Janaína Figueiredo: na Argentina, pesquisas mostram Fernández reprovado por 75% e pessimismo sem precedentes nos últimos 20 anos

A cena ocorreu esta semana, num encontro entre o presidente argentino Alberto Fernández e prefeitos da província de Buenos Aires. Alguns relatos apontam que o chefe de Estado derramou lágrimas; outros, confirmados pela Casa Rosada, informaram apenas que Fernández ficou com a voz embargada ao falar sobre o difícil momento pelo qual seu governo atravessa. Com ou sem choro, o presidente argentino não consegue esconder seu estado de angústia pela deterioração extrema da situação econômica e social da Argentina e, em consequência, do nível de aprovação de seu governo, que caiu de 70% para 21%, segundo pesquisa da Universidade de San Andrés, uma das mais renomadas do país, entre abril de 2020 e junho de 2022.

Nas últimas duas semanas, os rumores de renúncia ou tentativa de renúncia do chefe de Estado foram persistentes. Em alguns casos, partiram claramente de usinas de fakenews. Em outros, porém, fontes confiáveis relataram um clima de profunda tensão no governo. As divergências entre Fernández e sua vice, Cristina Kirchner, continuam sendo o grande obstáculo para alcançar acordos, apesar de uma tímida trégua que parece buscar, apenas, para evitar o abismo. Cristina, apontam analistas locais, não tem interesse em assumir a Presidência — mas estaria exigindo que Fernández desista da ideia de uma eventual reeleição em 2023. A vice está focada, essencialmente, em preservar seu capital político individual e o do kirchnerismo. Uma eventual renúncia de Fernández criaria um cenário extremamente delicado, e ninguém na Argentina se atreve a antecipar o que aconteceria nesse caso.

Pessimismo sem precedentes

Além de boatos, também circulam pesquisas privadas contratadas por partidos e dirigentes políticos. Uma delas, à qual O GLOBO teve acesso, afirma que “as opiniões sobre a situação do país atingiram níveis de pessimismo sem precedentes nos últimos 20 anos. A avaliação negativa da situação atual aumentou cinco pontos percentuais (em julho), chegando a 63% e superando em nove pontos o pior registro já obtido por um governo kirchnerista. Cerca de 75% das pessoas consideram que o contexto nacional piorou em relação ao ano passado, o que representa um aumento de 13% frente à última medição”.

A mesma pesquisa da San Andrés, feita a cada dois meses, mostrou que o índice de reprovação do governo atinge 75%. Apenas 21% disseram aprovar a gestão de Fernández. A imagem positiva do chefe de Estado, pela primeira vez, ficou abaixo da de sua vice: 17% e 20%, respectivamente. Para analistas como Diego Reynoso, que comanda a equipe de pesquisadores da San Andrés, o desgaste de Fernández só pode ser comparado ao do ex-presidente Fernando de la Rua (1999-2001), que renunciou em dezembro de 2001, na metade de seu mandato. De fato, Reynoso é um dos que já se referem ao chefe de Estado como “o De la Rua do peronismo”.

— É delicado falar nesses termos, mas hoje considero muito difícil que o governo se recupere — afirma o analista, lembrando que a aliança governista chegou às eleições legislativas de novembro do ano passado com 25% de aprovação e, depois da maior surra eleitoral já sofrida pelo peronismo estando no comando do governo, o declive se acentuou.

O ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019) assumiu o poder em dezembro de 2015 com 76% de aprovação, e saiu com 35%. No caso do governo anterior, a perda de apoio popular se deveu, principalmente, à falta de resultados positivos na economia. Com Macri a Argentina aumentou de forma expressiva seu endividamento, teve de recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e, mesmo assim, não exibiu altas taxas de crescimento, nem melhorou a situação social. A inflação se manteve em patamares elevados e a cotação do dólar — refúgio de todo argentino que consegue economizar — passou de 16 para 60 pesos. Esta semana, a moeda americana superou a barreira dos 300 pesos. Já a inflação dos últimos 12 meses está acima de 70% e o país poderia fechar o ano perto dos três dígitos.

— No caso de Fernández, costumo falar numa crise de reputação. O presidente vendeu o que não era, e cometeu muitos erros. A crise econômica é um fator importantíssimo, mas não o único — frisa Reynoso.

Na reunião com prefeitos peronistas, Fernández disse saber que deve se empenhar todos os dias e lutar contra “os que especulam, e tornam as coisas mais difíceis”. O recado pareceu destinado a seus próprios sócios na aliança de governo entre peronistas e kirchneristas Frente de Todos, principalmente a sua vice. Mas não apenas. Pela primeira vez, o chefe de Estado enfrenta ataques quase diários de movimentos sociais e sindicatos — tradicionalmente aliados a governos peronistas —, que exigem mais ajuda do Estado e reajustes salariais que compensem uma das taxas de inflação mais altas do mundo.

Para as próximas semanas, foram convocados protestos em Buenos Aires e outras províncias do país, para redobrar a pressão ao governo, em meio a tensões dentro da aliança peronista e com o desafio imediato de conseguir a flexibilização do acordo selado no começo do ano com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O chefe de Estado será recebido pelo presidente americano, Joe Biden, no próximo dia 26 de julho, em Washington, e sua principal meta é obter a ajuda dos EUA no âmbito do FMI.

— Para os que estão preocupados, saibam que nem as obras públicas nem a construção de casas populares serão paralisadas — declarou Fernández, pouco depois de sua nova ministra da Economia, Silvina Batakis, ter avisado ao resto do gabinete que os próximos meses serão “complicados”.

Paridade real-peso como esperança

Faltam recursos e as exigências de ajuste fiscal são, em palavras do deputado Máximo Kirchner, filho de Cristina, “dolorosas”. No governo são debatidas alternativas variadas para tirar a Argentina do atoleiro em que está metido o país. Uma delas, confirmada por um ministro, é uma espécie de paridade entre o peso e o real, caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aliado de Fernández e de Cristina, retorne ao poder. A escassez de dólares e de reservas do Banco Central chegou a níveis dramáticos, confirmaram fontes da instituição.

Pesquisa da empresa de consultoria Fara e Associados indica que a aprovação do governo atinge hoje 27%. Apesar da falta de liderança e capacidade do presidente, explica Carlos Fara, diretor da consultoria, “o contexto político não indica que a renúncia do presidente possa acontecer agora, mas isso é mais provável do que era há dois meses”.

— Houve erros de gestão em matéria de pandemia e da economia. Fernández é o presidente peronista mais fraco da História e o único que não lidera seu próprio governo — aponta Fara.

Segundo o especialista, o chefe de Estado não quer ser um novo De la Rua e essa é uma das razões pelas quais está tentando mínimos acordos que lhe permitam terminar seu mandato. A cena do ex-presidente abandonando a Casa Rosada de helicóptero em 20 de dezembro de 2001, em meio a protestos nas ruas que deixaram pelo menos 30 mortos, traumatizou a sociedade argentina. Nas últimas semanas, circularam memes de Fernández dentro de um helicóptero, repetindo uma cena trágica da História recente do país.

A preocupação atravessa as fronteiras e, segundo fontes, governos estrangeiros, entre eles o dos EUA e vários europeus, temem que uma explosão social e consequente crise institucional na Argentina cause turbulências em toda a região. Muitos estariam tentando ajudar nas sombras. A viagem de Fernández aos EUA, semana que vem, será chave para entender até que ponto a comunidade internacional está disposta a socorrer a Argentina, mais uma vez, e evitar o pior final para a crise.

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