Jaqueta corta-vento, casaco utilitário e paletó fazem parte do figurino do PC Chinês

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Xi Jinping tem um guarda-roupas variado. Ao visitar a TV estatal em Pequim, o líder chinês apareceu com uma jaqueta corta-vento azul marinho, mesmo figurino que usou ao encontrar fazendeiros no interior do país. Já num passeio recente com a cúpula do Partido Comunista em uma exposição sobre os 100 anos da sigla, o visual era um pouco mais sóbrio —camisa social branca, calça de alfaiataria e sapatos pretos.

Sua formalidade aumenta em eventos de Estado. Na grande comemoração do centenário do partido, na quinta (1º), vestiu um elegante casaco cinza, uma versão de gala da vestimenta mais popular entre os chineses na segunda metade do século 20, a túnica Mao —de Mao Tse-tung—, peça de corte reto e aspecto austero que virou símbolo do comunismo ao ser popularizado pelo líder da Revolução Cultural.

Mas a versatilidade dos figurinos de Xi, cujo guarda-roupas serve de inspiração para outros oficiais do partido, mostra mais do que o corte preciso de alfaiates especializados em prestar serviços a autoridades.

Segundo especialistas, ela tem a ver com uma dupla imagem passada pela cúpula da sigla no século 21: por um lado, de continuidade do legado comunista, e, por outro, de uma China conectada com o agora, "não monolítica", nas palavras do ex-diplomata Fausto de Godoy, que serviu no país entre 1994 e 1997.

“Xi é filho do homem que abriu a China para o mundo [Xi Zhongxun]. A cabeça dele é moderna. Ele é formado em engenharia e ciências políticas e é casado com uma das mais importantes cantoras da China [Peng Liyuan]", diz Fausto, coordenador do Núcleo de Estudos Asiáticos da ESPM de São Paulo. "O partido quer ter uma cara mais moderna. Não é mais um bando de gente com roupinha maoísta.”

Segundo ele, os códigos comportamentais na sigla são hierárquicos, de modo que a forma de se vestir do líder acaba influenciando os demais membros, uma espécie de “ditadura do meio sobre o indivíduo”. Na plenária do partido em outubro de 2020, por exemplo, a grande maioria apareceu de terno e gravata, assim como Xi e os oficiais da cúpula a seu lado, de acordo com vídeos do encontro.

A predominância de cores mais neutras no vestuário oficial, com preto, cinza e azul marinho em destaque, são resquícios do maoísmo, aponta o ex-diplomata. Quando Mao ascendeu ao poder, em 1949, ele passou a aparecer em público com um casaco de corte reto em cinza ou cáqui, levemente folgado no corpo e de ar utilitário. A peça remete ao visual de Sun Yat-sen (1866-1925), considerado o pai da China moderna.

Os quatro grandes bolsos representam decoro, justiça, honestidade e honra, enquanto os três botões em cada manga fazem alusão ao nacionalismo, ao direito e ao sustento, princípios do povo chinês sob Sun, segundo um vídeo do alfaiate Gao Liming para a rede de TV CGTN. De apresentação sóbria e desprovida de ornamentos, a túnica empresta um ar de equilíbrio e retidão a quem a veste.

Alexandre Uehara, coordenador do grupo de estudos sobre Ásia na USP, afirma que o casaco representava a ruptura política com a dinastia Qing do século 19, que prezava figurinos mais coloridos e cheios de adornos. Depois de adotado por Mao, passou a ser usado tanto por militares quanto cidadãos comuns nas décadas seguintes, sem muita diferença no corte entre homens e mulheres. Assim, a população mostrava lealdade aos ideais do partido e passava para o exterior a imagem de uma China unificada.

Atento ao simbolismo, o atual líder do partido passou a vestir a peça em eventos mais formais. “Quando Xi veste essa roupa nos dias de hoje, ele quer demonstrar a distinção entre o mundo ocidental e a China, que ele propôs até 2050 ser a potência mundial", aponta Uehara.

A túnica Mao voltou à cena depois de um período de ostracismo, entre as décadas de 1980 e 1990, quando foi preterida pela cúpula do partido e substituída pelo traje clássico das autoridades ocidentais —terno e gravata—, num momento de abertura econômica do país e de derrocada do modelo socialista da União Soviética. O Ocidente estava na moda, e o paletó era um indicativo da vontade de pertencer a este grupo, levando uma imagem até então inédita dos oficiais chineses para o mundo.

Outra peça muito popular no partido é a jaqueta com zíper, “o equivalente à camisa sem gravata, formal, mas não muito”, afirma Louise Edwards, professora de história chinesa na Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney (Austrália), que estudou o simbolismo do vestuário na China. Essa vestimenta, o famoso corta-ventos azul marinho de Xi, “passa um sentimento de proximidade com as pessoas comuns, ao mesmo tempo que mantém distância política e da moda da era Mao”.

De tão onipresente, a jaqueta virou reportagem na Xinhua, a agência estatal de notícias da China. “Não há necessidade de ser passada a ferro, é arrumada e resistente a manchas”, dizia o texto, acrescentando que, como a vestimenta representa “a aura do sr. Efiência”, virou o traje favorito do funcionalismo chinês.

A praticidade ao se vestir é seguida pelas mulheres, que usam ternos feitos sob medida combinados com saia ou calças. Mas um pouco mais de criatividade fashion é permitida, como no caso da ex-vice-premiê Wu Yi, que vestia peças confeccionadas em tecidos com padronagens chinesas.

“Havia uma grande vergonha em como as mulheres chinesas pareciam desalinhadas e singelas em comparação com as primeiras-damas ou oficiais internacionais nas décadas de 1980 e 1990", afirma Edwards. "Enquanto os homens melhoraram os cortes de seus ternos, houve um esforço para fazer com que as mulheres se parecessem mais glamorosas e decorativas internacionalmente.”

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