Mutilação, canibalismo e necrofilia: morte de Jeffrey Dahmer, o "Canibal de Milwaukee", faz 25 anos

Jeffrey L. Dahmer é o jovem solitário que se transformou em um dos serial killers mais famosos da história foi assassinado na prisão (AP Photo/Milwaukee Journal/Pool/Alan Y. Scott)

Passava das 8 da manhã do dia 28 de novembro de 1994 no Instituto Correcional Colúmbia, em Portage, no Wiscosin. Jeffrey Dahmer, 34 anos e condenado a quase um milênio de prisão por 15 assassinatos, deixara sua cela minutos antes. Nunca mais voltaria a ela. Atacado de surpresa por outro detento, Christopher Scarver foi brutalmente espancado com uma barra de metal de 51 cm de comprimento e morreu a caminho do hospital.

Dahmer foi condenado e morreu enquanto cumpria sua pena (AP Photo/Tom Lynn/Pool)

No chuveiro da academia da prisão chegou ao fim a passagem de Jeffrey Dahmer no planeta. Macabra ironia: o serial killer mais famoso do final do século XX foi assassinado por outro psicopata, negro como a maioria das vítimas de Dahmer. o detento acreditava ser o Jesus Cristo reencarnado com a missão de matar o “Canibal de Milwaukee”.

Seis meses antes de morrer, Jeffrey Dahmer havia se convertido ao cristianismo. Dezesseis anos antes, cometera seu primeiro assassinato.

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O “esquisitão” do colégio

Nascido em 21 de maio de 1960 em Milwaukee, no mesmo estado de Wiscosin no qual morreria 34 anos depois, Jeffrey Dahmer era o mais velho dos dois filhos da datilógrafa Joyce Annette e do químico Lionel Herbert Dahmer.

A profissão do pai foi um “atalho” para o adolescente Jeffrey Dahmer - já vivendo em Bath, Ohio, desde 1968 - exercitar o primeiro de seus hobbies macabros: dissolver em ácido animais que encontrava atropelados na estrada próxima à sua casa, para dissecá-los.

Aos 14 anos, Jeffrey Dahmer entrou para o ensino médio na Rivere High School. De acordo com a graphic novel ‘Meu Amigo Dahmer’, a vida na Rivere teve um forte impacto psicológico em Dahmer. A quantidade de alunos infinitamente maior do que as escolas de ensino fundamental acentuou a solidão de Jeffrey, que nunca teve um amigo de verdade, ainda que praticasse tênis e fizesse parte da banda do colégio. Derf Backderf, autor da HQ, foi um dos poucos a se aproximar do futuro assassino nos tempos de escola.

O esboço de amizade não duraria muito tempo. Assustado com o comportamento e os hábitos do “esquisitão” Dahmer - que incluíam bebedeiras em excesso, imitações de vítimas de derrame e simulações de convulsões - Derf e sua turma de amigos logo se afastariam.

Dahmer era homossexual (Curt Borgwardt/Sygma/Sygma via Getty Images)

Já na juventude, conforme confessaria depois de preso, sentiu os primeiros impulsos de sua homossexualidade combinada à atração por sadismo e mutilações. Um coquetel de sentimentos que não demoraria a explodir.

Fim do ensino médio, separação dos pais, e o primeiro assassinato

No último ano de colégio, o consumo excessivo de álcool e maconha de Dahmer já era de conhecimento de quase toda a Rivere High School. Curiosamente, todos os professores ouvidos mais tarde afirmaram nunca terem notado algo de estranho no futuro serial killer.

O turbilhão emocional pelo qual Dahmer passava em 1978 ganhou ainda mais força com a saída de seu pai de casa e a mudança de sua mãe para Wiscosin com seu irmão - Joyce não cogitou levar Dahmer junto -, que deixaram Jeff sozinho em sua casa em Ohio após o final do ano letivo. 

Joyce Annette Dahmer, mãe de Jeff, teve um vasto histórico de problemas mentais, com temporadas no hospício e chegando a usar até 20 medicamentos por vez. O excesso químico lhe causava surtos epilépticos. “Inspiração” para as performances de Dahmer na escola.

A separação de seus pais também impactou a vida de Dahmer (Photo by Steve Kagan/The LIFE Images Collection via Getty Images/Getty Images)

Quando seu pai voltou à casa com sua nova esposa, Jeffrey Dahmer tinha duas escolhas: arrumar um emprego ou entrar para o exército. Dahmer escolheu se alistar e cerca de um mês e meio antes de ir para o quartel, assassinou Stevie Hicks. Dahmer e o rapaz de 19 anos tinham combinado de ir ao show de Michael Stanley, um cantor de rock muito popular em Ohio na época.

Pouco antes de saírem, ambos se desentenderam e Dahmer espancou Stevie até fazê-lo desmaiar. Então o estrangulou até a morte, ejaculou no cadáver, dissecou-o e enterrou os restos no quintal de casa. Dias depois, desenterrou o corpo, dissolveu o que restava de carne com ácido e jogou em um vaso sanitário. Com uma marreta, esmigalhou os ossos e espalhou pela floresta. A morte de Stevie Hicks só seria confirmada em 1991, quando Dahmer foi preso e confessou o crime.

