico como o de Bolsonaro e seus apoiadores.

"Medidas como o lockdown têm custos muito precisos. Os benefícios, como diminuição de taxa de contaminação e, portanto, redução da pressão no sistema de saúde, são difusos e só vêm à médio prazo. Os prejuízos, como perda de renda e endividamento de pequenos empresários são percebidos mais rapidamente", destaca o professor, que diz ser contra uma tese que intensifica as responsabilidades individuais.

"Crise sanitária tem a ver com atitudes individuais, mas, na minha opinião, é um falso discurso o de 'se cada um tivesse feito sua parte, estaríamos melhor'. Numa crise desta dimensão, é preciso organização. Não adianta máscara e álcool em geral se as pessoas pegam ônibus e trens lotados diariamente".

Redes sociais disseminam discursos anti-ciência

Além das inúmeras falas públicas de Bolsonaro e políticos de sua base contra medidas restritivas, Bertoncelo destaca ainda a força das redes sociais bolsonaristas na criação desse discurso.

"É preciso considerar também a ação da extrema direita que apoia Bolsonaro. Além do respaldo de alguns deputados e prefeitos, há apoiadores que circulam nas redes sociais todo tipo de opiniões contrárias ao lockdown. É uma postura resistente a fatos empíricos".

A carga negativa colocada no termo fez até com que, Edinho Silva (PT), prefeito de Araraquara, sofresse ameaças de mortes depois adotar um lockdown "de verdade" na cidade.

"A imagem tem um efeito muito mais intenso do que a palavra. Temos visto que a tecnologia manipula cada vez mais a imagem, até por não haver letramento digital em uma grande parcela da nossa população. Há quem crie uma realidade paralela de um jeito muito eficiente, atingindo uma parcela que deseja acreditar nessa realidade e outra que está extremamente vulnerável a esse tipo de prática", opina a especialista em linguística sobre a dimensão que o debate acerca de medidas restritivas atingiu.

Para Bertoncelo ainda será necessário um estudo mais minucioso sobre a percepção da população diante das medidas de restrição no combate à pandemia.

"Adotar medidas mais restritivas traz prejuízo político. Não adotá-las também possui custo muito alto [pelo elevado número de mortos e contaminados]. Ainda vai ser preciso analisar isso com mais detalhes no futuro".