Japão endurece discurso contra incursões chinesas em Taiwan

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***ARQUIVO***BRASILIA, DF, BRASIL  02-05-2013 -  O ministro da Fazenda do Japao, Toshimitsu Motegi no Palacio do Planalto. (Foto: Sergio Lima/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASILIA, DF, BRASIL 02-05-2013 - O ministro da Fazenda do Japao, Toshimitsu Motegi no Palacio do Planalto. (Foto: Sergio Lima/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Diante de uma onda recorde de incursões militares da China contra as defesas aéreas de Taiwan, o novo governo do Japão endureceu o discurso e disse que está se preparando para "vários cenários" envolvendo a ilha que Pequim considera sua.

Questionado sobre as ações chinesas, o ministro das Relações Exteriores, Toshimitsu Motegi, deu um passo além da retórica usual de seu país.

"Em vez de simplesmente monitorar a situação, nós esperamos pesar os diversos cenários possíveis para considerar quais opções nós temos, assim como as preparações que devemos fazer", afirmou

Motegi também reafirmou o comprometimento com os laços entre o país e os Estados Unidos, o rival estratégico da China na Guerra Fria 2.0.

A fala ocorreu nesta terça (5), um dia depois de o novo premiê japonês, Fumio Kishida, anunciar o seu gabinete e a realização de eleições gerais no dia 31 -algo inusual nesta velocidade na política do país, que visa legitimar seu governo.

Motegi era egresso do governo anterior, de Yoshihide Suga, assim como o ministro da Defesa, Kishi Nobuo. Isso sinaliza continuidade nas políticas mais duras em relação à China, ainda que 13 dos 20 titulares de pastas tenham sido trocados.

Kishida era chamado pela mídia estatal chinesa de melhor candidato possível a substituir Suga, por seu passado moderado dentro do Partido Liberal Democrático, majoritário no Japão. Mas tudo indica que as falas mais assertivas durante a campanha não eram só para o público interno.

"A manutenção de Nobuo, conhecido por seus laços com Taiwan, pressagia uma linha dura japonesa em suas preocupações de segurança com a China", escreveu Robert Ward, analista-chefe de Japão no Instituto Internacional de Assuntos Estratégicos (Londres).

A campanha chinesa chamou atenção mundial. Da sexta (1º) até segunda (4), foram 149 aviões ao todo enviados para a Zona de Identificação de Defesa Aérea de Taiwan, o que obriga a decolagem de caças para interceptação e alta tensão nas baterias de mísseis.

O número é 27% maior do que a totalidade do mês de setembro, e sinaliza uma pressão múltipla de Pequim sobre o território. Primeiro, uma questão simbólica: sexta foi o Dia Nacional chinês, e o mesmo ocorrerá no dia 10 em Taiwan, então a ditadura quer enviar um recado contra arroubos independentistas.

Segundo, a crescente movimentação americana no Indo-Pacífico. Nas últimas semanas, Washington anunciou um pacto militar que deverá dar submarinos nucleares à Austrália e reuniu pela primeira vez os chefes de Estado do grupo anti-China Quad (EUA, Japão, Austrália e Índia).

No fim de semana, dois porta-aviões americanos se uniram ao novo navio do tipo britânico num exercício com fragatas japonesas entre Taiwan e Okinawa, o que também pode ter sido um gatilho para a demonstração de força chinesa e aumentao o risco de conflitos acidentais.

Na semana que vem, os signatários do novo pacto militar (EUA, Reino Unido e Austrália) farão uma rodada de manobras no contestado mar do Sul da China, que Pequim considera 85% seu.

Só na segunda, foram 52 caças e bombardeiros enviados para o sudoeste taiwanês, a maior leva da história -à noite, mais 4 aviões ainda rondaram a ilha.

Analistas ponderam se Pequim teria alguma vantagem em usar a força para retomar Taiwan, governada por opositores derrotados pelos comunistas em 1949. Uma invasão poderia falhar, ser muito custosa ou, pior, atrair os EUA e aliados como o Japão para uma guerra.

Por outro lado, do ponto de vista de sinalização, a escalada militar é óbvia desde o ano passado. Os chineses treinam constantemente para a tomada de ilhas menores pertencentes a Taiwan e opções de bloqueio ao território principal. Invasão, contudo, é uma proposição bastante difícil neste momento.

Assim, a confirmação de que a militarização da política externa japonesa, algo que ocorreu nos governos de Shinzo Abe e Taro Aso, é algo que veio para ficar parece clara. Há impactos domésticos importantes, em um país com forte história de pacifismo no pós-Guerra.

Os EUA já haviam reforçado seu apoio a Taiwan no domingo e na segunda, e o governo da ilha afirmou estar em "alerta máximo" contra novas incursões. Nesta terça (5) não houve nenhuma.

A fala de Motegi vai de encontro à política de Joe Biden, que redobrou a aposta contra os chineses iniciada em 2017 pelo seu antecessor, Donald Trump. Mesmo a criticada retiradas americana do Afeganistão passa por isso: liberou recursos para investir na contenção do entorno estratégico chinês.

O presidente americano já havia acenado a Kishida, dizendo que seguia comprometido na manutenção das ilhas Senkaku como japonesas -elas são reivindicadas pelos chineses.

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