Janaína Figueiredo: por que a opinião pública chilena passou da euforia à angústia com Boric?

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

Depois de ter sido uma das grandes surpresas eleitorais latino-americanas de 2021, o presidente do Chile, Gabriel Boric, enfrenta um cenário tão complexo que é difícil antecipar como terminará o segundo semestre no país, caso, como indica a maioria das pesquisas, o projeto de nova Constituição for rechaçado nas urnas no plebiscito do dia 4 de setembro. Os números falam por si sós: de acordo com a renomada consultoria de opinião pública Latinobarómetro, hoje 46% dos chilenos desaprovam a gestão presidencial, superando com folga os 34% que aprovam. Em março, quando assumiu, Boric tinha 50% de apoio popular.

Terceira via: a estratégia de Simone Tebet para sair do 1% nas pesquisas

Urnas: Como os brasileiros veem o papel da Justiça Eleitoral a poucos meses da eleição

A partir de 2010, os sucessivos governos chilenos se desgastaram numa velocidade muito maior do que a de seus antecessores, assegura Marta Lagos, diretora da Latinobarómetro. Mas Boric, frisa a especialista, perdeu 16 pontos percentuais de popularidade em três meses, algo inédito na História do país. Como se explica esse desmoronamento do nível de respaldo a um presidente que despertou enormes expectativas, num país que se encantou com suas promessas sobre direitos das mulheres, combate ao aquecimento global, defesa das minorias e, principalmente, com a ideia de que com Boric nascia um novo Chile, mais jovem, moderno e que, finalmente, conseguiria iniciar a construção de uma sociedade mais igual?

— Boric prometeu um governo fora da caixa, que contestaria a política tradicional e mostraria que existem maneiras diferentes de exercer o poder. Mas a realidade se impôs e vemos os militares sendo convocados para combater atos terroristas, embaixadores amigos sendo nomeados… a ilusão que muitos tinham era ingênua — afirma Marta.

A realidade que se impôs não tem a ver apenas com métodos da política tradicional que não foram abandonados. Tem a ver, também, com uma crise econômica delicada, uma taxa de inflação que asfixia a classe média e os setores mais humildes — a previsão é de 11% para 2022 —, e a constatação de que Boric, como explica Cristian Valdivieso, diretor da consultoria de opinião pública Criteria, uma das mais respeitadas do Chile, não estava preparado para governar porque nunca imaginou que seria eleito presidente. E tudo pode ficar terrivelmente mais complicado se o projeto da nova Constituição não for aprovado.

De acordo com o último relatório da Criteria, a reprovação ao governo atinge 50%. Em março passado, o índice era de 34%. Quando o ex-presidente Sebastián Piñera assumiu o poder pela segunda vez, em março de 2018, cerca de 52% dos chilenos diziam aprovar sua gestão. Quatro meses depois, o apoio a Piñera caiu para 49% — e sua desaprovação, que em março era de 30%, subiu para 41%.

— Temos de lembrar que Boric obteve 25% dos votos no primeiro turno, e foi eleito presidente com votos que eram contra José Antonio Kast (de extrema direita). Ganhou com votos emprestados e, como acontece com governos de esquerda e direita na região, enfrenta dificuldades para construir um centro político — explica Valdivieso.

Ele coincide com Marta Lagos em afirmar que Boric venceu pelo impulso de uma sociedade que queria uma mudança. Era o início da pós-pandemia, e os chilenos, concordam ambos os especialistas, precisavam de notícias positivas. Essencialmente, precisavam olhar para o futuro. Mas, rapidamente, ficou claro que se tratou de um relato que deu de cara com uma realidade dura e para a qual o governo de Boric não tinha respostas.

— Passamos da épica campanha ao dia a dia, às demandas intensas de um país que enfrenta diversas crises — amplia o diretor da Criteria.

Sem plano B

Num grave erro de cálculo — talvez partindo de certa soberba, como apontam alguns analistas —, Boric atrelou o sucesso de sua administração à aprovação de uma nova Constituição, que enterre de uma vez por todas a herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Um dos lemas do Palácio de la Moneda após a posse do presidente foi “aprovar para reformar”. O problema é que não existe plano B. E não existe, tampouco, um plano de voo estabelecido em caso de derrota do “aprovo”.

A grande maioria dos chilenos, afirmam analistas locais, continua defendendo a necessidade de que o país tenha uma nova Constituição. Porém, a rejeição ao atual processo constituinte, aos membros da Convenção Constitucional e ao texto entregue ao chefe de Estado recentemente atinge 46%, segundo a última pesquisa da Criteria. Em fevereiro passado, apenas 21% dos entrevistados disseram que votariam pela desaprovação no plebiscito.

O ex-presidentes Eduardo Frei (1994-2000) declarou recentemente que votará pela rejeição do projeto de nova Constituição e seu sucessor, Ricardo Lagos (2000-2006), ainda não revelou sua decisão, deixando aberta a possibilidade, inclusive, segundo fontes próximas do ex-presidente, de votar nulo.

— Tenho divergências insuperáveis com vários conteúdos da proposta, considero que comprometem a paz, o desenvolvimento e a prosperidade de nosso país — disse Frei, contrariando seu partido, a Democracia Cristã, que respaldou o texto.

Existe debate até mesmo dentro da coalizão de governo e a diversidade de vozes, assegura Marta. Criou-se um ambiente caótico no país, que acabou virando uma prisão para o governo de Boric. O presidente está refém de um projeto que perdeu respaldo popular, e cujo fracasso significará, inevitavelmente, também um fracasso doloroso e de altíssimo custo político para um governo que tem menos de seis meses no poder.

Quando Lagos assumiu, em março de 2000, sua popularidade atingia 63% e se manteve acima de 50% durante os seis anos de gestão. O primeiro governo de Michele Bachelet (2006-2010) foi o último que exibiu altos índices de popularidade no Chile. A partir da primeira administração de Piñera a situação mudou radicalmente, e os sucessivos chefes de Estado chilenos tiveram de governar o país com índices de aprovação, em geral, entre 20% e 30%. As taxas de desaprovação bateram recordes, de acordo com a Latinobarometro, chegando a 65% no segundo governo de Bachelet, e 63% no segundo de Piñera.

Hoje, Boric enfrenta o desafio de encontrar um rumo para seu governo, condicionado a um plebiscito que tem altas chances de perder e às voltas com índices de desaprovação inéditos para um presidente com tão pouco tempo de gestão. O mais provável, se a rejeição à nova Constituição vencer nas urnas, é que o presidente passe todo o seu mandato tentando encontrar uma saída política que atenda às demandas da maioria dos chilenos.

Porque mesmo se o projeto de nova Constituição for derrotado no plebiscito, enfatiza Valdivieso, 80% dos chilenos continuam defendendo a necessidade de que o país tenha uma nova Carta Magna. O problema é que não existe um mecanismo constitucional para ser ativado no dia seguinte de um eventual revés nas urnas. Boric e seu governo deverão negociar alternativas, caminhos e acordos que levem o Chile a virar uma página de sua História. Apenas um setor da extrema-direita prega manter vigente a Constituição de Pinochet.

— Hoje estamos presos. O governo confia numa vitória e não sabe o que fará se não vencer. A cidadania está cansada, existem outras urgências, não será fácil — aponta o diretor da Criteria.

Como fará um presidente rejeitado por mais da metade dos chilenos para conduzir um processo político sem precedentes e do qual participarão mais de 20 partidos, muitos deles com profundas divergências internas? Uma pergunta que ainda não tem resposta, num país que passou da euforia à angústia num piscar de olhos.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos