Humilhados por Bolsonaro, chefes militares entregam suas cabeças

Matheus Pichonelli
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Brazil's President Jair Bolsonaro looks on during a ceremony of Aviator's Day at Brasilia Air Base in Brasilia, Brazil October 23, 2020. REUTERS/Adriano Machado
O presidente Jair Bolsonaro se cercou de generais. Adriano Machado/Reuters

Na peça “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, a herdeira de um rico empresário volta à sua cidade-natal, Guellen, após muitos anos, em um momento peculiar. Decadente, o vilarejo enfrenta uma aguda crise econômica e seus moradores não demoram a vislumbrar, na visita da antiga moradora e sua fortuna, as esperança de retorno aos tempos gloriosos.

Claire (ou Karla, na adaptação para o cinema de 1964 com Ingrid Bergman) faz com que todos imaginem um alinhamento natural em direção aos mesmos desejos por dias melhores, mas ela está lá por outra razão: humilhar um antigo amante que a fez deixar a cidade em desgraça e pelas portas dos fundos. A condição para abrir a carteira em benefício da localidade é que o personagem seja condenado à morte.

Iletrado, é improvável que Jair Bolsonaro conheça a peça ou o filme. Seria menos arriscado dizer que ele a atualiza para os novos tempos por obra do inconsciente. Sim, até ele deve ter um.

Saído do Exército após ser acusado de indisciplina e insubordinação, o “mau militar” (palavras de Ernesto Geisel) suspeito de planejar explosões em unidades militares se converteu no rico visitante à velha cidade ao ser eleito presidente da República. Chegou não como viúva, mas como recém-casado com um anel valioso no dedo chamado Paulo Guedes. Com o trunfo ele prometia retomar a ordem e fazer jorrar dinheiro pelas burras com as bombas de seu Posto Ipiranga.

Um trailer do espírito vingativo do personagem, mal disfarçado como projeto de nação, foi visto quando humilhou publicamente, na reunião de 22 de abril, o seu ministro da Justiça, Sergio Moro, a quem havia batido continência em um café do Congresso e foi ignorado em seus tempos de deputado. O troco veio a coice de cavalão —seu apelido, aliás, antes de subir a capitão.

Faltavam os generais.

Um deles assumiu a vice-presidência e é desmoralizado dia sim, dia não, pelo chefe. Quem disse que um capitão não pode mandar um quatro estrelas calar a boca?

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No alto comando das Forças Armadas, virou jura de morte uma certa análise de conjuntura de ex-integrantes do governo petista após o impeachment. Eles lamentavam não ter feito mais para mudar a cartilha ideológica corrente nos quartéis, vista como um entulho intacto da Guerra Fria. A análise feriu os brios dos generais. Onde já se viu querer mexer em nossa doutrina?

Pois bem. Por osmose e apagamento da memória, o militar rebelde que se tornou candidato a presidente virou a opção mais palatável para o oficialato frente às opções em jogo —entre elas o petista Fernando Haddad, finalista do segundo turno.

Bolsonaro era a promessa de resgate do prestígio das Forças Armadas.

Três anos depois, a viúva rica do filme e da peça mostrou sua condição. Pode até abrir os cofres para a instituição em tempos de crise e abrigar muitos dos seus na máquina pública, desde que os superiores que antes o humilhavam ou ignoravam fossem devidamente desmoralizados.

Foi o que fez na segunda-feira 29 ao demitir, sem cerimônia, o ministro da Defesa que, até onde se sabe, não estava disposto a bater bumbo para seus delírios persecutórios.

Com a saída de Fernando Azevedo e Silva, o ex-militar de baixa patente e ex-deputado do baixo clero pode enfim estender aos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica a bandeja para depositarem suas cabeças. Nunca antes na história desse país um presidente promoveu tamanha humilhação pública aos seus comandados militares, que reagiram oferecendo as próprias cabeças.

Foi assim, em reação às pressões do presidente, que deixaram seus postos Edson Pujol (Exército), Ilques Barbosa (Marinha) e Antônio Carlos Moretti Bermudez (Aeronáutica).

Para alguns, a demissão em cascata é o recado de que não aceitam serem usados como estrada para o tratoraço que Bolsonaro ensaia pôr em campo.

Do que isso adianta ainda não se sabe. Por enquanto o que Bolsonaro ganhou com a decapitação foi uma estrada limpa para fazer o que quiser sem os muros de contenção de quem chegou ao auge da carreira militar que ele mesmo teve de abandonar.

Tudo isso às vésperas da efeméride do golpe militar de 1964.

Por que faria isso após chegar ao poder no embalo do apoio de lava-jatistas, generais e liberais, todos chutados para longe conforme notavam o esgarçamento da sua fantasia da moderação?

A resposta está em aberto, mas tudo aqui leva à leitura de que seu campo é outro. É inútil procurar em Maquiavel e nas entrelinhas segundo as quais maldade não se faz aos poucos. Bolsonaro, cruel a conta gotas, entorna a narrativa da ciência política porque é personagem de tragédia, embora flerte quase sempre com a farsa. Tudo o que nele se explica começa e termina nas paixões humanas, aquelas dos traumas, ressentimentos e desejos de revide. Nem que custe a destruição do povoado que em algum momento acreditou em sua redenção.