Youtuber que se aventura no boxe degrada ou levanta a nobre arte?

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MIAMI, FLORIDA - JANUARY 30:  Jake Paul celebrates with his brother, Logan, after defeating AnEsonGib in a first round knockout during their fight at Meridian at Island Gardens on January 30, 2020 in Miami, Florida. (Photo by Michael Reaves/Getty Images)
Jake Paul e Logan Paul comemoram após Logan bater AnEsonGib em janeiro de 2020 (Michael Reaves/Getty Images)

O polêmico youtuber americano Jake Paul, 24, desferiu a combinação de jab com mão esquerda, direto com a direita, e seu compatriota, o ex-lutador do UFC Ben Askren, 36, caiu diante do público na madrugada de 17 de abril no Mercedes-Benz, Stadium, em Atlanta (EUA), em evento promovido pela Triller, empresa de Mike Lu atuante em compartilhamento de vídeos em redes sociais.

Para o ex-pugilista, técnico de boxe, professor de Filosofia e articulista do New York Times Gordon Marino, Jake “tem o nível de um amador decente. É difícil avaliar seu verdadeiro nível uma vez que só lutou com novatos sem nenhuma passagem pelo boxe.”

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O resultado surpreendeu não apenas pela vitória do novato Paul em esportes de combate profissionais, mas pela facilidade com a qual superou Askren, o qual já foi campeão de MMA e representou os EUA como wrestler nos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, China.

Outro ponto que vem ganhando destaque na mídia é o fato de Jake ter grande popularidade nas redes sociais, o que atrai grande interesse aos seus embates. Diante de Askren conseguiu sua terceira vitória, na estreia em janeiro de 2020 bateu o desafeto e também youtuber AnEsonGib, também estreante. Em novembro do ano passado foi a vez do ex-jogador da NBA Nate Robinson, também subindo ao ringue pela primeira vez. E os três embates terminaram pela via rápida.

“Se Jake cogita obter séria reputação no boxe deve mirar em um boxeador profissional” no próximo combate, avalia Marino, mas se apenas busca dinheiro e atenção “talvez aquele bilionário Fournier” seja o próximo oponente.

O professor se refere ao empreendedor britânico Joe Fournier, empresário londrino que já atuou com fitness, vida noturna e atualmente se apresenta como boxeador. O mesmo ambiciona um embate com Jake Paul em evento da Triller. Na mesma noite de Paul contra Askren, Fournier bateu o debutante Andres Robledo da Colômbia, obtendo sua nona vitória.

Jake é o irmão caçula de Logan Paul, 26, também youtuber e novato no boxe profissional, ambos são vistos com maus olhos por puristas do esporte, enquanto possuem extensa legião de seguidores.

O Doutor em Direitos Humanos pela Universidade de Deusto (Espanha) e Mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero avalia a atuação dos Paul nas redes sociais e como figuras públicas explicando que seguem que “a regra básica das redes sociais que é aparecer, não importa como.”

“Se antigamente as pessoas faziam loucuras por alguns minutos de tempo na TV, apenas levaram esse comportamento para as redes sociais, mas com a possibilidade de alcançar um público ainda maior ou, pelo menos, um nicho que possa garantir mais tempo de fama. Personalidades de redes sociais muitas vezes se comportam como atores e celebridades de televisão - suas vidas privadas não necessariamente refletem sua persona pública -, mas cada vez mais é difícil separar essas duas realidades, uma vez que influencers passam cada vez mais tempo online e criando conteúdo e engajando seguidores que exigem uma proximidade e uma ‘autenticidade’ com o ídolo”, explica Tsavkko.

O não menos controverso Logan Paul não obteve sucesso em sua estreia no boxe, perdeu em decisão dividida para seu arqui-inimigo nas redes sociais Olajide William Olatunji, youtuber mais conhecido como “KSI”, do Reino Unido. No momento, Logan se prepara visando uma exibição pugilística com Floyd Mayweather Jr., tido como um dos melhores do passado recente da modalidade.

“É o Barnum Bailey Circus do boxe”, aponta Marino, se referindo ao famoso espetáculo circense que virou filme tendo Hugh Jackman (Logan e Os Suspeitos) no papel principal. “Porém para os fãs de Paul por conta do tipo de entretenimento que oferece, é apenas ir e faturar a grana. Outro dia estive falando dos irmãos Paul com o comentarista e membro do Hall da Fama do Boxe Larry Merchant. Em dado momento, ele riu e parafraseando uma famosa frase disse que antes nascia um otário a cada minuto, com as redes sociais é agora é a todo segundo.”

O evento de abril contou com comentários de Pete Davidson, ator e comediante do tradicional programa americano Saturday Night Life (SNL), o qual provocava antes do embate: “espero que eles se beijem” e “vocês acreditam que eles vão se beijar?”.

Os eventos da Triller de boxe são realizados em parceria com o rapper Snoop Dogg sendo chamados a partir de dezembro de “Triller Fight Club”, a rodada entre Paul e Askren contou com participações musicais de The Black Keys, Doja Cat, Diplo, Justin Bieber, Major Lazor, Saweetie e o supergrupo de rap Mt. Westmore, composto por Snoop Dog, Ice Cube, Too Short e E-40.

