O assustador relato sobre o dia em que Bolsonaro cogitou intervir no Supremo

Matheus Pichonelli
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Brazil's President Jair Bolsonaro rides a horse during a meeting with supporters protesting in his favor, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak, in Brasilia, Brazil May 31, 2020. REUTERS/Ueslei Marcelino     TPX IMAGES OF THE DAY
O presidente Jair Bolsonaro cavalga durante manifestação de apoiadores em 31 de maio. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Na história política brasileira grandes explosões foram precedidas pelas faíscas mais improváveis.

O estopim para o AI-5 foi o pronunciamento do deputado Márcio Moreira Alves, do MDB, conclamando a população a não participar dos desfiles militares de 7 de setembro de 1968 e dizendo que “as moças ardentes de liberdade” se recusassem a sair com oficiais. O dispositivo que cassou o seu mandato e de mais 10 deputados, três meses depois, foi uma resposta à resistência do Congresso em punir o parlamentar.

Pouco antes, o golpe militar de 1964 ganhou materialidade para além da boca dos conspiradores quando João Goulart reafirmou seu compromisso de realizar as reformas de base no comício de 13 de março da Central do Brasil.

A ditadura do Estado Novo tomou forma quando o governo brasileiro divulgou, em setembro de 1937, um falso documento atribuído à Internacional Comunista com planos para a implantação do regime comunista no país. O documento foi forjado justamente para justificar o arbítrio.

Sete anos antes, a justificativa de Getúlio Vargas para o golpe de 1930 foi o assassinato do então governador da Paraíba João Pessoa Cavalcanti, em Recife. O assassino, João Duarte Dantas, confessou que o crime foi motivado por “questão de honra pessoal”, mas o rastilho detonou explosivos num país mergulhado na tensão.

Cheques, Fiat Elba, pedaladas fiscais e divulgação ilegal de conversas mudaram o curso da história política mais recente.

A ordem no Brasil subverte o ditado. Aqui os ratos são capazes de parir montanhas.

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Não fosse uma conjunção de fatores e ponderações que brecaram a iniciativa golpista, por muito pouco Jair Bolsonaro não transformou uma formalidade de rotina em pretexto para dissolver o Supremo Tribunal Federal e conseguir governar sem os pesos e contrapesos do regime democrático.

Foi o que contou a repórter Monica Gugliano em uma assustadora reportagem de bastidor publicada no site da revista piauí.

Em tempos normais, o relato obrigaria presidente e seus auxiliares a virem a público se explicar. Mas estes não são tempos normais.

Segundo a apuração, no último dia 22 de maio, o presidente foi informado que o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello havia consultado a Procuradoria-Geral da República para saber se deveria ou não mandar apreender o celular do chefe do Executivo e do seu filho 02, o vereador do Rio Carlos Bolsonaro.

Estava claro que a consulta resultaria em nada, mas interpretação de texto não é o forte dos envolvidos. Eles queriam apenas uma brecha para acusar um suposto abuso em forma de provocação e colocar em prática seus arroubos autoritários.

A consulta era um procedimento padrão para a sequência, ou não, de um pedido feito por lideranças do PDT, PSB e PV para saber se o presidente interferiu de fato no comando da Polícia Federal, como acusava seu ex-ministro e neoinimigo Sergio Moro. O pedido foi rejeitado pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, e arquivado pelo próprio Celso de Mello, poucos dias depois.

Bolsonaro, que aparentemente não leu o regulamento antes da partida, decidiu vestir a capa e a espada e, em reunião com dois de seus ministros mais próximos, sempre segundo a reportagem, anunciou não só que não entregaria seu celular, se houvesse uma ordem judicial para isso, como havia decidido intervir na suprema corte.

O plano era (atenção) mandar tropas para o Supremo e destituir seus 11 ministros “até que tudo esteja em ordem”, seja lá o que isso significa. Foi mais ou menos o que os militares disseram em 64 antes de ficar 21 anos no poder.

Coube ao general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional que não estava na primeira reunião, contemporizar e fazer o presidente mudar de ideia.

No mesmo dia, por ordem do decano do STF, foi divulgado o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, em que os integrantes do governo foram apresentados nus e crus em suas batalhas psicodélicas contra moinhos de ventos. Menos de um mês depois o ex-faz-tudo Fabrício Queiroz foi localizado e preso na casa do advogado da família Bolsonaro em Atibaia (SP).

Foram estes dois eventos, e não uma suposta conversão ao espírito democrático, que explicam a mudança de postura do presidente, que deixou de estimular manifestações criminosas em seu quintal e se recolheu num estranho e (aposta-se) temporário silêncio.

Com um ano e meio de governo, coroado pela tragédia na condução da pandemia do coronavírus, Bolsonaro ganhou lugar na história pela incompetência e a desonestidade, já demonstrada quando usou como arma de campanha a farsa do chamado “kit gay” e outras fantasias.

Tem se esforçado também para levar na biografia a alcunha de golpista.