Jakub Orlinski mostra os alegres contrastes do contratenor barroco para SP e Rio

Recitais de contratenor são uma agradável contradição. Dificilmente haverá na música clássica algo mais localizado no passado, em termos de repertório e acompanhamento. Ainda assim, o que se vê e se ouve no palco tem sempre certo ar de novidade. É mais fresco e mais surpreendente ao ouvido do que, digamos, o recital de um grande tenor, ou de uma soprano no auge – quem viu as apresentações pré-pandemia de Philippe Jaroussky sabe do que estou falando.

Tome-se por exemplo o recital apresentado por Jakub Josef Orlinski, polonês de 32 anos que se apresentou em concerto especial da Cultura Artística, na Sala São Paulo. Ao lado do celebrado septeto Il Pomo d'Oro, especializado em música antiga, temos um cantor jovial, vestido num moderníssimo e nada desprezível terno em que o verde-água e vinho se alternavam por microângulos retos, que apresentou árias barrocas em italiano com uma voz ainda mais rara.

O canto do contratenor é um difícil controle do falsete masculino pelas notas habitualmente cantadas pelas contraltos e mezzo-sopranos. O som que isso produz é uma releitura daquilo que os cantores castratti faziam às custas de seus testículos na Europa barroca, mas há limitações: a emissão pouco natural do falsete pode fazer a voz rapidamente submergir no acompanhamento, principalmente nas notas mais graves. Encontrar esse equilíbrio é o que permite que a mágica aconteça.

Baseado no álbum "Facce d'Amore" (selo Erato, 2019), o programa se abre com uma ária de "La Calisto", de Cavalli (1602-76), em que rapidamente suas qualidades foram apresentadas. Veio um legato primoroso, um rio de voz atravessando as sílabas sem qualquer costura brusca, com vibrações perto do imperceptível. Era o aquecimento.

Sem interrupção, Orlinski caiu diretamente na agitada ária de "Heliogábalo" (Giovanni Boretti, 1640-72), em que o Pomo d'Oro, mais excitado, encobriu-lhe um pouco as coloraturas da voz na região grave, mas sem desmerecer a primeira rodada de aplausos.

Até que, com "Infelice Mia Costanza", ária pastoral de Giovanni Bononcini (1670-1747), a magia se instalou na Sala São Paulo. Sobre uma única estrofe lamentosa, Orlinski mostrou seu incrível controle dos volumes, com um luminoso diminuendo que, cantado à capela, transformou a enorme a Sala São Paulo numa antiga igreja por um brevíssimo momento – até porque, lembre-se, estamos no campo da ópera. Trata-se de uma verdadeira celebração dos sons que a voz humana produz, sem a necessidade das bizarras emasculações do século 17, que construíram carreiras como a do lendário Farinelli, cantor-muso ao qual boa parte das canções é dedicada. Aqui, o resultado é bom humor, energia andrógina e deleite para o ouvinte, que deverá prestar atenção ainda nos sublimes crescendos de "Dovrian quest'occhi" e na cadência divertidíssima de "Che M'ami ti Prega", do "Nerone", ambas de Luca Predieri (1688-1767) .

Regido pelo cravista (e eventual flautista) Maxim Emelyanychev, o Pomo d'Oro se mostrou um conjunto bastante fluente no estilo barroco, em que se destacaram o diálogo riquíssimo dos violinos de Zefira Valova, mais cantante, e Lucia Giraudo, além do pulso rítmico do contrabaixo de Ismael Camarero Nieto, nas peças de maior bravura. Completam o grupo Giulio d'Alessio (viola), Ludovico Minasi (violoncelo) e Dolores Costoyas (teorba).

Orlinski repete nesta terça (2) seu concerto na Sala São Paulo e depois se apresenta nesta quinta (4) no Teatro Municipal do Rio. Na sexta, pela manhã, o contratenor dá uma masterclass gratuita na Sala Mário Tavares, também no Municipal.

SERVIÇO

SÃO PAULO Quando: Dia 2 (terça-feira), às 21h. Onde: Sala São Paulo – Praça Júlio Prestes, 16. Quanto: A partir de R$ 50.

RIO DE JANEIRO Quando: Dia 4 (quinta-feira), às 20h. Onde: Theatro Municipal. Quanto: De R$ 50 a R$ 2.580 (camarotes 6 lugares).

Masterclass na Sala Mário Tavares, Municipal do RJ, sexta dia 5, às 11h (grátis)

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