Doria diz que Bolsonaro sonha com ele todas as noites e lamenta: "É triste termos um presidente assim"

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Foto: Roberto Casimiro/Fotoarena/Sipa USA via AP Images
Foto: Roberto Casimiro/Fotoarena/Sipa USA via AP Images

Depois de uma semana em que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) suspendeu e depois voltou a autorizar os testes da Coronavac, os ânimos entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e governador de São Paulo João Doria (PSDB) se acirraram ainda mais. Nesta sexta-feira (13), o tucano se pronunciou e fez duras críticas ao presidente.

Após o anúncio da suspensão dos testes pela agência, Bolsonaro criticou Dória e celebrou a interrupção do processo (paralisado por um “evento adverso grave") que visa concluir a eficácia da vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan e a chinesa Sinovac. Nas redes sociais, o presidente afirmou ter “vencido mais uma", fala que repercutiu negativamente.

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"Ele é um irresponsável. Eu me decepcionei mais do que me surpreendi. Foi chocante, não só para o Brasil, mas para o mundo. Mais de sessenta veículos de mídia publicaram reportagens condenando a posição do presidente. Não se pode celebrar a morte e comemorá-la como se fosse uma vitória. Não se comemora uma morte, se chora por ela. Bolsonaro classificou de covardes as pessoas que não estão saindo para garantir a sua sobrevivência. Ele chamou de “maricas” quem está protegendo a própria saúde, a dos familiares e a dos amigos. É triste termos um presidente assim", lamentou Doria em entrevista à revista Veja.

Em tom irônico, Doria recomendou a Bolsonaro que não sonhe com ele todas as noites. “Espero que tenha outras coisas para pensar, como cuidar do Brasil, e não só em eleição [referindo-se ao pleito presidencial em 2022]".

Questionado se, por serem declaradamente adversários políticos, o governo federal estaria obstruindo a vacina desenvolvida em São Paulo, Doria cobrou “equidade” e “senso de justiça".

“O governo federal prometeu 84 milhões de reais para a fábrica do Butantan que irá produzir aqui o imunizante. Até agora, não deu. Não entendo porque a Fiocruz, que é uma instituição federal respeitadíssima, já tem à disposição 1,9 bilhão de reais para a compra das doses do seu programa com a vacina de Oxford ou para a ampliação da fábrica, e o Butantan, que é tão respeitável quanto, não tem nada ainda. Que procedimento é esse que estabelece condições privilegiadas a um em detrimento de outro? Cadê a equidade e o senso de justiça?", questionou o governador paulista.

Apesar da relação tensa com Bolsonaro, Doria alega possuir uma boa relação com Eduardo Pazuello, ministro da Saúde. O tucano vê o militar sendo pressionado pelo presidente no cargo e cobrou que a vacina não seja politizada.

“A relação segue boa e fluida, mas talvez, agora que eu falei isso, o Bolsonaro vá adverti-lo. Obviamente, Pazuello tem sido pressionado pelo presidente. Mas com a gente sempre teve uma atitude republicana e de diálogo. Não podemos transformar a corrida da vacina em uma guerra, pois o mais prejudicado será o brasileiro. A corrida não é pela vacina, mas pela vida e pela vida precisamos de várias vacinas. Talvez no Brasil sejam necessárias pelo menos quatro vacinas para imunizar os quase 215 milhões de habitantes", projetou o tucano. Até essa sexta, o Brasil já contabilizada mais de 164 mil óbitos.

Apesar de toda a polêmica envolvendo a Coronavac, Doria acredita que o Instituto Butantan saiu fortalecida do episódio envolvendo Bolsonaro.

"Acho que o Butantan sai valorizado. Ele é o maior produtor de vacinas da América Latina e um dos maiores do mundo. Fez o que tinha de fazer. Quem fugiu a esse princípio foi a Anvisa. Estamos numa pandemia, que exige medidas rápidas e eficientes (...) Não se pode protelar a aprovação de uma vacina por fatores que não são técnicos e científicos", afirmou o governador.