Brasil às vésperas do segundo turno: o súdito ideal de Lula ou Bolsonaro

Lula e Bolsonaro disputam segundo turno histórico no próximo domingo (30) - Foto: Diretoria de Arte/Yahoo
Lula e Bolsonaro disputam segundo turno histórico no próximo domingo (30) - Foto: Diretoria de Arte/Yahoo

O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista ou o comunista, mas aquele que não sabe a diferença entre fato e ficção. Hannah Arendt, uma das mais importantes pensadoras do século XX, defendia a importância da política e da igualdade com respeito às diferenças. Arendt sabia o que nós esquecemos: democracia é dissenso. É conflito. Só assim para chegarmos no consenso.

Eu cubro política há mais de 20 anos. Já trabalhei em todo tipo de campanha, até para Presidente. Fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado na área. Achei que já tinha visto e lido tudo. Mas nunca, nem por hipótese, imaginei que terminaríamos uma campanha em pleno 2022 com um ex-deputado tentando matar a Polícia Federal. Como se esse toque de fantástico à realidade não bastasse uma parcela da população ainda o defende.

“Nunca antes na história desse país” vi tanto descrédito em relação às instituições, à ciência, à imprensa, aos fatos. Fake News existem desde que o mundo é mundo. Mas o que vimos nessa eleição de 2022 foi o descrédito e a loucura como métodos.

E, ainda somos influenciados e achamos que somos “o pensamento crítico de 2022”. Uma das pautas absurdas dessa campanha foi o canibalismo. Canibalismo, meus amigos! E, o que estava no mainstream desse ano? Jeff Dahmer! Olhem como importamos comportamentos. Chegamos ao ponto de colocarmos em discussão canibalismo influenciados por um show midiático americano. Nem no absurdo somos originais.

Veja as últimas pesquisas eleitorais para presidente:

Como se a pauta da desconfiança das urnas não bastasse, agora a campanha de Jair Bolsonaro coloca em discussão a não inserção de propagandas eleitorais de sua candidatura. E vai argumentar com alguém que essa fiscalização é prerrogativa das campanhas?

A palavra do ano de 2016 foi pós-verdade, que é quando os fatos têm menos apelo do que as emoções e a subjetividade. Mas o tuiteiro que está o dia inteiro no sofá pensa que ele sim é o dono da razão. Não as universidades com seus corpos robustos de pesquisadores ou então os laboratórios de pesquisa. Não, o tuiteiro sabe tudo e sabe como resolver todos os problemas. Acreditamos em mentiras que corroborem nosso ponto de vista porque a realidade já é dura demais para suportarmos. Questionar a tudo e a todos é reflexo de uma sociedade subjetiva, egocêntrica, raivosa e...onipotente. Cristopher Lasch já dizia isso no final dos anos 70 início de 80.

A verdade morreu, disse Michiko Kakutani. Ridicularizamos a verdade. Não se enganem. Todos temos direito a opiniões, mas não a diferentes bases de fatos. Lula foi, sim, o maior líder de corrupção que esse país viu em sua história pública. Bolsonaro foi, sim, um presidente incompetente em sua condução na pandemia. E, mesmo assim, estamos aqui, brigando, nos matando por políticos que só se preocupam com a manutenção do poder. O jornalista Edson Rossi aponta num de seus brilhantes textos que essa ideia do brasileiro pacífico e cordial quer dizer na verdade que não agimos a partir de experiências reais e racionais, mas sim de forma impulsiva. E, que nenhuma sociedade no mundo que tenha evoluído construiu suas relações sem rachas extremos.

Que esse racha que estamos vivendo sirva para que, a partir de janeiro de 2023, possamos cobrar conscientemente o próximo presidente. Sem cegueiras. Política não é esporte para você torcer fervorosamente por um time. Política é responsabilidade. Que nossa cegueira dê lugar à lucidez para entendermos que é hora de dizermos um basta à corrupção e ao negacionismo. Vamos, sim, escolher entre o menos pior. Não se engane você com seu Twitter aberto que Lula ou Bolsonaro têm um projeto de sociedade. O projeto é de poder. Mas, o que eles esqueceram, e nós não, é que todo poder emana do povo. Que façamos valer os próximos quatro anos. Domingo temos uma escolha única: o respeito pela democracia. Que possamos, tal como Hannah Arendt, voltar ao debate racional.