João Pedro, a pandemia e as vidas em risco, dentro ou fora de casa

João Pedro Matos Pinto, 14 anos

Texto: *Paulo Victor Melo*

Mais pessoas circulando pelas ruas, mais gente dentro dos transportes públicos, aglomerações nas portas de bancos. A cada dia, a realidade de desigualdade social e econômica que estrutura o Brasil evidencia que não é suficiente o apelo de especialistas em saúde, jornalistas, governadores e prefeitos para que as pessoas fiquem em casa.

Na ausência de uma política afirmativa de garantia de renda, as populações mais vulnerabilizadas enfrentam a dureza do dilema entre sobreviver ficando em casa ou ir à batalha pelo prato de comida para os seus filhos. Quantas mães não estão em crise por ter que decidir entre ficar em casa cuidando dos seus e procurar emprego para prover o sustento da família?

O que devem estar pensando as trabalhadoras domésticas demitidas antes da pandemia e que se veem desamparadas por uma sociedade que continua a lhes negar uma série de direitos que possuem outras categorias profissionais? E os trabalhadores que enfrentam os ônibus, trens e metrôs sabendo que colocam em risco as vidas dos seus entes assim que retornam para casa? Eles fazem por espontânea vontade?

Para as mais de 12 milhões de pessoas desempregadas no país, para as mais de 38 milhões de brasileiras e brasileiros na informalidade e para as mulheres e homens que não têm o direito de optar por permanecer em casa, a pandemia impôs a crueldade diária de arriscar a própria vida para tentar manter a vida, sua e dos seus.

Vejamos o caso de Neilton Pinto e Denise Roza, moradores do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. No dia em que o Brasil atingia recorde de mortes diárias pelo novo coronavírus, não tiveram outra alternativa que não sair de casa para trabalhar.

Ao retornarem, já sob o barulho de helicópteros da Polícia na localidade, e certamente pedindo em silêncio aos santos e orixás que nada de ruim tivesse acontecido, não encontraram João Pedro Matos Pinto, 14 anos, filho e sobrinho, respectivamente.

Diferente do pai e tia, João Pedro poderia ficar dentro de casa. E estava. Conforme relatos de Leandro Gouveia, seu professor de ciências, João Pedro participava de todas as aulas online da sua escola, o Centro Educacional Pereira Rocha, onde cursava o 9º ano do ensino fundamental.

Mas foi sob o seu próprio teto, brincando com o seu primo, que o menino que sonhava ser advogado foi baleado e assassinado numa ação de militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e agentes da Polícia Federal.

Além da barbaridade da morte em si, Neilton, Denise e Rafaela Matos, mãe de João Pedro, enfrentaram ainda 17 horas de procura, sem respostas do Estado, pelo adolescente. Quase um dia inteiro sem notícias de para onde João Pedro foi levado. Quase um dia inteiro sem saber se o garoto continuava vivo.

Infelizmente, não. João Pedro estava no Instituto Médico Legal e era, a partir daquele momento, mais uma vítima fatal do mesmo Estado que assassinou Agatha Felix, 8 anos, em setembro do ano passado, quando voltava para casa com a mãe dentro de uma kombi.

João Pedro foi vítima do mesmo Estado que assassinou Gustavo Cruz Xavier, Dennys Guilherme Franco, Bruno Gabriel dos Santos, Luara Victoria de Oliveira, Eduardo Silva, Dennys Henrique Quirino, Gabriel Rogério de Moraes, Matheus dos Santos Costa e Marcos Paulo Oliveira dos Santos, na madrugada de 1 de dezembro do ano passado, em Paraisópolis, São Paulo.

João Pedro foi vítima do mesmo Estado que, segundo dados do relatório de uma CPI do Senado, mata um jovem negro a cada 23 minutos. Vítima do mesmo Estado que, de acordo com levantamento do Instituto de Pesquisa e Estatística Aplicada (IPEA) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 75,5% das suas vítimas de homicídios têm a pele preta.

Enquanto a família de João Pedro o procurava, um boletim epidemiológico do Ministério da Saúde confirmava que negros e negras são maioria das pessoas mortas pela Covid-19 no Brasil, numa proporção que apenas cresce. Até 10 de abril, negros e negras eram 32,8% das vítimas fatais. Agora, são 54,8%.

Dentro de casa ou fora de casa, pela ação direta das Polícias ou pela ausência de políticas públicas que garantam saúde, educação, saneamento, assistência social, habitação, emprego e renda; não é coincidência que negras e negros sejam as principais vítimas do Estado brasileiro.

*Paulo Victor Melo é jornalista, professor universitário, doutor em Comunicação e Cultura contemporâneas.