Joaquim Ferreira dos Santos: Gal pôs os cornos no conservadorismo

O moderno canto feminino na música brasileira se divide em antes e depois da noite de 13 de novembro de 1968, quando Gal Costa entrou no palco de um festival no Teatro Record carregando um espelho à guisa de colar. Tinha os cabelos encrespadamente black power em plena civilização do corte Chanel da Elis.

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Como se não bastassem todos esses espantos, numa época de vozes educadas pela suavidade da bossa nova, Gal botou os bofes para fora e, correndo pelo cenário, sem mais os banquinhos de contenção, apresentou aos gritos o manifesto pop de “Divino, maravilhoso”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Ali ela deixava de ser a Maria da Graça que um ano antes tinha feito com Caetano um disco ao jeito antigo, “Domingo”, os dois ainda disciplinados pelas ordens de pacificação dos instintos vocais dadas por João Gilberto. Surgia uma Gal revolucionária.

Ela juntou a afinação que Deus lhe deu com os agudos agressivos de Janis Joplin e, mais que uma nova cantora, inventou um tipo de mulher moderna que começava a se parecer com as que conhecemos hoje. Elis talvez fosse mais técnica, Bethânia talvez mais dramática. Gal soava o Brasil profundo (o seu melhor LP é aquele em que canta Caymmi) e o que ele poderia vir a ser.

O nome dela era Gal, uma fruta gogoia, uma chuva de prata, a Lindoneia desaparecida, a vaca profana que botou os cornos acima do conservadorismo e, uma baby sem discursos, na base do “leia na minha camisa”, avançou com suas empoderadas tetas por um país mais feminino. As funkeiras, as sertanejas, todas devem achar que foi sempre assim, o escancaro geral, o faz-o-que-tu-queres-pois-é-tudo-da-lei. Coitadas.

No final de 1971 e até março de 1972, eu estive por muitas noites aboletado nas cadeiras de madeira do Tereza Rachel, no tempo do teatro sem ar refrigerado, e vi, com a religiosidade de quem vai à Fátima na busca de algum milagre, o show “A todo vapor”, mais conhecido como “Gal Fa-tal”.

Os militares estavam no poder, mas em Copacabana Gal Costa denunciava sutil o desacerto das coisas em canções como “tente passar pelo que estou passando”. Não era um show, mas uma procissão em protesto por mais liberdade — e saiu daquelas noites abafadas uma das imagens mais icônica de resistência à ditadura nos anos de chumbo.

Ludmilla e Anitta não vão acreditar, mas exigia-se das mulheres uma imensa lista de bons modos para não serem vítimas de maledicências. Ao tocar o violão, por exemplo. Nara Leão, moça fina da família Zona Sul, fazia do jeito recomendado pelos manuais de boa etiqueta. E apoiava o instrumento sobre as pernas bem fechadas. Em “A todo vapor”, linda e jovem, mais uma vez ela fez o contrário do que se esperava e escandalizou o país. Ao invés de fechar as pernas, Gal Costa, a fruta gogoia, divina e maravilhosa, abriu.