Jakson Follmann não credita seu favoritismo no ‘Popstar’ ao acidente: ‘Minha voz se sobrepõe ao drama’

Naiara Andrade
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“Eu nunca coloquei na cabeça que tinha que ser o melhor, superior. Nada tira o meu foco nem o meu chão”, diz ele, sobre a competição

As hashtags #motivosparasorrir, #desafios, #recomeço, #força, #superação, #felicidade, #amor e #gratidão são frequentes nas postagens de Jakson Follmann. Compartilhar otimismo com seu mais de meio milhão de seguidores nas redes sociais é marca do ex-atleta e atual embaixador da Chapecoense, que, apesar de todos os pesares, leva a vida com frescor.

 

“Sorria. Sem motivo, com motivo, sozinho ou quando alguém faz você rir. Apenas sorria. O sorriso abre portas, contagia e diverte! O dia a dia não é fácil, mas, com alegria e leveza, a gente segue em frente!”. Assim ele legendou uma foto no último dia 10, em que aparece com o microfone na mão e a felicidade estampada no rosto. Assim também o ex-goleiro de 27 anos tem surgido nas tardes de domingo da Globo. Longe do futebol, perto da canção. Desde que pisou no palco do “Popstar” e soltou o vozeirão, o gaúcho de Alecrim conquistou o favoritismo na disputa. Ele está classificado para a final, que acontece no próximo domingo e dará ao ganhador um prêmio de R$ 250 mil.

 

— Eu nunca coloquei na cabeça que tinha que ser o melhor, superior. Nada tira o meu foco nem o meu chão. Nunca fui um cantor, é tudo muito novo para mim. Meus companheiros também cantam bem, têm presença de palco. Tenho que estar muito centrado, porque tudo pode mudar — enfatiza o rapaz, que não acredita ter ganhado mais pontos na competição por conta da tragédia que sofreu: — Cada um tem a sua história de vida. A minha é um pouco diferente, mas eu nunca me vitimizei. No programa, mostro a minha paixão pela música. Acho que minha voz se sobrepõe a todo o drama que vivi.

Follmann foi um dos seis sobreviventes da queda do avião que levava 77 pessoas, entre atletas, equipe técnica e diretoria do time Chapecoense, jornalistas e convidados, da Bolívia à Colômbia, onde o clube disputaria a primeira partida da final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional, em 2016. No acidente, ele perdeu amigos e parte da perna direita, além de ter sofrido fraturas na coluna cervical. Três anos depois, voar ainda é um problema, ele admite:

— Viajo muito de avião, é uma necessidade para dar minhas palestras Brasil afora e até para participar do “Popstar”, semanalmente. Mas não posso negar que tenho medo. Quando entro na aeronave, faço a minha oração e peço que seja uma viagem segura e tranquila. Procuro sentar sempre na janela, para observar tudo lá embaixo, e viajar durante o dia. Quando o voo é à noite, sofro mais.

 

Dizendo-se um “homem de Deus”, Follmann afirma encontrar na fé e no carinho da família, dos amigos e dos fã-clubes que torcem por ele a força para seguir em frente. As feridas emocionais, confessa, ainda não cicatrizaram.

— Depois do acidente, fiquei mais sentimental, não consigo conter as lágrimas. As pessoas dizem que eu superei, mas não é verdade. Não tive tempo. Na realidade, nem tenho que dar um prazo para isso. Estou me redescobrindo e me reinventando, abraçando as oportunidades que a vida tem me oferecido. É um dia de cada vez — analisa, complementando: — O ano de 2019 foi muito positivo em vários sentidos: saúde, trabalho, vida pessoal... Passei a me exercitar com frequência, o que tem me ajudado a superar as dores e as limitações físicas. O “Popstar” está sendo um desafio lindo, muito produtivo. E, para melhorar tudo, vem aí meu primeiro filho. Joaquim deve chegar ao mundo em fevereiro, não vejo a hora de ver a carinha dele.

 

Pai e filho ainda não se reconhecem pela fisionomia, mas já têm um forte elo:

— Converso com Joaquim e canto para ele o tempo todo, na barriga da minha mulher (a mestre em Educação Física Andressa Perkovski, de 27 anos). Ele fica superagitado, chuta, é muito legal! Já percebo que ele gosta de ouvir a minha voz. Já me imagino brincando de bola, correndo atrás dele. No futuro, se meu filho não quiser ser jogador de futebol, não tem problema. O importante é ser feliz. São os momentos felizes que contam na nossa existência. Nascemos e morremos sem nada material. Eu tive a prova de que a vida é um sopro e que a gente tem que aproveitar muito enquanto pode.

 

Por todas as experiências e lições assimiladas, cada momento perto de quem ama se faz ainda mais valioso para o agora artista. O Natal, em especial, sempre foi data duplamente importante na casa dos Follmann: por seu significado religioso e por também ser o dia do aniversário do patriarca da família.

— Meu pai completa 54 anos no dia 25. Vamos estar reunidos, celebrando mais um ano de vitórias. Passei Natais difíceis, longe da minha família (o pai, Paulo; a mãe, Marisa, de 51 anos; e as irmãs Dioneia, de 34, e Djerica, de 30), por causa dos compromissos com o futebol. Agora, não abro mão de saborear com eles um bom churrasco — entrega o ex-atleta, que tem o amor pela família tatuado no antebraço direito: “Pai & Mãe — Amor Eterno”.

 

O primeiro a garantir seu lugar na final do programa da Globo, ele já tem recebido propostas para shows:

— Deixa terminar o “Popstar”, depois eu vejo o que vai acontecer. O futuro a Deus pertence. Quero sentar com a minha família e ver o que é melhor para mim. Pesam na balança o nascimento do meu filho, as minhas limitações... Vida de músico também não é fácil.

Apesar de ser declaradamente amante da música sertaneja, ele vem sendo comparado a dois ídolos do romantismo: Roberto Carlos e Julio Iglesias.

— Fiquei muito surpreso quando (o cantor) Paulo Ricardo me contou que Julio Iglesias era goleiro do juvenil do Real Madrid e, depois de um grave acidente, descobriu-se na música. E Roberto Carlos? Também amputado, simplesmente virou o Rei do Brasil. Quem sou eu! É uma responsabilidade gigantesca e um orgulho ser comparado aos dois — ameniza Follmann, que, se chorou ou sorriu, o importante é que emoções viveu.

 

A trilha sonora da minha vida

“Raridade” (Anderson Freire): “Escutei muito essa música enquanto estive na UTI”.

“Casa amarela” (Guilherme e Santiago): “Foi a primeira música que consegui cantar depois que minha voz foi voltando ao normal”.

“Tente outra vez” (Raul Seixas): “Estreei no ‘Popstar’ cantando essa. Eu me identifico muito com a letra dessa canção”.

“É preciso saber viver” (Titãs): “Também me identifico muito com essa letra“.

“Flor e o beija-flor” (Henrique e Juliano): “Minha mulher ama me ouvir cantando essa música”.