Pedido de impeachment periga fortalecer Bolsonaro em momento delicado da pandemia

Matheus Pichonelli
·5 minuto de leitura
Protesto em favor do impeachment de Jair Bolsonaro em frente ao Congresso Nacional. Foto: Andressa Anholete/Getty Images
Protesto em favor do impeachment de Jair Bolsonaro em frente ao Congresso Nacional. Foto: Andressa Anholete/Getty Images

Chegou no grupo do zap.

Sabe por que outros países prosperam na luta contra a pandemia e o Brasil, não?

Porque lá as pessoas se uniram para combater o coronavírus, e não o presidente que elegeram.

Então tá.

Como se, no mundo paralelo do WhatsApp, fossem os detratores do presidente que decidiram minar os esforços pelo isolamento social, a única medida adotada em outras nações capaz de fazer o vírus circular menos e baixar a curva de contaminação, e se embrenharam em aglomerações humanas pedindo o fechamento do Executivo e plenos poderes ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal.

Foi Rodrigo Maia e Dias Toffoli quem subiram na carroceria de caminhões em frente ao QG do Exército num domingo de sol para dizer que não tinha mais negociação e exortando os democrataminions a ignorarem a gripezinha e saírem às ruas normalmente, como homens.

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Foram eles que atravessaram a Praça dos Três Poderes levando empresários e representantes de associações pedindo ao presidente que, pelo amor de Deus, pensasse no CNPJ e não nos CPFs das 20 mil pessoas que morreram contaminadas só nas contas oficiais.

Foram os detratores impatrióticos que, a cada morte, mal disfarçavam o sorriso e faziam piadas em lives sobre medicamentos mágicos e refrigerantes de guaraná com tutti-frutti.

Tudo para colocar os mortos de um cemitério num saco pesado e entregar ao presidente constrangido a dizer que não é coveiro.

Esqueçam os dois ministros da Saúde formados em medicina que rodaram porque não concordavam com as ideias do presidente sobre isolamento social e cloroquina.

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Esqueçam a briga, no meio da pandemia, para trocar a chefia da Polícia Federal, emparedar o ministro da Justiça e abrir uma guerra de versões na Justiça sobre uma suposta interferência.

Esqueçam a mudança urgente na secretaria da Cultura que contou até com jogo de cena em óleo fervente para desmentir qualquer fritura.

Esqueçam: o Brasil só se tornou um pária na comunidade internacional porque a imprensa, os demais Poderes e os eleitores que ligam lé com cré se negam a ouvir o toque do berrante de quem desde o começo minimizou os estragos da pandemia e fez todos os esforços para boicotar qualquer estratégia de contenção viral com um falso dilema entre saúde e economia.

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Dois meses e cinco dias após a primeira morte por Covid-19 no Brasil, estão, ou deveriam estar, bastante claros os riscos de ter no comando do país um presidente incapaz de fazer regra de três, como mostrou ao tentar dizer que proporcionalmente estamos em situação melhor que a da Argentina, ou que vê o país atingir a marca de 20 mil mortos sem um único médico à frente do Ministério da Saúde.

Não há dúvidas de que o país estaria melhor, uma hora dessas, se houvesse um cone com a faixa presidencial no lugar de Jair Bolsonaro.

Ainda assim, tem poucas chances de prosperar os muitos pedidos de impeachment que começam a chegar à mesa do presidente da Câmara, Rodrigo Maia. O último deles veio assinado por lideranças do PT, PSOL, PCdoB e representantes de movimentos sociais.

É tudo o que querem os lunáticos que veem Bolsonaro acuado por inimigos, e não pelos próprios erros e fantasmas.

Até aqui, Bolsonaro não sujou uma unha tentando conter a pandemia. Pelo contrário: foi o maior galão de gasolina em uma fogueira que não foi contida em dois meses de quarentena meia-boca. Ainda assim, manteve perto de 30% a sua base de apoio, embora os números oscilem e os institutos de pesquisa apontem uma mudança de perfil entre seus apoiadores.

Ainda assim, só não estamos tomando refrigerante com cloroquina em shoppings de portas escancaradas porque existe um sistema de pesos e contra-pesos que tenta derrubar, em votações e liminares, os bodes que Bolsonaro coloca nas salas para forçar o Brasil a sair de casa.

A última sinalização era um esboço de cessar-fogo com os governadores. Ninguém sabe até quando.

Com o pedido de impeachment, que chega no momento em que ele abre a carteira do orçamento para as velhas raposas do Centrão -- as que têm votos suficientes para barrar qualquer medida do tipo no plenário -- ele ganha apenas a possibilidade de botar de pé um argumento fajuto que já circula no WhastApp das melhores famílias: a oposição não quer combater a pandemia; quer derrubá-lo.

Hoje uma coisa está relacionada a outra.

Mas nada é tão simples como parece. O tiro pode sair pela culatra justamente porque oferece pólvora a quem, há menos de dois anos, votou no ex-deputado do baixo clero jurando que as opções não eram melhores.

Não dá para minimizar os estragos, na guerra de narrativas das redes, que um pedido de impeachment, que exige recursos e mobilizações em um contexto de recursos e mobilizações escassas diante da pandemia, pode provocar.

Um deles, repito, é dar materialidade a um tipo de corrente que já nasce fajuta; a que alerta os patriotas de WhatsApp que os opositores se aproveitam da pandemia para voltar o poder.

Tudo é ainda agravado com a desastrosa fala recente do ex-presidente Lula, em tese o líder maior dessa oposição, que deu graças a Deus pelo fato de a natureza confirmar suas teses sobre política e economia por meio da pandemia.

Ele pediu desculpa, mas o estrago estava feito.

Num momento delicado como este, ser e parecer dá no mesmo e qualquer erro pode ser fatal. Com o pedido de impeachment, a oposição preferiu correr o risco.

No mundo paralelo das redes (sim, aquele vence eleições), Bolsonaro tem um documento agora para posar de vítima e chamar de oportunismo o que os opositores chamam de segurança sanitária.