No Brasil todos querem ser o Joe Biden da próxima eleição. Mas não será tão fácil

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U.S. President Donald Trump and Democratic presidential nominee Joe Biden are reflected in the plexiglass protecting a tv camera operator from coronavirus as they participate in their second 2020 presidential campaign debate at Belmont University in Nashville, Tennessee, U.S., October 22, 2020. REUTERS/Mike Segar     TPX IMAGES OF THE DAY
Donald Trump e Joe Biden durante debate nos EUA. Foto: Mike Segar/Reuters

Joe Biden mostrou que é possível, pela moderação, neutralizar, ao menos pelos próximos quatros anos, o populismo de direita encarnado por Donald Trump. Essa é a boa notícia para quem acompanhou a eleição norte-americana com os olhos na disputa para presidente do Brasil daqui a dois anos.

A má é que dificilmente um candidato ao estilo Joe Biden teria chance de triunfar no Brasil.

Para derrotar o rival republicano no round encerrado com o resultado na Pensilvânia, Biden acenou a movimentos progressistas, escalou uma mulher negra de ascendência asiática como candidata a vice e evitou falar a mesma língua do adversário, marcada por bravatas e o tom incendiário. O apelo à razão, ao consenso e ao “velho normal”, trocadilho adotado por alguns jornais brasileiros, funcionou.

Funcionaria por aqui?

Há dúvidas. Muitas.

No sistema bipartidário norte-americano, a diversidade das pautas progressistas ficaram concentradas em um candidato que está na vida pública há 50 anos e tem na capacidade de dialogar com diversas frentes o seu maior trunfo. Isso fazia de Biden o melhor candidato anti-Trump, ao invés de uma opção mais radicalizada à esquerda, como queriam os apoiadores de Bernie Sanders. Uma virtual disputa Trump x Sanders seria uma disputa de terrenos parecidos da arena anti-sistema.

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Por aqui, tudo se complica. Não só porque a disputa não se dá nos colégios eleitorais, mas porque as pautas dos campos progressistas ou mesmo dos conservadores não identificados com o bolsonarismo estão pulverizadas num sistema composto por mais de 30 partidos — dos quais ao menos dez têm força para eleger governadores e prefeitos em cidades-chave. Como todos têm, de saída, alguma chance, nenhum deles vai querer, como sempre, ceder a vez.

De certa forma, 2018 já foi um plebiscito sobre o que já estava em jogo desde a eleição de Donald Trump, uma espécie de spoiler do que viria por aqui. A tensão levada pelo incendiário presidente tuiteiro já colocava a ordem institucional de seu país em teste. Era mais do que um alerta.

Jair Bolsonaro, a versão tupiniquim do ídolo americano, se tornou o candidato a ser batido a certa altura da eleição. Chegou ao segundo turno com 49 milhões de votos -- um terço do total do eleitorado. Os demais votos válidos foram pulverizador em candidaturas incapazes de se colocarem como a tão almejada frente ampla hoje buscada como o Santo Graal.

O sistema partidário brasileiro permite esta dispersão. Só no campo da esquerda, três ex-ministros do governo Lula competiam pelo mesmo eleitorado: Fernando Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). Tinham ainda a concorrência de Guilherme Boulos (PSOL).

À direita Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB), João Amoedo (Novo) e Álvaro Dias (Podemos) tentavam, em vão, conter a sangria de votos migrados para Bolsonaro.

Nesta disposição, um teto de 20% de apoio a um único candidato já eram suficiente para levar qualquer postulante ao segundo turno. Na etapa seguinte a decisão historicamente passa a ser pautada pela rejeição. Escolhe-se o candidato menos intragável. E este candidato assume sem ser o favorito da maioria absoluta.

Bolsonaro venceu o segundo turno com 57,8 milhões de votos, contra 47 milhões do petista Fernando Haddad, e 41 milhões de votos brancos, nulos ou abstenções.

Em 2022, tudo aponta que essa dispersão não será tão grande. Lula e Ciro voltaram a conversar, enquanto Luciano Huck se articula com Sergio Moro e tenta trazer João Doria (PSDB) para o mesmo barco. Após a vitória de Biden, tentam emplacar agora o selo de candidatos do “centro”. Spoiler: não cola.

Se a articulação vingar, a eleição seria travada em ao menos três frentes: uma direita desiludida com o bolsonarismo, uma oposição à esquerda menos dispersa e o próprio governo, provavelmente atrelado ao “centrão” (sim, é preciso uma aula básica de Brasil contemporâneo para algum estrangeiro entender as diferenças entre “centro” e “centrão” por esses lados. Boa sorte a quem tentar).

Fato é que o campo bolsonarista, por mais rejeitada que seja hoje por boa parte dos eleitores, promete radicalizar até o limite para energizar a sua base e chegar o mais longe possível com o mínimo. Confrontá-lo pela via da moderação exigirá uma frente mais ampla do que as que se ensaiam até aqui. Mas hoje é simplesmente impensável uma associação entre lulistas e lava-lavajatistas para derrotar o inimigo comum.

O mais provável é se estropiarem entre si, que um deles chegue avariado ao segundo turno e que o consórcio que ficar de fora decida pela opção mais “palatável” tampando o nariz. Foi o que aconteceu em 2018, quando o apelo pela moderação foi engolido no caldo fervente. Pode se repetir em 2022.

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