James Webb: O telescópio espacial da Nasa faz tributo a militar homofóbico?

Telescópios espaciais, em sua maioria, ganham nomes de cientistas. O Telescópio Espacial Hubble, por exemplo, presta homenagem ao astrônomo americano Edwin Hubble. Já o Spitzer faz tributo ao físico teórico Lyman Spitzer Jr. O Telescópio Espacial James Webb, por sua vez, foi batizado com o nome de um militar que ocupou um cargo de alto escalão no Departamento de Estado e , mais tarde, foi diretor da Nasa, a agência espacial americana, durante seis anos, na década de 1960.

Mas não é devido à total ausência de bagagem científica no currículo de James Edwin Webb que ele vem sendo questionado como "patrono" do telescópio cujas imagens do universo recém-enviadas à Terra se tornaram um dos assuntos mais buscados do Google, esta semana.

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Desde o ano passado, uma petição on-line liderada por quatro pesquisadores, e assinada por mais de 1,7 mil pessoas, exige mudança no nome do instrumento espacial. Os organizadores dessa campanha alegam que o militar, morto em 1992, aos 85 anos, esteve diretamente envolvido com a perseguição sistemática de pessoas LGBTQ+ no serviço público americano durante os anos 1950 e 1960, quando milhares de funcionários de órgãos federais foram demitidos apenas por serem gays.

O assunto já foi bastante discutido no ano passado, quando a Nasa informou que, após investigação interna, não alteraria o nome do telescópio. Mas a divulgação das novas imagens deu novo impulso à campanha. Professora assistente de Física da Universidade de New Hampshire, nos EUA, e uma das líderes da petição, a pesquisadora Chanda Prescod-Weinstein publicou, nesta segunda-feira, um tweet afirmando que está "empolgada" com as imagens, mas "brava" com a Nasa.

"A liderança da Nasa vem insistentemente se recusando a reconhecer que as informações agora públicas sobre o legado de James Webb significam que ele não merece ter um grande observatório nomeado em sua homenagem", escreveu a cientista.

James Webb atuou como piloto do Corpo de Fuzileiros Navais na década de 1930 e chegou à patente de major durante a Segunda Guerra Mundial. Filiado ao Partido dos Democratas, ele foi subsecretário de Estado de 1949 até 1952. Deixou o cargo após a eleição do republicano Dwight Eisenhower como presidente dos Estados Unidos. Em 1961, quando John F. Kennedy chegou à Casa Branca, Webb foi chamado para dirigir a Nasa ainda na infância da hoje famosa agência espacial americana.

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Na época, Kennedy estava publicamente empenhado em fazer os EUA vencerem a "corrida espacial" contra a União Soviética. O governo do Tio Sam investiu bilhões de dólares nisso, confiando em Webb para levar os americanos a se tornarem os primeiros a pisar na Lua. A missão Apollo 11 alcançou esse objetivo histórico em julho de 1969. A liderança do militar, que ficou à frente da Nasa até 1967, recebeu, então, grande parte dos créditos pela preparação dessa bem-sucedida viagem espacial.

Assim, a princípio, não foi uma surpresa tão grande quando, em 2002, o então diretor da Nasa, Sean O'Keefe, anunciou que James Webb daria nome ao "próximo" telescópio espacial da agência. Houve decepção em meio a astrônomos porque, afinal, ele não era um cientista. E já circulavam, então, questionamentos ligando o falecido militar à perseguição de gays no passado recente americano. Mas a pressão, na época, não foi suficiente para que O'Keefe mudasse de ideia.

Entretanto, os questionamentos ganharam força no ano passado, quando quatro astrônomos proeminentes assinaram um artigo na revista "Scientific American" intitulado "O Telescópio Espacial James Webb precisa ser renomeado". Segundo o texto, publicado meses antes do lançamento do telescópio, o militar ocupou cargos de liderança no Departamento de Estado e na Nasa numa época em que o Congresso e a Casa Branca perseguiram servidores públicos por sua sexualidade. Foi uma campanha de apelo "moral" (e homofóbico) que mais tarde seria conhecida como "Lavander Scare".

Entre os anos 1950 e 1960, em tempos de Guerra Fria, o governo do Tio Sam guiava boa parte de suas políticas públicas pelo macarthismo, ideologia baseada nas teorias do senador conservador Joseph McCarthy. Do Congresso, ele conduziu uma verdadeira "caça aos comunistas" dentro de órgãos públicos do país. O próprio político associava explicitamente o comunismo à população LGBTQ+, pressionando o Executivo e levando à exoneração de milhares de funcionários de órgãos federais.

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De acordo com um artigo no site da "National Archives", a central de arquivos do governo dos EUA, em fevereiro de 1950, Mccarthy fez um discurso no Senado afirmando ter uma lista de 205 comunistas trabalhando no Departamento de Estado. Na sua sustentação, ele tratou de dois casos específicos ligados a funcionários supostamente gays. O político sugeriu que as pessoas em ambos aqueles casos poderiam ser comunistas porque, como "homossexuais", tinham o que ele chamou de "desvios mentais peculiares". Na prática, o discurso justificou o expurgo de servidores LGBTQ+.

Ainda segundo o artigo da "National Archives", uma semana depois, o diplomata John Peurifoy, então subsecretário de Estado, revelou, durante testemunho no Senado, que o Departamento de Estado havia demitido 91 funcionários gays por "riscos de segurança". Naquela época, James Webb também era subsecretário de Estado, cargo que ocupou de 1949 a 1952.

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Os líderes da petição que exige a mudança de nome do agora incensado telescópio espacial citam ao menos um caso para afirmar que a Nasa também abrigou a perseguição promovida pela "Lavender Scare" durante a festão de Webb. Em 1963, o funcionário Clifford Norton foi demitido por "conduta imoral e indecente" após ser interrogado dentro da instituição sob a "suspeita" de homossexualidade. Mais tarde, Norton ganhou um processo contra a agência por demissão ilícita.

Em setembro de 2021, o político e ex-astronauta Bill Nelson, atual diretor da Nasa, disse que a agência realizou uma investigação sobre as alegações contra Webb e decidiu manter o nome dele no telescópio. "Nós não achamos evidências que obriguem a mudança no nome do Telescópio Espacial James Webb", afirmou ele comunicado à imprensa e divulgado em redes sociais.

A Nasa não divulgou detalhes de sua investigação, mas, em março deste ano, a revista científica "Nature" publicou 400 páginas de documentos levantados durante esse trabalho da agência e obtidas por meio de um pedido baseado em leis de transparência. Em meio ao calhamaço de informação, havia um papel dizendo: “A Nasa decidira que a remoção de funcionários homossexuais seria uma política da agência. Eles tiveram a escolha, durante a gestão de Webb como diretor, de implementar ou mudar essa política". O documento estava descrito como "não destinado a divulgação".

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