João Camarero: um violão que conquistou as estrelas da MPB

Em seu mais recente álbum, “Noturno” (2021), Maria Bethânia gravou pela primeira vez com o paulista de Avaré João Camarero, de 32 anos, que não conhecia até entrar em estúdio e a quem definiu depois ao GLOBO como “extraordinário e competentíssimo” — hoje, João é o violonista da cantora, tendo participado de shows e gravado com ela ainda em faixas avulsas como “Palácio de lágrimas”, do álbum “Aldir Blanc inédito”.

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Já Paulinho da Viola conhecia o violonista há mais tempo, por intermédio de suas conexões com o choro carioca. E até brincou certa vez que, pela fisionomia e pelo jeito de tocar, João “só podia ser filho de Raphael Rabello (um dos maiores nomes do violão brasileiro, falecido em 1995)”. Para além da brincadeira, porém, deu-lhe duas composições inéditas: “Um choro breve” e “Homenagem a Armando Neves”, que enfim deixam de ser mistério com o lançamento do álbum “Gentil assombro”.

Por telefone, João Camarero recorda ter sido apresentado a Paulinho pelo bandolinista Déo Rian (ex-Época de Ouro, lendário grupo de choro) em 2014, num evento do Instituto Jacob do Bandolim. Os dois tocaram juntos, conversaram e criaram um vínculo (“Mas tudo no tempo dele: um ano depois a gente se falou, dois anos depois a gente se encontrou...”, diz). Mais algum tempo, e eles se reviram esperando malas em um aeroporto (“Ficamos uma hora e meia conversando e combinamos de marcar um encontro, que deve ter acontecido um ano depois”).

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O encontro foi um jantar na casa de Paulinho, onde estavam ainda a cantora Marisa Monte, o violonista Yamandu Costa, o bandolinista Hamilton de Holanda. Certa hora, o anfitrião chamou João num canto e disse que estava fazendo um choro para o violonista Armando Neves (1902-1974) e acertaram um novo encontro. Mais alguns anos e Paulinho mostrou a composição e um outro choro, expressando o desejo de que ele os gravasse. Depois de ajustes (que se estenderam, invariavelmente, por alguns meses), lá estão eles no disco do violonista.

Com toda uma cara de estreia, apesar de ser seu terceiro álbum como solista (“Meu primeiro disco eu não consigo ouvir; o segundo, mais ou menos”, confessa), “Gentil assombro” é uma gravação instrumental, só de violão, que resume a história de João: um garoto que cresceu cercado pelo choro e ainda bem jovem, em 2010, veio para o Rio para estar ao lado de heróis como Jorginho do Pandeiro e Déo Rian. Não demorou muito, teria o seu violão de sete cordas requisitado nas mais diversas gravações.

— Tocar junto é uma das coisas que eu mais gosto de fazer — admite. — Até 2012 estava muito focado no acompanhamento, mas aí fui fazer aula com João Lyra, que eu admirava muito e que tem uma verve solista. Ele ouviu algumas coisas que toquei e disse que eu deveria ter um repertório solo.

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Com composições de Paulinho da Viola e do próprio João ao lado de peças de Radamés Gnatalli, Sérgio Assad e do espanhol Manuel De Falla, “Gentil assombro” é o disco de um músico que se sente desconectado dessa necessidade de sua geração e do seu tempo “de sempre ter que tocar muito muitas notas e improvisar”.

— Eu me vejo a serviço da música, não apoiado nela para aparecer. O virtuoso não é só o cara que toca rápido, ele é o amálgama de muitas virtudes. Tocar rápido é uma delas, mas busco muito outras coisas, como acabamento, limpeza e um discurso — conta ele, que recebeu de Sérgio Assad de presente a composição “Articulado” com um aviso: “Boa sorte com essa encrenca”. — Trata-se de empurrar um pouco a fronteira técnica do violão. O Sérgio propõe coisas para as quais você tem que criar soluções, tem que pensar diferente e mudar um pouco o ângulo da mão.

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