Janeiro de 2021 é um dos mais secos do século: Entenda os motivos da falta de chuva

Lucas Altino
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RIO — Mesmo se tratando de verão, os cariocas vêm sofrendo com calor acima da média neste ano. Nesta semana, as temperaturas bateram recorde — registro de máxima de 39,8º nesta quinta e de 40,2º na quarta, pelo sistema Alerta Rio — em 2021. E este mês de janeiro já pode ser considerado um dos mais secos do século. Desde 2000, apenas em 2001 e 2009 houve registro de menos menos volume de chuvas no acumulado do primeiro mês do ano. Outro dado é que a cidade chegou, nesta quinta, a 15 dias sem chuva dentro do mês, superando a média dos últimos 24 anos, de 14 dias.

Segundo dados do Alerta Rio, até esta quinta choveu 65,1 mm na cidade do Rio, e não há previsão para chuvas antes de domingo, quando o mês acaba. Em janeiro de 2001 esse acumulado foi de apenas 40,1mm, o menor da série histórica desde 2000. E 2021 só é superado mais outra vez, em 2019, que teve 54,7 mm, além de empatar com 2014.

As explicações, segundo especialistas, passam pela predominância de uma massa de ar seca na cidade, que impede a chegada de frente fria e tampouco permite as famosas "chuvas de verão", pela baixa umidade. A meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Marlene Leal, explica que a condição dessa semana, com temperaturas elevadas, justificou alerta de onda de calor.

— Essa situação vai permanecer, porque as frentes frias só estão chegando ao sul do país e o canal de umidade na Amazônia também não chega aqui. Como temos uma massa de ar seca predominando, as frentes frias e canais de umidade são bloqueadas. A temperatura só deve cair um pouco a partir da próxima terça.

Segundo ela, com exceção do Centro-Sul, por causa de um dia de precipitações na cidade de Três Rios, todas as regiões do estado do Rio tiveram volume de chuva abaixo do esperado. A especialista explica que esse tipo de situação é pouco frequente, mas não chega a ser extraordinária.

Além da falta de frente fria, a massa de ar quente impede as famosas chuvas de verão, por falta de variação na chamada pressão atmosférica.

— Quando a massa se instala, não temos umidade suficiente para evaporar e formar nuvens. Por isso nem chuva de verão estamos tendo — afirma Marlene, que cita ainda predomínio de vento de norte e nordeste, que tem característica mais seca.

Renata Libonati, professora do departamento de meteorologia da UFRJ, é especialista em ondas de calor. Em sua pesquisa, com dados desde 1980, ela diz que foi possível observar a maior frequência desse fenômeno na última década. Consequência, explica, que se associa ao aquecimento global.

A situação atual no Rio é definida como uma onda de calor, diz Renata:

— Essas ocorrências de onda de calor em geral estão associadas à presença de massa de ar quente, que realiza um bloqueio de sistema de alta pressão. Não há formação de nuvem capaz de causar chuva e ainda aumenta a radiação de sol no solo. Nessa semana a umidade relativa do ar chegou a 21%, quando a OMS diz que o índice abaixo de 30% já é prejudicial à saúde — explica a professora.

A pesquisa de seu grupo resultou num artigo científico, que conclui que nas últimas décadas as condições de seca e de calor intensificaram-se no sudeste brasileiro. O fenômeno pode causar até aumento de óbitos: durante quatro episódios de onda de calor na região metropolitana do Rio em 2010 e 2012 (totalizando 21 dias) um total de 6.405 pessoas morreram (a maior parte idosos acima de 60 anos), um valor que representa um excesso de 1.748 fatalidades em relação à mortalidade esperada para aquele mesmo período.

— A onda de calor tem impacto direto e indireto na sociedade, como exemplo a pressão muito grande no SUS. Grupos vulneráveis sofrem muito nessas ondas, já que nossa termorregulação se altera muito — afirma Renata, que destaca a relação com aumento global da temperatura. — A atmosfera está, cada vez mais, retendo gases do efeito estufa, não dá para olhar tudo isso como fenômenos individuais. Se ondas de calor ficam mais frequentes e duradouros, a resposta é que têm a ver com aquecimento global. Desde o período pré-industrial, o planeta já teve acréscimo de 1 grau na sua temperatura média.

Doutor em Ciências Atmosféricas e professor da UFRRJ, Andrews Lucena explica que, com essa massa de ar seco, no chamado "sistema de alta pressão", o a não sobe, o que impede formação de nuvens de chuva.

— Quando vemos nuvens branquinhas, são aquelas muito altas. Nuvem de chuva é nuvem baixa, que tem muita umidade, mas não estão sendo vistas. E sem essa nuvem baixa, a radiação do sol entra com menos bloqueio ainda — diz Lucena, que desmistifica o conceito do Rio como cidade úmida. — O Rio é úmido na orla, mas para o interior essa umidade é afetada pela topografia, cheia de montanhas, o que faz o ar subir e descer o tempo todo, perdendo sua umidade. Nossa média de umidade é baixa.