Com cronograma de vacinação, Doria desloca poder para eixo paulista

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Brazil's Sao Paulo state governor Joao Doria and director of Instituto Butantan Dimas Tadeu Covas hold a box of the China's CoronaVac vaccine near a refrigerated container with vaccines against the coronavirus disease (COVID-19), as it arrives at Sao Paulo International Airport in Guarulhos, Brazil November 19, 2020. Picture taken November 19, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli
O governador de SP, João Doria. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Brasil fica atrás na corrida por vacina contra Convid-19. Foi o que anunciou a Folha de S.Paulo em sua manchete no domingo 6.

A notícia ajuda a entender o clima de impaciência diante da inanição do país na busca da imunização. Isso porque a aposta do governo federal era a vacina produzida pela Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca, cuja média de eficácia é de 70%. As fichas começam a se perder.

Enquanto isso, países mais organizados já se preparam, tendo garantido a compra de outras fabricantes que nos últimos dias anunciaram resultados positivos com seus imunizantes.

O governo federal, que negou a gravidade da pandemia desde o começo, até então jogava na ambiguidade, ora atacando a fabricante chinesa, aposta do governo paulista, ora deixando dúvidas sobre a obrigatoriedade da vacina.

A imagem de Jair Bolsonaro mostrando uma cartela de cloroquina para as emas do Palácio do Alvorada resume a habilidade do governo em apontar caminhos para a crise sanitária mais grave deste século.

Eis que, na segunda-feira 7, o governador João Doria (PSDB) anunciou, pela primeira vez, um cronograma a respeito da imunização não só em São Paulo mas em outros estados que venham a pedir ajuda ao Palácio dos Bandeirantes. A vacinação, anunciou Doria, começa dia 25 de janeiro e será aplicada, nesta primeira etapa, em profissionais da saúde, indígenas e quilombolas —os grupos sociais que mais precisam e, ironicamente, mais são atacados pelo atual presidente.

É como se Doria dissesse que, se o governo federal não vai à vacina, a vacina vai aos outros entes federados —mas graças à sua liderança. Bolsonaro, que chegou a celebrar o suicídio de um voluntário dos testes da vacina chinesa, dizendo que ela levava à morte, terá trabalho extra a combinar com o gabinete do ódio para desacreditar o imunizante do rival entre o público-alvo das próximas etapas: os idosos.

Vai ser uma guerra das vacinas versão 2.0. Uma guerra que será travada por corrente de Whastapp.

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Inseguro como é, Bolsonaro não vai deixar barato que um rival desloque, durante os esforços de imunização, o governo central para o Morumbi. No vácuo de lideranças, será praticamente isso o que acontecerá caso São Paulo se torne não o primeiro, mas o mais importante ente federativo a apresentar uma saída para a crise. Os avessos da politização da questão que lutem para explicar como não associar a solução sanitária à liderança política que faltou em Brasília enquanto Bolsonaro falava de cloroquina, que não era coveiro, que todos vamos morrer um dia etc.

Doria, neófito em cargos majoritários até ser eleito com o slogan “acelera”, faz uma aposta de risco. Ele anunciou o cronograma antes mesmo da divulgação dos resultados de uma fase importante dos testes. Pode ter colocado os carros na frente dos bois. Ou pode, como é mais provável, ter sido informado dos progressos nesta etapa e se antecipado para jogar pressão sobre a Anvisa, a agência de vigilância sanitária que Bolsonaro tenta transformar em trincheira.

A vacina que pode devolver alguma normalidade ao mundo pós-pandemia é o objeto mais desejado hoje no mundo. Bolsonaro vai ceder o mérito ao rival ou vai entrar para a história como o presidente que segurou a salvação para não largar atrás na corrida da sucessão que acaba de ser iniciada?