Jesus Cristo era preto e defensor dos direitos humanos

(Foto: Divulgação)

Texto / Pedro Borges

No dia 20 de Junho, o Brasil celebra em muitas cidades o feriado de Corpus Christi, palavras que em latim significam o “Corpo de Cristo”. A data é uma recordação à morte e à ressureição de Jesus.

Apesar de não ser feriado nacional, a data é comemorada em diversas cidades do país devido à importância do catolicismo no Brasil, descrito como a maior nação católica no mundo. O momento torna-se especial para religiosos que acreditam na divindade e nas palavras de Jesus Cristo.

O Alma Preta decidiu entrevistar dois teólogos, um católico e outro evangélico, ambos negros, sobre a importância de Cristo para a sociedade.

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Frei David, coordenador da Educafro, rede de cursinhos populares para jovens negros e das periferias, diz que o dia de recordar o corpo de Cristo é também a data de rememorar todas as pessoas violentadas no país.

“Nesse Corpus Christi, dia que celebramos o corpo de Deus, é preciso discutir e refletir sobre os corpos humilhados do povo negro, os mais violentados na sociedade. Homens assassinados pela polícia e mulheres assassinadas por seus maridos. Nesse Corpus Christi, nós queremos lembrar de todos esses corpos fragilizados, quebrados pela opressão, humilhação, desemprego, fome, falta de saneamento básico e casa digna”.

Coordenador da rede de cursinhos populares existente desde a década de 1990 e com sedes nas periferias de grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Minas Gerais, Frei David acredita que a escolha de Jesus de ter experenciado a vida na terra entre os mais pobres foi a possibilidade de ensinar a todos sobre a necessidade de olhar os diferentes como iguais.

“Quando Jesus assume a condição humana, ele vivencia a exclusão, o sofrimento do mundo, não por prazer, mas por nos dar luz de como trafegar, vivenciar, como passar por esse período da fase da terra como pessoa de luz e de bem”.

Frei David considera que “Jesus Cristo era os direitos humanos vivo” e se utiliza dos princípios apresentados por ele ao longo da bíblia para conduzir a Educafro. Os valores da organização são: perdão, partilha, solidariedade, justiça acima da lei, amor pleno, compreensão e integração, libertação do pecado, libertação das dores do corpo, libertação das dores psicológicas e vivência em plenitude da partilha dos bens.

João Luiz Moura, Evangélico e mestrando em Ciências da Religião, recorda que a ação de Jesus estava pautada na proximidade com os grupos sociais mais marginalizados. Para ele, só é possível fazer uma “crítica séria” à sociedade se as pessoas “assumirem” as dores dos outros como Jesus assumiu.

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“‘Deus se fez carne e habitou entre nós’ exatamente para sentir o que um corpo que sangra encarcerado e torturado sente. Não apenas isso. Preso, Jesus denunciou a insensibilidade nos porões sombrios das penitenciárias. É basicamente um consenso entre a sociedade de que os corpos negros, LGBTs, indígenas, mulheres e periféricos não são passíveis de equidade”.

O livro “Jesus e os Direitos Humanos”, organizado pelos teólogos Ronilso Pacheco e por João Luiz Moura, recorda a importância das religiões judaico-cristãs para a formulação dos direitos humanos. A obra foi idealizada pelo projeto Usina de Valores, do Instituto Vladimir Herzog.

O livro, uma celebração dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, reúne nove artigos que relacionam passagens bíblicas e as mensagens de Jesus com a busca contemporânea por justiça, igualdade e defesa dos direitos civis e sociais.

“A afirmação fundamental de Gênesis, primeiro livro da Bíblia é de que, ‘no princípio, Deus criou os céus e a terra’ e que ‘Deus criou homem e mulher à sua imagem e semelhança’. Aqui, no início de todas as coisas, dois princípios se encontram: a criação de todas e todos e sua igualdade em direitos”, traz o texto na abertura.

Política brasileira e a religiosidade

A Frente Evangélica é composta por 198 deputados e 4 senadores, como informa o site da Câmara Federal. O grupo, um dos mais influentes na política nacional, fez pressão para impedir o avanço da criminalização da homofobia e é o principal apoiador de Sérgio Moro, mesmo depois das denúncias da Vaza Jato.

Para Frei David, esses grupos políticos que se utilizam da palavra de Deus para oprimir os demais não estão em acordo com os ensinamentos de Jesus Cristo.

“Há um conflito feio na compreensão da proposta de Deus em Jesus Cristo. Jesus nunca autorizou qualquer seguidor dele a perseguir grupos que pensam diferente. Nós devemos lembrar que no tempo de Jesus existiam mais 15 grupos religiosos diferentes e Jesus simplesmente trouxe a sua proposta sem forçar ninguém a aceitá-la”.

Evangélico, João Luiz Moura afirma que esse segmento religioso é amplo e diverso, por isso exige cuidado para não se generalizar esse setor. “Evangélicos não são iguais, sabemos, e o direito à diversidade e a existência da pluralidade devem ser nosso maior horizonte”. A própria Frente Parlamentar Evangélica conta com políticos de esquerda, como Paulo Teixeira (PT-SP) e Benedita da Silva (PT-RJ), e de direita, caso de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

João Luiz Moura, contudo, admite que há uma aproximação entre a religião e o governo Bolsonaro, que tem se utilizado da palavra de Deus para formular discursos de ódio contra os segmentos sociais marginalizados. O cientista religioso se recorda de pronunciamento do pastor Steve Kunda, nascido no Congo e fundador de uma igreja evangélica em Orleans, na França, que afirmou ser Bolsonaro um político “estabelecido por Deus” para guiar o país.

“A questão é: de que deus? Só quem crê em um deus que exige sacrifícios e sistemáticas violações de direitos humanos como forma de culto pode acreditar que o Sr. Bolsonaro representa uma divindade. O deus dinheiro exige sacrifícios como forma de culto e violências como forma de adoração. Bolsonaro e seus asseclas nunca poderão evocar a sabedoria profética de alguém que ‘se fez carne e habitou entre nós’. Jesus, o Deus humano, ama a vida e tudo que faz viver”.

“Jesus é preto”

“De fato, um olhar teológico, geográfico e social menos colonizado e colonizante logo de cara nos indicaria essa verdade: Jesus é preto”, afirma João Luiz Moura.

Ele acredita que ficou “impossível” afirmar isso por conta da tradição judaico-cristã também reproduzir ao longo da história a lógica do racismo.

“Nossas igrejas seguem reproduzindo o racismo. Nossos seminários teológicos, faculdades de teologia e nosso ensino segue reproduzindo o racismo ao tornarem invisíveis as diversas e profundas compreensões de teólogos negros e teólogas negras ao longo da história”.

Frei Davi concorda com a perspectiva de João Luiza Moura e crítica a escolha de pastores e padres de colocarem nos espaços sagrados a representação de um Jesus branco e de olhos azuis.

“Eu faço um apelo, para as igrejas, padres, pastores, que parem de manipular a figurar sincera de Jesus. É importante que as igrejas, que criam suas unidades nas favelas, cuja maioria do povo é negro, que tenha ali um cristo negro”.