Inflação assombra Bolsonaro, que agora culpa quem ficou em casa pelo descontrole

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Brazil's President Jair Bolsonaro, Brazil's Economy Minister Paulo Guedes and Brazil's Central Bank President Roberto Campos Neto arrive for a launch ceremony of real estate credit incentive program of the Caixa Economica Federal Bank at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil Fabruary 20, 2020. REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro durante cerimônia com ministro da Economia e o presidente do Banco Central Roberto Campos Neto. Foto: Adriano Machado/Reuters

Nos anos 1990, a inflação.

Nos 2000, a fome e a pobreza.

Nos 2010, a corrupção.

Nos rascunhos da biografia do Brasil escrita nas três últimas décadas, avanços e conquistas contra inimigos declarados –inflação, fome e corrupção – eram contados em etapas. O início dos anos 2020 mostrou uma história escrita em areia, apagada em tempo recorde com uma sucessão de ondas em forma de crise.

A década passada, iniciada sob a bandeira moralizante da Lava Jato, terminou em orçamento secreto, casamento com mensaleiros, suspeitas na compra de vacinas, de laptops para escolas públicas, líderes com dinheiro guardado em lugares pouco ortodoxos, consagração das rachadinhas e outros escândalos de tamanhos variáveis, parte deles abafada pelo loteamento dos órgãos de controle.

A fome voltou ao mapa do Brasil. Falta alimento na mesa de 72% das famílias mais pobres do país.

No último ano de sua gestão, nem o controle dos preços, um legado do Plano Real, será entregue por Jair Bolsonaro. É o que economistas preveem para 2022 após a carta do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, para justificar o estouro da meta da inflação, que no ano anterior acumulou alta de 10,06% –ante os almejados 3,75%, com tolerância de 1,5 ponto.

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Sempre que a meta é descumprida, o presidente do BC precisa vir a público esclarecer o que eu errado –como aconteceu em 2015, ainda no governo Dilma Rousseff. 

Foi o que aconteceu na terça-feira 11. Campos Neto falou da conjuntura internacional, dos preços das commodities, da demanda por bens em detrimento de serviços, dos gargalos na cadeia produtiva, da crise hídrica e da depreciação da moeda nacional. Faltou lembrar uma fala que está para fazer aniversário de dois anos, feita pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, em março de 2020: “Se fizermos muita besteira, o dólar vai a R$ 5”. Essa linha foi ultrapassada há tempos. O dólar hoje está a R$ 5,57.

Na conta para 2022 estão as perspectivas, nada animadoras, com os puxadinhos da política fiscal que nos anos anteriores driblaram o teto de gastos com base em atraso nas dívidas dos precatórios.

Tudo para atender às demandas políticas de Bolsonaro, que já correu a público com a velha tática do “comigo não morreu” ao comentar a inflação. Como sempre, a ideia é terceirizar aos inimigos a culpa pelo impacto no poder de compras das famílias, já assoladas pelo desemprego, a baixa remuneração e a crise econômica.

“Está o mundo todo com esse problema (inflação). Você lembra do ‘fique em casa, a economia a gente vê depois?’ Estamos vendo a economia. O cara ficou em casa, apoiou e agora quer me culpar da inflação”.

A fala de Bolsonaro tem um problema na lógica e outro na realidade. Entre as nações do G20, o Brasil é o país com o terceiro pior desempenho em relação ao controle dos preços.

Ao atribuir a culpa da inflação pelo “fique em casa” (que mal pegou por aqui, vale lembrar), Bolsonaro ignora os impactos, também econômicos, de sua política de estímulo a aglomerações e contaminação em massa, no intuito de obter uma impossível imunização de rebanho. Os 621 mil mortos na pandemia já não consomem nem produzem. E cada um dos mais de 22 milhões de casos de contaminação confirmados também tiveram impacto na atividade econômica –quantos dos doentes conseguiram ficar de pé e atender ao lema bolsonarista de que “o Brasil não pode parar” por causa de uma gripezinha?

Quando a situação melhorou, graças ao avanço da vacinação que Bolsonaro tenta sabotar desde o início, a fatura das escolhas do governo e seus ministros falastrões veio em forma de deterioração econômica. Basta lembrar que em um dos momentos mais graves da história recente o presidente e seus sabujos elegeram como prioridade o voto impresso e a cloroquina.

O descontrole inflacionário, flagrado por quem tenta abastecer o carro e paga R$ 20 pelo café no supermercado (a carne mesmo não dá para levar), tende a minimizar um tanto o efeito do Auxílio Brasil, a maior cartada eleitoral de Bolsonaro até aqui, e corroer de vez a moral de um presidente que não tem a confiança de sete em cada dez brasileiros.

O quadro faz o capitão dar a largada ao ano em que tentará a reeleição da pior forma. Ele é o primeiro presidente que inicia a busca por um novo mandato estando atrás de outro candidato nas pesquisas de intenção de voto. Bolsonaro tem hoje 22% no Datafolha. O ex-presidente Lula, que desponta como seu maior rival, tem 48%.

Parte do quadro pode ser explicado pela série de reveses que, em pouco tempo, conseguiram reverter conquistas relacionadas ao controle da inflação e combate à fome e à corrupção dos últimos anos.

Na campanha de 2018, Jair Bolsonaro prometia fazer com que o Brasil voltasse a ser o que era há 40 ou 50 anos. Conseguiu.

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