Janelas intactas e carros capotados não provam simulação de ataque em Bucha, na Ucrânia

Uma fotografia de veículos capotados em frente a um prédio foi compartilhada centenas de vezes nas redes sociais desde 2 de maio de 2022 com legendas que questionam como as janelas do edifício poderiam estar intactas após um ataque com um “míssil russo”. O registro foi feito em Bucha, na Ucrânia e não mostra, no entanto, que houve manipulação para exagerar ou fingir a devastação causada pela guerra russo-ucraniana. Houve vários ataques em Bucha e correspondentes da AFP enviados ao local documentaram os danos causados.

“Enquanto isso na Ucrânia coisas inexplicáveis acontecem, como um míssil pode destruir a rua, destruir carros, e os vidros das janelas dos prédios permanecerem intactos?”, escreveu um usuário no Twitter (1, 2).

“Não sei quem bombardeou tudo aqui, jogando os veículos pelo ar. O que eu quero saber é, quem é o fabricante das janelas de plástico”, escreveu outro usuário. O conteúdo também foi compartilhado no Facebook (1, 2).

Alegação semelhante circula em alemão, espanhol, francês, grego, inglês e polonês.

Captura de tela feita em 10 de maio de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

Uma busca reversa da imagem levou ao registro original, feito por Rodrigo Abd para a agência de notícias norte-americana Associated Press (AP), que publicou um vídeo gravado no mesmo local.

A legenda da foto diz: "Um soldado ucraniano passa com crianças por veículos destruídos pela guerra contra a Rússia, em Bucha, nos arredores de Kiev, na Ucrânia, na segunda-feira, 4 de abril de 2022". De acordo com este artigo, "autoridades locais disseram à Associated Press que pelo menos 16 crianças estavam entre as centenas de pessoas mortas em Bucha".

Captura de tela da página da Associated Press, feita em 10 de maio de 2022, com a imagem de Rodrigo Abd tirada em Bucha em abril de 2022 ( . / )

A cidade de Bucha, possui cerca de 37 mil habitantes, fica perto de Kiev, na Ucrânia, e foi ocupada por tropas russas em 27 de fevereiro de 2022, que se retiraram um mês depois. Em 2 de abril chegaram os primeiros jornalistas para a cobertura do conflito, incluindo uma equipe da AFP. A imprensa noticiou os danos na localidade e a descoberta de 20 corpos com trajes civis em uma rua de Bucha.

O diretor do escritório da AFP em Haia, Danny Kemp, foi um dos jornalistas enviados à Bucha. "Quando entramos em Bucha, vimos danos consistentes com bombardeios, foguetes e talvez tanques e balas. Vimos vários veículos capotados" na cidade ucraniana, como os da imagem viral. Kemp esclareceu que não viu a rua onde a fotografia foi tirada. Mas "posso descrever situações semelhantes que os jornalistas da AFP testemunharam", disse ele.

A Ucrânia acusou o exército russo de crimes de guerra contra civis em Bucha, afirmando ter encontrado 400 corpos em valas comuns, enterrados em jardins ou no meio da rua da cidade ucraniana. A Organização das Nações Unidas (ONU) documentou a morte de pelo menos 50 civis em Bucha. A Rússia negou ser responsável pelo que aconteceu em Bucha e acusou a Ucrânia de colocar os corpos depois que suas tropas se retiraram, mas imagens de satélite mostraram que os corpos estavam nas ruas há semanas.

A equipe de checagem da AFP verificou outra alegação sobre os corpos encontrados nas ruas de Bucha.

No caso da foto viral com os veículos capotados, os usuários ironizam a resistência das janelas, que parecem intactas após a explosão que, segundo eles, teria derrubado os carros.

A AFP analisou imagens de outras perspectivas, questionou testemunhas e pesquisou outras mídias para obter informações sobre o que aconteceu no local da fotografia.

O edifício foi tomado por soldados russos

A equipe de verificação da AFP localizou o edifício da imagem depois de procurar blocos em forma de L, como o da foto, focando a investigação em áreas que já tinham sido geolocalizadas em Bucha para verificações anteriores. O edifício exibido na imagem fica em uma praça cercada pelas ruas Tsentralna, Sadova, Vodoprovidna e Yablunska.