Snoop Dogg também foi comentarista da exibição entre os icônicos Mike Tyson e Roy Jones Jr., em novembro. Tyson é parceiro da empresa com a liga Mike Tyson’s Legends Only League, voltada apenas para veteranos renomados. O reconhecido Oscar de la Hoya afirmou que retornará aos ringues em 3 de julho em evento da Triller.

O jeito dos irmãos Paul de brincar num antigo jogo de violência

Antes do enfrentamento com Ben Askren, Jake foi acusado pela estrela do TikTok Justine Paradise de abuso sexual. Em 2018, Jake divulgou um vídeo de sexo explícito no Youtube com o título “Perdi Minha Virgindade”.

Logan também teve seus momentos de infâmia. Em 2017, divulgou o vídeo de um cadáver de um suicida na floresta Aokigahara, mais comumente chamada de Mar de Árvores, conhecido ponto do Japão por conta dos suicídios ali cometidos. Provocar oponentes e outros membros de esportes de combate é comum para os Paul, mas é algo hoje também parte do próprio negócio no qual boxe e MMA são.

Mesmo com as polêmicas seguem até o momento populares. Anderson Silva, um dos principais nomes da história do MMA, pediu em entrevista à Ag. Fight que youtubers respeitem o boxe e sua história, porém não descarta a possibilidade de dividir o ringue com Jake Paul. Seu próximo compromisso será um combate de boxe diante do ex-campeão mundial Julio César Chavéz Jr., filho de Julio César Chávez, um dos maiores boxeadores da história.

A história dos Paul denota para a grande mídia e gerações anteriores mudanças na sociedade experimentadas pelas gerações millenials e Z, muitos jovens querem ser Youtubers profissionais, afinal “ser Youtuber hoje é o que ser ator de cinema era há alguns anos atrás, supostamente garante visibilidade, dinheiro e suas opiniões de repente passam a importar para milhares ou milhões de pessoas, e tudo isso sem depender, teoricamente, de ninguém além de você”, define Tsavkko.

A ascensão de tais profissionais da comunicação e sua inserção no mainstream são mais um indício de que a mídia tradicional busca se manter relevante no mundo contemporâneo. “Se antes a TV era a tela principal, hoje ela virou uma segunda tela, e executivos lutam para conseguir atrair produtores de conteúdo e influencers para alavancar sua audiência”, aponta Tsavkko, que também percebe as dificuldades enfrentadas por jornais que sofrem um processo ainda mais difícil considerando novos métodos de financiamento, mas aos poucos estão se encontrando com aplicativos como Snapchat, Tik Tok e outros.

Neste processo todo, lutadores de origem mais humilde, o caso da grande maioria dos brasileiros, podem buscar aumentar suas chances. Para Tsavkko tais ferramentas podem oferecer: “visibilidade”, levando a busca por patrocinadores e “conseguir mostrar do que se é capaz nunca foi fácil, mas com as redes sociais é possível criar uma base de seguidores e abrir portas. Não é incomum encontrar atletas e artistas com uma base imensa de seguidores, até mesmo lucrando através de patrocínios e eventos, que são virtualmente desconhecidos fora de seu nicho, o qual pode ser composto por milhares ou até milhões de pessoas.”

Além das mudanças nas dinâmicas de comunicação, há de considerar que o pugilismo não tem tanto apelo entre jovens quanto o octógono. “Creio que o MMA é mais atraente para os mais jovens. Poucos alunos meus sabem o nome de algum pugilista em atividade (e há muitos talentosos nos dias atuais), mas os ‘garotos’ sempre conseguem nomear os atletas de MMA. Para mim, o MMA é mais próximo no clima e estética de uma briga de estacionamento, mas novamente o lembro que sou de outra época”, avalia Marino, o qual aponta que a Triller danifica a imagem do pugilato ao apresentar uma versão errônea do que é necessário para se tornar “um pugilista de verdade.”

Marino se ressente ao ver que boxeadores de maior talento tiveram de fazer as preliminares do combate entre Paul e Askren. Em geral, o “main event”, a luta principal, é destinada para os melhores boxeadores no card. Por exemplo, o evento teve Regis Prograis contra Ivan Redkach, dois pugilistas de alto nível se enfrentando nas preliminares.

O acadêmico recorda das palavras de Dougie Fischer, editor da tradicional publicação Ring Magazine, “a Bíblia do Boxe”, que diminui a relevância das celebridades boxeando ao dizer: “Não creio que Paul degrade o boxe. O boxe já faz um ótimo trabalho neste sentido por conta própria”.

Marino respeitosamente discorda do colega de imprensa e acredita “ser uma coisa quando são apenas combates de exibição e outra quando essas disputas (estilo) WWE são sancionadas”, em referência ao pro-wrestling de entretenimento oferecido pela World Wrestling Entertainment, a mesma atração que lançou os hoje atores Dwayne “The Rock” Johnson, John Cena e Dave Bautista, e possui embates assumidamente coreografados

“O boxe sempre teve seus altos e baixos. Com o fechamento de academias e eventos, a pandemia acertou um golpe no fígado do pugilismo, mas o esporte sempre deu um jeito de sair da lona”, atesta Marino. “Mesmo assim não creio que voltará a ter a popularidade que obteve nos anos 1930 e 1940”, auge do pugilismo.