Oposição vê novo pronunciamento de Bolsonaro como raso e insatisfatório: "colcha de retalhos"

Foto: AP Foto /Eraldo Peres

Líderes de siglas de centro e de esquerda consideraram que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) recuou no tom de enfrentamento às instituições e a governadores, que adotava até então, no pronunciamento que fez em cadeia de rádio e TV na noite desta terça-feira (31). A avaliação também é compartilhada por integrantes do Judiciário.

De um modo geral, porém, o conteúdo da fala dele foi considerado raso. Ao final do pronunciamento, Bolsonaro fez um claro aceno às instituições e a outros atores políticos que foram alvo de críticas dele nas últimas semanas.

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"Com este mesmo espírito, agradeço e reafirmo a importância da colaboração e a necessária união de todos num grande pacto pela preservação da vida e dos empregos: Parlamento, Judiciário, governadores, prefeitos e sociedade", disse.

"Bolsonaro recuou pela primeira vez. Deve ter sentido a indignação do Brasil com a forma irresponsável com que se comporta diante de tamanha crise", disse o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP).

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"Se serve de algum consolo, ele baixou o tom em relação aos ataques que fez anteriormente e começou a tomar dimensão para a gravidade da crise que nós estamos enfrentando. Ele parece estar convencido agora de que não se trata de uma gripezinha, mas, como ele disse, a maior crise, o maior desafio da nossa geração", afirmou o líder da minoria no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Para o senador, Bolsonaro teve uma "mudança de percepção da realidade".

"O pronunciamento foi uma colcha de retalhos. Ele parece não saber a quem agradar. Aparentemente quis corrigir o erro grave daquele discurso absurdo da semana passada", disse o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB).

Para dirigentes de siglas de centro, Bolsonaro não trouxe nenhum anúncio novo no pronunciamento, não defendeu medidas de isolamento e variou o seu discurso ao defender a manutenção de empregos e medidas de combate à pandemia.

Porém, se mantiver essa postura e não voltar a incentivar as pessoas a romperem o isolamento, já é um avanço, dizem.

Para ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), Bolsonaro está começando a enquadrar-se à medida que passa a admitir a gravidade da pandemia do novo coronavírus.

Integrantes da corte avaliam que os últimos apelos feitos por governadores, integrantes do Judiciário e ministros por uma união nacional para enfrentar a doença surtiram efeito.

Em reuniões no sábado (28), Bolsonaro foi cobrado a adequar seu discurso às ações defendidas pelo Ministério da Saúde e agir em coordenação com prefeitos e governadores.

Apesar da avaliação geral de que o presidente baixou o tom, houve críticas também à menção de Bolsonaro à fala do diretor-geral da OMS (Organização Mundial de Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus.

O presidente usou trechos de uma fala do dirigente para embasar seu discurso de equiparação de empregos e vidas.

"Temos uma missão: salvar vidas sem deixar para trás os empregos. Por um lado, temos de ter cautela e precaução com todos, principalmente junto aos mais idosos e portadores de doenças preexistentes. Por outro, temos de combater o desemprego, que cresce rapidamente, em especial entre os mais pobres. Vamos cumprir essa missão, ao mesmo tempo em que cuidamos da saúde das pessoas", disse Bolsonaro na noite desta terça.

Já a frase completa de Adhanom é: "Cada indivíduo é importante, cada indivíduo é afetado pelas nossas ações. Qualquer país pode ter trabalhadores que precisam trabalhar para ter o pão de cada dia. Isso precisa ser levado em conta".

Bolsonaro acrescentou que "temos que evitar ao máximo qualquer perda de vidas humanas", mas que "ao mesmo tempo, devemos evitar a destruição de empregos, que já vem trazendo muito sofrimento para os trabalhadores brasileiros".

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***Por Julia Chaib, da Folhapress