Em um grupo do Facebook de moradores de Bucha, um usuário publicou a mesma imagem e perguntou aos demais integrantes sobre a veracidade das afirmações irônicas, ao que outras pessoas responderam dando um endereço que coincide com a localização encontrada pela AFP.

Em vídeo publicado pela agência Reuters e na galeria do site Getty Images podem ser vistas outras imagens (1, 2) da mesma localização em diferentes dias.

Capturas de tela de uma publicação no Twitter (à esquerda) e Google StreetView, tiradas em 11 de maio de 2022 ( . / )

No mesmo grupo do Facebook, um usuário respondeu, sobre a foto viral: "Os carros foram tombados por equipamentos pesados, não por bombas", e apontou para a lateral do carro laranja, danificado pelo que, segundo ele afirmou, seria um veículo blindado ou similar.

O bloco de apartamentos está localizado perto da rua onde, em 2 de abril de 2022, jornalistas da AFP viram dezenas de corpos com ferimentos de bala.

Para encontrar mais testemunhas e entender o que poderia ter acontecido antes do registro fotográfico de Rodrigo Abd, a AFP entrou em contato com uma empresa médica localizada no prédio da imagem. Sua gerente, Olena Trusz, respondeu que o quarto andar "foi ocupado por soldados russos" por um mês, assim como muitos apartamentos. Trusz deixou Bucha em 26 de fevereiro e retornou no final de abril.

“A maioria dos apartamentos está completamente destruída. Tenho sorte porque o meu não está tão ruim. Os soldados dormiram aqui, beberam todo o álcool e usaram as minhas coisas”, disse. Questionada sobre se havia sinais de explosões no bairro, como dizem os usuários em postagens virais, Trusz respondeu: “Não há sinais de explosões ao redor do prédio. Eu não os vi quando os visitei .”

A AFP entrou em contato com o autor da fotografia, Rodrigo Abd, que também foi informado por moradores do prédio que soldados russos haviam se hospedado no interior. Ele acrescentou que as marcas da passagem de um tanque podem ser vistas no chão. "O prédio era um dos quartéis-generais do exército russo em Bucha", disse ele.

De acordo com o que Abd e a moradora do imóvel contactada pela AFP disseram, um artigo da agência Reuters de 7 de abril citou uma dúzia de moradores do prédio que descreveram assassinatos e intimidações por soldados russos, que ocuparam vários andares do edifício, segundo eles. O artigo não menciona nenhum bombardeio da área.

Uma das testemunhas citadas pela Reuters, Oleksii Tarasevich, cujo depoimento também foi publicado na mídia ucraniana , falou com a equipe de verificação grega do site Ellinika Hoaxes sobre os carros capotados na foto viral: “Os carros no quintal de nossa casa foram capotados por soldados russos. Fizeram assim para esconder seu equipamento militar. Ao construir esses 'abrigos', os soldados russos podiam manter os equipamentos próximos aos prédios e cobri-los com carros nas laterais. Também cobriram os equipamentos com tapetes e mantas que retiraram dos apartamentos da foto, para evitar que fossem vistos por drones ou satélites” .

"Soldados e moradores ucranianos nos disseram que as tropas russas derrubaram os carros para usá-los como barricadas para se refugiar durante os combates", disse Danny Kemp, que também viu "vários carros em Bucha que foram esmagados" e que, segundo aos habitantes da área “foram esmagados por tanques” .

Os veículos capotados também podem ser vistos em imagens feitas por drones que sobrevoaram Bucha após 28 de março de 2022, quando a cidade ainda estava sob ocupação russa. Embora a resolução das imagens seja muito baixa para tirar conclusões definitivas, o registro parece mostrar os mesmos carros que os da imagem viral. A filmagem do drone foi verificada pelo portal independente Meduza, escrito em russo e inglês e sediado na Letônia.

Captura de tela da gravação de um drone por uma mídia independente (esquerda) e a foto viral, da AP (direita) ( . / )

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