Jair Bolsonaro é um psicopata?

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Brazilian President Jair Bolsonaro delivers a speech during the launching of the Brazilian Waters Program in celebration of International Water Day at Planalto Palace in Brasilia, on March 22, 2021. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

A pergunta do título virou assunto, tema de discussões nas redes, e até reportagem desde que o psiquiatra forense Guido Palomba, ex-presidente da Academia de Medicina de São Paulo, publicou um artigo com uma polêmica hipótese diagnóstica na Folha de S.Paulo, no último dia 18.

Observando de longe, o autor fez uma descrição tipológica que supostamente caracterizaria a psicopatia (ou condutopatia) do presidente, como destaque para a ausência de sentimentos de piedade, compaixão e altruísmo, falta de valores éticos-morais e incapacidade de reconhecer culpa, remorso ou arrependimento. Os psicopatas, escreveu, são pessoas agressivas, mal-educadas, vaidosas e provocadoras, características presentes, segundo Palombo, quando Bolsonaro, diante da pandemia, diz não ser coveiro e pede para que a crise seja encarada sem frescura. “Não há ressonância afetiva com a dor alheia”, cravou.

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O diagnóstico repercutiu em uma reportagem no principal noticiário da TV Cultural. Entrou nos trends topics do Twitter e apareceu na boca até de João Doria, governador de São Paulo, em uma entrevista à CNN Internacional.

Na mesma rede onde viralizou, o suposto diagnóstico não demorou a receber questionamentos.

“Bolsonaro não faz o que faz por ter transtorno mental, mesmo que eventualmente tenha algum. Isso reforça o estigma das pessoas que necessitam de acolhimento e tratamento e não ajuda em nada no que realmente importa, que é a responsabilização política e criminal do presidente”, escreveu o médico e advogado sanitarista Daniel Dourado em uma postagem feita pelo youtuber Felipe Neto com o vídeo da reportagem do Jornal da Cultura. A publicação teve mais de 7,5 mil compartilhamentos.

O posicionamento de Dourado ganhou o apoio de Luís Fernando Tófoli, psiquiatra e professor da Unicamp. “Acho um equívoco ir pelo ‘caminho psiquiátrico’, até porque no Brasil não existe dispositivo legal claro, como nos EUA, para impedir o presidente por ‘loucura’. A saída é política: ou impeachment ou derrota nas urnas”, escreveu.

Para Tófoli, a psiquiatria ética não deveria diagnosticar absolutamente ninguém à distância, independe de o presidente ser psicopata ou não. “Sendo ou não, o risco de gerar estigma é provavelmente maior do que o de resolver o problema.”

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Entre os colegas psiquiatras, no entanto, as opiniões se dividem quando a postura pública do presidente é analisada. Para muitos, é importante “acusar” a suposta psicopatia do presidente, algo que Tófoli contesta.

Em conversa com o blog, Tófoli afirmou o artigo de Palomba é anacrônico e muito centrado em um modelo “biologicista”. O texto associa a personalidade do presidente a possíveis lesões cerebrais ocorridas em seu nascimento. “Isso é impreciso e até leviano”, diz o psiquiatra, para quem o suposto transtorno do presidente não muda a sua imputabilidade e sua capacidade de tomar decisões para a vida civil, que não seriam afetadas pelo fato de ser (ou não) psicopata.

O episódio, segundo o especialista, mostra que parte dos brasileiros está tão carente em busca de alguém que diga que Bolsonaro é “canalha” que precisa vir um psiquiatra a público para referendar a avaliação. “Praticamente todo mundo sabe que Bolsonaro age de forma vil. Até quem apoia o Bolsonaro sabe quem ele é. Não precisamos que alguém diga que ele é psicopata. O que a gente precisa é entender por que o país aceita uma pessoa assim no poder.”

Tófoli diz que também já tentou entender a psique de Bolsonaro por meio de livros, como “O cadete e o capitão”, de Luiz Maklouf Carvalho, perfis e até do podcast “Retrato Narrado”, da Revista Piauí. Ele diz que embora o presidente manifeste de fato traços de perversidade e egoísmo de quem só se importa com ele e a própria família, diagnosticar sem contato direto com o paciente é algo bastante questionável.

Casos e casos

Em uma época em que condutas condenáveis são registradas e viralizam nas redes, tem sido cada vez mais comum, após a repercussão, agressores virem a público justificar seus atos como sintomas de um transtorno mental. Foi o que aconteceu quando uma advogada atribuiu à sua bipolaridade as ofensas homofóbicas distribuídas em uma padaria de São Paulo. Ou quando o morador de um condomínio de Valinhos, no interior de São Paulo, recebeu um entregador de aplicativo com ofensas racistas.

“São casos aparentemente diferentes”, diz Tófoli.

Nestes episódios, afirma ele, é possível que as pessoas de fato tenham transtornos, mas é preciso analisar a situação em duas camadas. “A pessoa pode ter transtornos e ter valores racistas. Não há nada que a impeça de ser preconceituosa e padecer de um transtorno mental.”

Para o especialista, o fato de a pessoa estar transtornada pode fazer tansparecer o que está por dentro dela. Em relação a Bolsonaro, ele pondera, é mais complicado porque ele não está passando por um surto, um momento em que a pessoa já não sabe o que faz e é considerada inimputável pela Justiça brasileira.

“Por definição alguém com psicopatia sabe o que está fazendo. E Bolsonaro claramente sabe o que faz, independentemente do diagnóstico. Não dá pra descartar que Bolsonaro seja psicopata. A questão é: e daí? O que muda? O que muda é o impeachment ou o voto”, conclui.

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