Exército, volta a Milwaukee e uma coleção de cadáveres

Dahmer entrou para Exército dos EUA em janeiro de 1979. A previsão era de ficar seis anos, mas foi dispensado “com honras” em março de 1981. Em sua vida de caserna, incluindo um período na Alemanha, Dahmer abusou de substâncias químicas e abusou sexualmente de pelo menos dois colegas. No entanto, só voltaria a matar em 1987.

Como não queria voltar para a casa do pai no frio de Ohio, Dahmer foi para a Flórida após a dispensa, onde pulou de emprego em emprego durante alguns meses até ser despejado da pensão onde morava por falta de pagamento. Voltou para a casa do pai mas acabou não durando muito tempo por lá também.

Em 1982, foi morar com a avó em West Ellis, no Wiscosin. Ficou por lá durante seis anos, período em que foi preso duas vezes, em 1982 e 1986, por se masturbar em público. Na segunda vez, foi condenado a um ano de prisão e cumpriu 10 meses da pena.

Dahmer foi preso mais de uma vez (Photo by PA/PA Images via Getty Images)

Em setembro de 1988, a avó o expulsou de casa. E ele foi morar no apartamento 213 da 924 North 25th Street, em Milwaukee, onde cometeu a maioria de seus assassinatos. O número de seu apartamento dá título a uma música da banda Slayer presente no disco ‘Divine Intervention’, de 1994, ano da morte de Dahmer.

Àquela altura, já tinha cometido três assassinatos entre novembro de 1987 e março do ano seguinte. Após dopar suas vítimas antes ou logo após transar com elas, Dahmer as espancava, as estrangulava até a morte e em seguida praticava necrofilia.

Para se livrar dos corpos, Dahmer os mutilava, enterrava uma parte - duas vezes ele fez isso na casa da própria avó e descartava outra em alguma lata de lixo. Em seguida os desenterrava e os submetia ao processo de dissolução do restante de carne em ácido. Os ossos das primeiras vítimas eram esmigalhados e descartados.

Com o tempo, Dahmer começou a “colecionar” partes dos cadáveres de suas vítimas, especialmente crânios que eram guardados na geladeira - Dahmer os usava para “treinar beijo na boca”, como confessaria em seu julgamento, além de usá-los para se masturbar - e órgãos genitais conservados em formol. Dahmer também costuma fotografar todo processo com uma Polaroid. Além de necrofilia, Dahmer também praticava canibalismo.

Do final de 1987 a meados de 1991, Dahmer assassinou 16 homens e adolescentes, todos negros ou latinos que conhecia em bares e saunas, que costumava frequentar regularmente desde 1985.

Últimas vítimas, prisão e julgamento

Dahmer quase foi preso no final de maio de 1991, ao tentar matar Konerak Sinthasomphone, irmão mais novo do garoto para o qual Dahmer mostrara o pênis em público anos antes e o levara à prisão. O rapaz de 14 anos foi encontrado nu, dopado e com sangramento anal. Policiais foram até o apartamento 213 junto com Konerak. 

Chagando lá, os policiais foram convencidos por Dahmer, que tinha 31 anos na época, de que ele e Konerak eram namorados e apenas tinham discutido. Pouco depois que os policiais saíram, Dahmer injetou ácido clorídrico no cérebro do rapaz, matando-o e submetendo o cadáver a todo o ritual macabro. 

Depois disso, Dahmer cometeu quatro assassinatos em menos de três semanas, de 30 de junho a 19 de julho de 1991. Três dias depois, levou Tracy Edwards ao seu apartamento. Edwards não gostou da ideia de colocar algemas e conseguiu fugir. Levou policiais até o apartamento 213 e lá encontraram um Dahmer calmo e educado, tentando convencê-los de que tudo não passava de um mal entendido.

Christopher Scarver (à direita) assassinou Dahmer na prisão (AP Photo/Morry Gash)

No entanto, um cheiro forte chamou a atenção dos policiais, que não demoraram a encontrar fotos de cadáveres, um altar com crânios das mesmas e a geladeira com partes dos corpos mutilados. Dahmer ainda tentou reagir, mas acabou preso. No dia seguinte, confessou 17 assassinatos.

Dahmer começou começou a ser julgado em 30 de janeiro de 1992 e no dia 1º de maio foi condenado à prisão perpétua por 15 dos homicídios. A tentativa de assassinato de Tracy Edwards sequer foi julgada diante de tantas outras acusações. Ele só não recebeu a pena de morte porque o estado de Wiscosin, onde foi julgado, não adota a lei.

Pouco mais de dois anos depois, Jeffrey Dahmer foi encontrado morto na prisão. Tinha 34 anos, o dobro do número de assassinatos que cometeu.