Janja deve atuar pelos direitos das mulheres no governo

Semanas antes de Luiz Inácio Lula da Silva deixar a prisão em Curitiba, em novembro de 2019, a socióloga Rosângela Silva, 56 anos, já fazia planos para quando o petista recuperasse a liberdade. Na vigília montada ao lado da Superintendência da Polícia Federal, Janja, como é conhecida, brincava com as amigas militantes que a festa de casamento com o agora presidente eleito teria que acontecer no “Itaquerão”, o estádio do Corinthians, time do coração de Lula, em São Paulo.

A ideia de uma celebração grandiosa, em que ela e o marido seriam as principais estrelas, resume o gosto da futura primeira-dama do país pelo holofote. A socióloga será uma primeira-dama que detesta este título. Feminista, costuma dizer que rejeita a denominação dada à mulher do presidente da República por entender que o termo “dama” remete a “recatada e do lar”, e não a uma “mulher de luta”, como ela se define. Em um ato eleitoral no Rio, ela adiantou como quer ser chamada: primeira-companheira.

Durante a campanha, Janja deu outros sinais de que não aceita papel de coadjuvante ao assumir, por iniciativa própria, tarefas relevantes: participou das definições de estratégias com o núcleo duro petista, fez escolhas de agenda para Lula e tomou a frente de ações nas redes sociais. Ganhou até mesmo uma sala reservada no escritório político do Pacaembu, na Zona Oeste da capital paulista, e uma assessora para cuidar das suas atividades.

Durante a campanha, Janja deu outros sinais de que não aceita papel de coadjuvante ao assumir, por iniciativa própria, tarefas relevantes: participou das definições de estratégias com o núcleo duro petista, fez escolhas de agenda para Lula e tomou a frente de ações nas redes sociais. Ganhou até mesmo uma sala reservada no escritório político do Pacaembu, na Zona Oeste da capital paulista, e uma assessora para cuidar das suas atividades.

“Ela não é uma boneca”

Paranaense de União da Vitória, na divisa com Santa Catarina, Janja tem perfil oposto ao de Marisa Letícia, ex-mulher de Lula que foi primeira-dama entre 2003 e 2010 e morreu em 2017. Embora tenha participado da fundação do PT, na década de 1980, e acompanhado o marido durante toda trajetória política e sindical, Marisa tinha perfil reservado, com dedicação mais voltada à família.

Lula já adiantou que, diferentemente de outras primeiras-damas, Janja não vai assumir cargo na área da assistência social. Filiada ao PT desde os 17 anos, a socióloga deverá atuar em áreas que envolvam direitos das mulheres, segurança alimentar e proteção de animais. Independentemente da função, petistas são enfáticos ao afirmar que ela não topará ser figurativa.

— Ela não chegou agora como militante, não é uma boneca — afirmou a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ).

Questionado na campanha sobre o papel da primeira-dama no governo, Lula deu sinais de que ela vai escolher.

— Eu não perguntei para ela. Ela é uma jovem senhora que tem pensamento próprio, cabeça boa, às vezes melhor do que a minha. Ela terá a liberdade de pensar o que quer fazer para me ajudar — disse.

Ao longo da corrida eleitoral, a socióloga tentou influenciar o marido a incluir pautas feministas em seus discursos. Embora seja identificado como um político progressista, Lula tem histórico de declarações polêmicas, como quando usou o termo “grelo duro” ao se referir a mulheres do PT. Os conselhos de Janja, porém, não foram suficientes para evitar nova gafe. Durante comício em Belém no início de setembro, o ex-presidente disse que o homem deve “ir para a cozinha ajudar no serviço da mulher”, associando o trabalho doméstico a uma função feminina. Apesar dos tropeços do presidente eleito, Janja admitiu a amigas ter visto evolução. Se antes ele resistia a ouvir, agora, ao menos, tenta entender o motivo das críticas por falas machistas.

Desconforto no PT

Lu Alckmin, mulher do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), de quem Janja se aproximou durante a campanha, destaca outro aspecto da personalidade da nova primeira-dama:

— Os encontros com a Janja são sempre para cima, alegres. Sempre me recebeu muito bem.

O protagonismo de Janja na campanha de Lula, contudo, gerou desconforto entre petistas. Em agosto, ela rebateu uma postagem de Michelle Bolsonaro, mulher do presidente Jair Bolsonaro, que tentava associar o casal a religiões de matriz africana — os dois são católicos. A reação, não costurada com a campanha, incomodou integrantes da equipe por tocar em um tema delicado, que poderia tirar votos do candidato no momento em que ele tentava atrair eleitores evangélicos.

Ao longo do segundo turno, o descontentamento com Janja cresceu. A sua defesa enfática do uso de artistas na campanha e a resistência à ideia de que o marido fizesse uma carta aos evangélicos foram pontos de conflito interno.

A relação de Lula com Janja, embora tenha começado no Natal de 2017, segundo amigas da nova primeira-dama, tornou-se pública apenas em maio de 2019. E teve um porta-voz inusitado: após visitar o petista na carceragem da PF em Curitiba, o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, dos governos José Sarney e Fernando Henrique, publicou numa rede social que Lula, de quem é amigo, estava “apaixonado” e iria “se casar”. Logo depois, o nome de Janja foi confirmado pela imprensa.

Desde então, a socióloga foi ganhando projeção e amigos famosos, como Daniela Mercury, Gilberto Gil e Maria Rita, presentes em sua festa de casamento, em maio. Embora não tenha sido num estádio, como brincava, a cerimônia teve ares de evento de campanha ao reunir 200 convidados numa casa de festas de São Paulo.