Japão entra em recessão e caminha para pior contração da economia do pós-guerra

O Globo, com agências internacionais

TÓQUIO - O Japão entrou em recessão pela primeira vez desde 2015, pois sua economia já enfraquecida foi ainda mais prejudicada pelo impacto do coronavírus nos negócios nacionais e estrangeiros. Analistas alertam para um cenário ainda pior no segundo trimestre já que o consumo caiu depois de o governo ter pedido aos cidadãos, em abril, que permanecessem em casa.

A terceira maior economia do mundo contraiu 3,4% em termos anualizados no primeiro trimestre, segundo os dados preliminares do Produto Interno Bruto (PIB) divulgados nesta segunda-feira pelo governo japonês.

O resultado faz com que o Japão seja a maior economia a entrar oficialmente em recessão — geralmente definida como dois trimestres consecutivos de crescimento negativo — em tempos de pandemia do coronavírus. No quarto trimestre de 2019, a economia japonesa já havia sofrido uma queda de 7,3%, com trimestres consecutivos de contração atendendo à definição de recessão técnica.

As duas maiores economias do planeta, Estados Unidos e China, já espelham em seus indicadores oficiais o impacto da pandemia: o PIB americano caiu a uma taxa anualizada de 4,8% no primeiro trimestre, pior resultado desde o quarto trimestre de 2008, quando o país foi o epicentro da crise financeira global.

A China, por sua vez, divulgou um tombo de 6,8% em sua economia nos três primeiros meses de 2020, primeiro resultado negativo desde 1992.

A pandemia do coronavírus já vem causando estragos também na economia europeia. Os três primeiros países do continente a divulgarem o desempenho da atividade econômica do primeiro trimestre registraram tombos históricos.

Na França, o PIB encolheu 5,8% no primeiro trimestre, maior queda desde 1949, quando começaram os registros do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Com o resultado, o país mergulha na chamada recessão técnica, já que é o segundo trimestre seguido de recuo na atividade econômica.

A economia da Espanha, por sua vez, teve contração de 5,2%, a maior desde a Guerra Civil espanhola (1936-1939). Ou seja, é o maior recuo em quase um século. Na Itália, a retração do PIB foi de 4,7%, a maior desde 1995, quando começou a série histórica.

Analistas acreditam que outras grandes economias do mundo devem seguir o mesmo caminho, enquanto os esforços para conter o surto se espalham pelo mundo. As experiências da China, onde o surto surgiu pela primeira vez em dezembro, sugerem que a recuperação será longa e difícil.

Cenário pior à frente

Para o Japão, a recuperação não será nada fácil. A estimativa dos analistas é que a economia do Japão ai encolher 22% em termos anualizados no segundo trimestre, o que seria um recorde. No entanto, evitam estimar o quanto a economia japonesa irá contrair no ano.

— É quase certo que a economia sofreu um declínio ainda mais profundo no atual trimestre (de abril a junho) — disse Yuichi Kodama, econmista-chefe do Instituto de Pesquisa Meiji Yasuda.

De acordo com Izumi Devalier, economista-chefe para o Japão no Bank of America Merrill Lynch, "com o coronavírus, a economia japonesa entrou em choque em uma posição muito fraca", mas "a coisa realmente grande e feia vai acontecer na edição de abril e junho".

— Serão três trimestres de crescimento muito negativo. Não é uma imagem muito encorajadora — acrescentou Devalier.