Por que João Doria foi rifado pelo PSDB às vésperas da campanha presidencial?

Brazil's Sao Paulo state governor Joao Doria gestures at Palacio dos Bandeirantes, the seat of the Sao Paulo State Government in Sao Paulo, Brazil March 31, 2022. REUTERS/Amanda Perobelli
O ex-governador e (ex?) pré-candidato tucano à Presidência João Doria. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

João Doria foi rifado pelo PSDB da disputa presidencial de 2022*.

O ex-governador paulista, que ganhou o posto de pré-candidato nas prévias da legenda, virou presença incômoda no ninho tucano, que já não sabia o que fazer com ele. Faltava encontrar a ele uma "saída honrosa" —uma licença poética para quem teve a testa pintada com um círculo vermelho antes da ordem do fuzilamento.

Sua saída não encerra os dilemas do partido. Hoje parte do PSDB defende que a legenda desista de ter candidato próprio na corrida ao Planalto e priorize energia e verbas do fundo eleitoral para os candidatos do Legislativo. Outra parte defende apoio a Simone Tebet, do MDB.

Há quem tope qualquer nome. Doria não era uma escolha, como ele mesmo admitiu.

A dúvida existencial daquele que já foi o principal partido do país agora é: abrir mão da disputa principal e assumir que perdeu relevância ou fechar os olhos e correr em direção a uma batalha praticamente perdida?

Em 2018, por conta do novo arranjo de forças políticas do país, o PSDB fez figuração numa disputa polarizada entre PT e Jair Bolsonaro, então no PSL. Geraldo Alckmin terminou a eleição com menos de 5% dos votos.

O PSDB, que desde a derrota nas eleições de 2014 vinha flertando com o extremismo, foi engolido pelos bichos que ajudou a alimentar. Hoje se pergunta quem é e a quem serve.

Qualquer partido com alguma pretensão, mesmo que regional, tem na vitrine presidencial uma janela de visibilidade. Com o PSDB não seria diferente, mas o cálculo, sob Doria, era outro.

O pré-candidato escolhido nas prévias tucanas detém altos índices de rejeição em qualquer pesquisa de intenção de voto.

A ponto de seus atuais correligionários fugirem dele feito o diabo para não contaminar o palanque com a aversão.

Foi assim, em escala menor, nas eleições para a prefeitura de São Paulo, quando Bruno Covas evitou explorar a imagem do então governador em sua propaganda.

O mesmo deve acontecer nos estados onde o PSDB ainda é forte. Nessa conta entra o Palácio dos Bandeirantes, administrado por tucanos desde 1995.

Depois de 27 anos, o partido tem chances reais de fazer figuração nas eleições para governador desta vez. Rodrigo Garcia, o atual chefe do Executivo paulista, sabe disso.

Pois uma coisa é esconder o aliado indigesto quando ele não está em campanha, como aconteceu em 2020. Doria era governador e podia dizer que os compromissos com o mandato o impediam de trabalhar por seu ex-vice na prefeitura.

Outra coisa é tirar o presidenciável do santinho, do palanque e da propaganda de TV dos candidatos nos estados.

A escolha tucana parece levar uma triste constatação em conta: melhor correr sozinho do que com candidato a presidente mal avaliado.

Doria deixou o governo de São Paulo com 36% de reprovação e apenas 23% de aprovação. Pior: num levantamento divulgado em abril, o Datafolha mostrou que 66% dos paulistanos rejeitavam votar em qualquer candidato apoiado pelo ex-governador.

No ninho tucano, cheio de ambições e rivalidades, é o suficiente para adversários irem às armas e os aliados se esconderem atrás da trincheira. O resultado é o isolamento.

O afastamento de outro ex-vice é um fim melancólico para Doria.

O pragmatismo dos possíveis aliados deixa para depois as respostas sobre se este seria mesmo o desfecho mais justo para um dos principais entusiastas da criação de uma vacina nacional no momento mais tenso e de maior desamparo à população durante a pandemia. Doria tinha um trunfo, mas ela não foi suficiente.

Se tivesse cumprido seu mandato de prefeito até 2020, como aliás havia prometido, Doria poderia estar neste momento recolhendo as marcas mais decantadas da gestão para se apresentar como candidato a governador ou mesmo presidente.

Se, mesmo tomando esse atalho, tivesse entendido o contexto para 2022, poderia tentar agora um novo mandato como governador. A máquina em mãos seria seu maior argumento para convencer aliados a minimizarem seus índices já consideráveis de rejeição.

Mas, como num desses jogos de auditório em que o participante pode ficar com um prêmio parcial ou se arriscar a ficar sem nada para tentar levar um milhão, Doria acelerou o plano em direção ao Planalto sem perceber que no caminho atropelava aliados e colecionava inimigos.

Seu discurso agressivo de base antipetista dos primórdios garantiu a ele a antipatia mais calcificada da esquerda. Seu rompimento com o bolsonarismo após a dobradinha das eleições de 2018 fez dele inimigo da direita mais conservadora. Sobrou o quê?

Doria deixou o governo paulista para seu vice, que agora o rejeita, e não tem mais para onde correr. Nem à frente nem atrás.

Seu ensaio de resistência para ser candidato a presidente, mesmo que por ordem judicial, não colocava em risco apenas as pretensões tucanas em nível nacional. Punha em risco também, e principalmente, uma dinastia de quase três décadas no maior colégio eleitoral do país. Sobraria o quê?

*Texto atualizado às 12h15

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