Como Bolsonaro virou peça-chave para Trump conseguir votos nas eleições dos EUA

Matheus Pichonelli
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U.S. President Donald Trump hosts a photo-op with Brazilian President Jair Bolsonaro before attending a working dinner at the Mar-a-Lago resort in Palm Beach, Florida, U.S., March 7, 2020. REUTERS/Tom Brenner     TPX IMAGES OF THE DAY
Donald Trump posa para foto ao lado de Jair Bolsonaro durante visita a Flórida, nos EUA, em março de 2020. Foto: Tom Brenner/Reuters

De olho nos votos dos eleitores do Meio Oeste, o presidente Donald Trump fez um aceno e tanto aos produtores do chamado “cinturão do milho”, que apoiaram sua campanha em 2016 e tendem a repetir a parceria quatro anos depois. Para isso, contou com a ajuda camarada de Jair Bolsonaro, cujo governo aceitou a prorrogação por mais 90 dias da cota de seu etanol à base de milho à qual os americanos têm direito a exportar ao Brasil sem pagar tarifa.

Desde o início do mês, quando expirou o primeiro acordo, o etanol vendido pelos EUA ao Brasil, uma referência na produção do etanol, pagava tarifa de 20%. A cota de exportação era de 750 milhões de litros ao ano. Agora a cota mensal do produto que chegará livremente por aqui é de 62,5 milhões de litros.

O acordo representa um “sacrifício enorme para o produtor brasileiro neste momento em que os estoques estão muito mais altos do que no ano passado”, afirmou ao Jornal Nacional o presidente da Unica (União da Indústria de Cana de Açúcar) Evandro Gussi.

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Quando o acordo expirar, já terão passadas as eleições nos EUA. Será um grande dia para o candidato republicano à reeleição por quem Bolsonaro já disse estar “cada vez mais apaixonado”. Brasil acima de tudo, mas pera lá, vamos primeiro fazer a América grande novamente.

E não é só isso, diria um apresentador de promoções malucas na TV.

Como, na diplomacia trump-bolsonarista, princípio de reciprocidade é bobagem, os EUA decidiram reduzir também as compras do aço semi-acabado vindos do Brasil. Não é a primeira medida que afeta diretamente as exportações brasileiras. Em 2018, vale lembrar, o alumínio passou a ser taxado em 10% nos EUA.

O combo oferecido pelo governo Bolsonaro foi enviado no sábado, quando Brasília aceitou a retirada de um nome brasileiro para presidir o Banco Interamericano de Desenvolvimento e decidiu apoiar um nome americano, algo inédito desde a fundação do órgão, em 1959. Até ontem o BID era comandado por um latino-americano -- uma norma não formalizada para restringir a concentração de poderes americanos em instituições do tipo, a exemplo do que acontece na ONU.

Com a anuência do país alinhado (sic), o americano Mauricio Claver-Carone, considerado um dos falcões da Casa Branca mais virulentos contra governos de esquerda na América do Sul, foi eleito como mandava Trump. A anuência deixou o Brasil sob desconfiança e descontentamento cada vez maiores dos vizinhos.

Com moral ascendente por conta do auxílio emergencial, mas sem aprovação da metade da população, segundo as últimas pesquisas de opinião, o engajamento de Jair Bolsonaro na campanha municipal de 2020 ainda é uma incógnita. O risco é aderir a candidaturas com as quais nem um nem outro terá algo a ganhar.

O mesmo cálculo não se observa em relação à disputa americana. Com a subserviência de sua política externa, o Brasil parece não se incomodar com a parte que lhe cabe à entrada da Casa Branca. O figurino de capacho lhe cai bem.