James Cotton e Lonnie Brooks se foram e deixaram o blues ainda mais triste

Sei que são coisas da vida, mas ainda não deixo de me impressionar com a quantidade de artistas e músicos de primeiro quilate que estão morrendo praticamente a cada dia que passa. Hoje, infelizmente, de maneira tardia, presto aqui as minhas homenagens a dois lendários nomes do blues que se foram recentemente…

Primeiro, foi embora o genial gaitista James Cotton, vitimado no mês passado por uma pneumonia aos 81 anos, depois de ter sobrevivido a um câncer na garganta na década de 90 que o impediu de continuar cantando, mas não de tocar seu adorado instrumento.

Como bom filho das plantações de algodão às margens do rio Mississippi, com nove anos de idade o garoto já estava envolvido com o blues e sofrendo muito com a perda dos pais, a ponto do lendário gaitista Sonny Boy Williamson II tê-lo praticamente adotado como filho. Foi com ele que Cotton aprendeu a tocar gaita com uma destreza precoce que o levou a ser contratado por ninguém menos que o igualmente lendário Howlin’ Wolf. Seu estilo vigoroso fez com que os músicos passassem a chamá-lo de “Mr. Superharp”.

Cotton foi um dos primeiros a sacar que a conexão com o rock só traria benefícios ao próprio blues. Quando tratou de estabelecer uma carreira solo depois de passar mais de uma década ajudando a incendiar os shows do mitológico Muddy Waters, não se negou a abrir shows da Janis Joplin e até mesmo do Led Zeppelin, Grateful Dead, Steve Miller, Santana e tantos outros “roqueiros”.

Seu álbum mais recente, Cotton Mouth Man, lançado em 2013, trouxe convidados que jamais deixaram de louvar sua semidivindade no blues, como o lendário líder dos Allman Brothers, Gregg Allman, e os não menos notáveis Joe Bonamassa, Warren Haynes (Gov’t Mule) e Chuck Leavell, que há muitos anos é o tecladista dos Rolling Stones.

Sábado passado, foi a vez de Lonnie Brooks nos deixar, aos 83 anos. Guitarrista incendiário e um dos legítimos representantes da poderosa escola de Chicago, ele nunca deixou de soltar sua voz poderosa em canções que eram facilmente reconhecidas como uma marcar registrada, a ponto de exibir tamanha ferocidade ao tocar que Eric Clapton certa vez declarou que se sentia um “esquilo” perto do velho Lonnie.

Fascinado por Muddy Waters e John Lee Hooker desde a juventude, Brooks começou a construir sua reputação como ótimo guitarrista na segunda metade dos anos 50, quando ajudou o mestre do zydeco – um estilo musical bem dançante herdado dos escravos oriundos das colônias francesas na África – Clifton Chenier em suas turnês e emplacou um pequeno hit, “Family Rules”, com o nome artístico de “Guitar Junior”.

Só que ao descobrir o blues de Chicago e, mais precisamente, ter presenciado um show do bluesman Magic Sam, ele teve um momento de catarse e transformou sua guitarra em um lança-chamas.

Alguns de seus álbuns são “lição de casa” para quem quer se aventurar pelo gênero, como Sweet Home Chicago (1975), Bayou Lightning (1979), Hot Shot (1983) e Lone Star Shootout (1999).

 

Sugiro veementemente que você ouça todos os álbuns que ambos lançaram. Você não vai se arrepender…