Escalada golpista assusta moderados e trava crescimento de Bolsonaro em pesquisa

Brazilian President Jair Bolsonaro (R) and deputy Daniel Silveira, pose with a framed copy of the presidential pardon, during an act in defence of freedom of expression at Planalto Palace in Brasilia on April 27, 2022. - To Brazil's Supreme Court, he's a criminal. To President Jair Bolsonaro and his allies, he's a hero. Daniel Silveira, a brash, brawny ex-cop turned congressman and convict, is dividing Brazil five months from elections. Silveira made international headlines last month, in April 2022, after the Supreme Court sentenced him to nearly nine years in prison for verbally attacking the country's democratic institutions and leading a movement calling for the court's overthrow. The next day, acting
Jair Bolsonaro e Daniel Silveira em cerimônia no Palácio do Planalto em abril de 2022. Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

A interrupção da tendência de crescimento da candidatura de Jair Bolsonaro (PL) à reeleição, observada desde fevereiro, coincide com a repercussão da (nova) escalada do presidente contra o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal Superior Eleitoral e as urnas eletrônicas. A postura, que transformou em troféu o indulto a um deputado violento e perigoso como Daniel Silveira (PTB-RJ) e envolveu novas ameaças à realização do pleito em outubro, pode ter animado as bases bolsonaristas, mas assustou e provocou o afastamento, como previsto, dos eleitores moderados que ensaiavam o embarque na candidatura do ex-capitão.

A percepção foi mensurada na pesquisa Genial/Quaest divulgada no início da semana. O levantamento mostrou que 45% dos eleitores reprovaram o perdão de Bolsonaro a Silveira, enquanto 30% disseram apoiar a decisão.

Entre eleitores do ex-presidente Lula (PT) a rejeição ao indulto chegou a 61% e, entre quem não quer nem um nem outro no comando do país a partir de 2023, o índice atingiu 54%.

Em nota distribuída à imprensa, o diretor da Quaest, Felipe Nunes, lembrou que os eleitores de Bolsonaro e Lula já estão definidos, e que quem vai decidir a eleição é exatamente essa faixa “nem-um-nem-outro”.

Do total, 12% disseram que o perdão diminuiu as chances de votar no atual presidente.

“O afastamento dos moderados explica por que caiu o número de eleitores que votaram em Bolsonaro em 2018 que defendem a reeleição. Eram 63% em abril e são 58% hoje. A pesquisa mostra que 18% dos eleitores de Bolsonaro nas eleições passadas pretendem votar em Lula”, explicou Nunes no comunicado.

A pesquisa mostrou um campo minado pelo próprio presidente ao insistir também no ataque às urnas eletrônicas. Isso porque, para 75% dos eleitores, o atual sistema de votação é confiável – 68% diziam o mesmo em setembro de 2021, quando Bolsonaro subiu ao palanque com seu figurino golpista no 7 de Setembro.

Quatro em cada dez eleitores dizem hoje que o sistema é “muito confiável”; para 35%, ela é mais ou menos confiável. Já o número dos que dizem desconfiar da urna eletrônica caiu 7% no período (de 29% para 22%). Tudo isso apesar das contestações publicizadas pelo governo e parte das Forças Armadas em relação à segurança do pleito —todas respondidas pelos técnicos do tribunal.

Um dado curioso da pesquisa é que a reprovação de Bolsonaro, de 46% na população geral, oscila conforme o meio em que o entrevistado diz acompanhar as notícias sobre política. Para quem assiste TV e ou costuma ler blogs ou portais de notícia, Bolsonaro é rejeitado por 52% e 48%, respectivamente; já para quem lê apenas redes sociais, a principal trincheira do bolsonarismo e das Fake News, o índice cai para 37%.

No Nordeste a reprovação do governo é de 51%, número mais alto entre as macrorregiões, mas que já foi de 60% em novembro do ano passado –antes, portanto, do pagamento do Auxílio Brasil de R$ 400.

Como os “candidatos a candidatos a terceira” somam apenas migalhas na pesquisa, Lula hoje, beneficiado pela escalada golpista do rival, está na margem de erro para vencer a eleição no primeiro turno.

Como os dois principais postulantes já são conhecidos do eleitor, e a maioria dos votos (63%) está cristalizada –esse índice de pessoas com a escolha definida só foi atingido em setembro da eleição de 2018 –, a margem do bolsonarismo para reverter a desvantagem ficou menor e mais dependente do chamado "fato novo". É bom não duvidar.

Fato é que o entorno do presidente esperava que, a essa altura, o candidato à reeleição já tivesse reduzido de maneira mais acelerada a vantagem do adversário. Havia previsões, inclusive, de que já poderia estar à frente das pesquisas. Foi para isso que Paulo Guedes e companhia abriram a carteira.

Faltou combinar com Bolsonaro, que quanto mais assume a postura golpista, mais afasta possíveis eleitores. Para ele, o quadro fica ainda mais complicado à medida que a situação econômica, afetada pela alta da inflação, se deteriora. Não por acaso, 50% dos entrevistados dizem que o principal problema do país é a economia, uma situação que só piorou na comparação com o último ano na opinião de 62%.

Diante do cenário, resta a Bolsonaro uma escolha de Sophia: interromper os ataques, fingir alguma normalidade e correr o risco de perder no jogo limpo ou insistir em minar o campo e terminar a campanha com menos votos, menos força e menos apoio para sequer começar a virar a partida no tapetão.

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