O centrão vai moderar Bolsonaro? Conta outra

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Demonstrators take part in a rally in support of Brazilian President Jair Bolsonaro and calling for a printed vote model at Esplanade of Ministries in Brasilia, Brazil on August 1, 2021. - Thousands of Brazilians took to the streets of Rio de Janeiro and Brasilia Sunday to support far-right President Jair Bolsonaro in protest against the country's electronic voting system. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Estimulados por Bolsonaro, manifestantes vão às ruas pedir voto impresso. Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

Vira e mexe o presidente Jair Bolsonaro cruza a linha do bom senso (perdão pelo eufemismo) e coloca meio mundo em polvorosa.

Quando protagonizou protesto coalhados de cartazes pedindo a volta do AI-5 e uma certa “intervenção militar, com Bolsonaro”, seja lá o que isso significa, muita gente com fonte nos meios militares correu para saber que história era aquela. Como quem vai à farmácia, ganharam um calmante e um analgésico e foram dormir em paz.

A resposta, em off, é quase sempre protocolar: “não, não vamos patrocinar nenhuma iniciativa tresloucada”.

Ufa.

Podemos voltar aos afazeres. Até a próxima ameaça. E a próxima.

Quando se percebe, a água ferveu aos poucos e alguns corpos já nadam no fundo.

O governo federal já se militarizou a ponto de ninguém mais estranhar quando militar da ativa sobe em palanque e participa de ato político. Ou negocia compra de vacinas suspeitas com empresas picaretas.

Quando alguém fala em voz alta um raciocínio lógico, o de que a linha sob ameaça já foi ultrapassada, a resposta é quase sempre um cala-boca: homem armado não ameaça, não vamos aceitar declarações levianas e irresponsáveis, etc.

Mas basta alguém falar, novamente em off, que uma versão à brasileira da invasão do Capitólio está descartada para meio mundo respirar aliviado. De novo. Ufa. Foi só um devaneio.

A coisa galopou a tal ponto que, na última semana, a entrega da Casa Civil a um político profissional, espécie de estandarte do Centrão, foi lida como um sinal de que as coisas poderiam, agora, entrar nos eixos.

Ciro Nogueira (PP-PI) e companhia têm lá suas pretensões eleitorais, um fundo engordado do caixa para suas campanhas para administrar e, imagina-se, não querem ver destroçada uma estrada por onde podem vislumbrar passos mais largos.

Era a deixa para que meio mundo interpretasse o casamento entre presidente e Centrão como um juramento à moderação.

Uma das missões dos políticos profissionais, afinal, era pacificar as relações com o Congresso, que até outro dia estava na mira de manifestantes pedindo novos atos institucionais.

Só que esperar moderação de Bolsonaro é como somar -4 mais 5 e jurar que deu nove.

Até pouco tempo, muita gente estava ainda convicta de que a aproximação dos militares de alta patente com um ex-tenente indisciplinado era o seguro anti-radicalização do então novo presidente.

A realidade: o presidente não perde a chance de humilhar os generais que não se curvam às suas obsessões e os que se curvam não negam nem confirmam as ameaças de que ou tem eleição com voto impresso, a última obsessão do capitão, ou não tem eleições em 2022.

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Quando Fabio Faria assumiu o Ministério da Comunicação, o pensamento desejoso e dominante era o de que ele seria a ponte para uma conversa de adultos entre governo e os veículos para os quais passava os dias mostrando os dentes. Virou um dos mais bolsonaristas dos ministros.

Sergio Moro, Santos Cruz, Mandetta: não teve ministro vendido como selo pró-moderação que se negou a se curvar aos delírios bolsonaristas e que não tenha sido mandado para a Sibéria dos burocratas. Paulo Guedes, outra esperança de moderação chinfrim, segue onde está. E só segue onde está porque não é mais nem menos radical do que o chefe.

Agora a aposta é que Ciro Nogueira ensine Bolsonaro e companhia a pedir licença e por favor. A leitura está mais para a versão de Chespirito de “My Fair Lady” do que para a adaptação de George Cukor para o cinema. Até o fim do ano estarão os dois comendo grama.

Os desejos de moderação ensaiados pela nomeação de Nogueira —ensaiados e reforçados por declarações oficiais dos novos sócios — para a Casa Civil duraram poucas horas. Desde quinta-feira à noite, Bolsonaro não faz outra coisa se não dobrar ou triplicar a aposta de que ou a eleição será do seu jeito ou não terá eleição.

Bolsonaro, sabe-se, não se importa com o sistema de votação. Foi eleito pelo modelo atual, eletrônico, para quem não se lembra.

O que ele quer é criar o caos, um caldo de desconfiança que leve gente armada para as ruas caso seu candidato favorito receba um grande pontapé em forma de votos para os adversários. Qualquer um.

Nos EUA, quando Donald Trump ensinou o caminho, os chefes das Forças Armadas tiveram de falar alto para brecar a aventura. Os invasores do Capitólio hoje prestam contas à Justiça, e não continências aos golpistas.

Aqui o copia-e-cola da estratégia trumpista vai até a segunda página. O desfecho tem tudo para ser pior. Com centrão, com militares, com tudo.

Em tempo. Como a foto acima sugere, os manifestantes que foram às ruas estimulados pelo presidente para exigir voto impresso ou morte levaram também para um dos atos um boneco em referência à deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), ex-bolsonarista que recentemente surgiu em público com marcas de espancamento. 

Enquanto a polícia investiga o caso, os fãs do presidente fazem troça — o apelido da parlamentar entre os bolsonaristas é "Peppa Pig" e "Miss Pig". Isso explica a figura da boneca estropiada levada para as ruas. Os autores do deboche sobre uma mulher agredida são os mesmos que se dizem defensores da ordem e da família. Deus está vendo.

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